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Julián Fuks


Julián Fuks

O que a quarentena nos rouba? Inventário de saudades e perdas íntimas

Centro histórico de São Paulo vazio durante a quarentena - SUAMY BEYDOUN/ESTADÃO CONTEÚDO
Centro histórico de São Paulo vazio durante a quarentena Imagem: SUAMY BEYDOUN/ESTADÃO CONTEÚDO
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

23/05/2020 04h00

O que se torna necessário e urgente, o que se dispensa, o que permanece em nós mesmo quando ausente: talvez seja nos momentos mais agudos que ganhamos consciência dessas diretrizes íntimas. A pandemia que se faz trauma coletivo, o medo difundido, a dor à espreita, tudo isso nos desorienta e acaba nos convidando a ordenar afetos, ternuras, tristezas - e assim a descobrir saudades imprevistas, a lamentar perdas antes insuspeitas.

Albert Camus narra, em "A peste", o casal que se vê em lados distintos da trincheira sanitária e resolve encarar o risco, resolve romper o isolamento e se unir. Essa passagem do livro seria banal, quase piegas, não fosse a ressalva posterior, a observação de que até então eles não eram em nenhum aspecto grandes amantes, nenhum exemplo de felicidade conjugal, a ponto de nunca terem chegado à certeza de estarem satisfeitos. E então veio a peste, veio a imposição do afastamento, e esses seres desapaixonados se perceberam incapazes de guardar distância. Subitamente, viram-se tomados por um amor maior que o medo, um amor diante do qual "a peste era coisa sem importância".

Os estranhos dias agora rotineiros talvez não sejam feitos de gestos grandiosos como esse, mas não deixam de trazer sua verdade anunciada em miudezas. No vazio da quarentena que por vezes se parece a um exílio, como aponta também Camus, tantos de nós vamos sentindo no corpo uma insuficiência, a falta que fazem os pais, os irmãos, os amigos, os colegas distantes, às vezes até os desconhecidos, quanto a vida se torna insensata na ausência de toda essa gente. Contra todo o burburinho que nos alcança em várias frentes, na profusão de notícias, de mensagens, de vídeos, de lives, essa falta parece se instalar como uma mudez intestina, um silêncio.

Entendi melhor o que eu mesmo sentia ouvindo a minha filha mais velha, na sinceridade desabrida de seus quase três anos, acompanhando seus anseios indiscretos. Desde o início ela negou sentir falta da escola, e pouco lamentou a ruptura total da rotina, como se só estar em casa com a mãe, o pai, a irmã tão nova em sua vida pudesse lhe bastar completamente. Há algumas semanas, porém, ela começou a fazer interrogatórios insistentes: o que a vovó está dizendo agora, o que a prima está dizendo, o tio, o amigo, a vizinha, o que todos os vizinhos, o que todo mundo está dizendo? Ela não sente uma falta protocolar dos outros, é o que percebo. Sente falta de suas vozes, de suas frases corriqueiras, do mundo inesperado que se abre a cada palavra alheia.

Não é o bastante marcar encontros virtuais e conversar em vídeo, nem para ela, nem para mim - ao que parece para ninguém. A figura fantasmática do outro lado da tela nunca cumpre o que dela se espera, nunca supre a falta, talvez porque tenta supri-la de maneira consciente. Olhar os outros nos olhos não basta, pelo contrário, chega a ser parte do problema, uma entre as muitas razões da insuficiência. O que ela deseja, ou o que eu desejo, é ver o gesto desavisado, o ato não programado, a frase desinteressada e indiferente - tudo o que só se manifesta quando há presença física, quando sobram espaço e tempo.

Saudade é um pouco como fome", quem diz é Clarice Lispector. "Só passa quando se come a presença."

O que tem se produzido, creio, é um irredimível alheamento. Com o passar das semanas, algo mais do que paredes e ruas vazias nos afasta dos outros, rompendo a intimidade que tínhamos com tudo o que nos cerca. Senti isso ao ver imagens do centro de São Paulo, numa reportagem que retratava a adesão tão parcial à quarentena. Vi que eu mesmo, desta vez, preferia não olhar as pessoas, e encontrava um melancólico prazer em observar as fachadas, as calçadas, as árvores, em contemplar a cidade desolada. Faz apenas dois meses que não a vejo, que não percorro seus caminhos tortos, que não lamento seus tumultos e ruídos, e ainda assim descobri em mim uma saudade da minha cidade.

Uma semelhante saudade, se é esse o nome, me ocupa mesmo na presença do objeto, pois o alheamento se manifesta também em relação àquilo que posso acessar diariamente. Estou falando agora dos livros, dessa voz dos outros que prefere dizer em silêncio, manchando o papel. A cada dia folheio livros, visito textos familiares, surpreendo alguns desconhecidos, mas me sinto menos capaz de me entregar por completo à leitura, de deixar que ela tome a minha mente inteira. O momento que vivemos é estridente demais, a cada instante convoca os meus pensamentos. Sinto falta, então, de uma literatura plena - e sinto falta de um passado e de um futuro que se deixem ler sem a lente do presente.

Toda distração, neste exílio coletivo em cidade própria, não é mais que uma tentativa de distração. Toda calma é uma tentativa de calma. Toda paz é uma tentativa de paz, e tão fugidia, tão indecorosa. Distração, calma, paz, tudo nos rouba a quarentena, tudo nos rouba esse alheamento. Mas ao menos em tal inquietude, como os velhos novos amantes de Camus, posso reconhecer em mim um amor faminto pelas pessoas da minha vida, pela minha cidade, e pelos livros da minha biblioteca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Julián Fuks