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Júlia Rocha

Influenciadores digitais para quem quer mudar o mundo

Thiago Torres estuda Ciências Sociais na USP e criou o canal Chavoso da USP - Reprodução/Instagram/@thitorresz
Thiago Torres estuda Ciências Sociais na USP e criou o canal Chavoso da USP Imagem: Reprodução/Instagram/@thitorresz
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

08/11/2020 12h57

As nossas angústias cotidianas com as injustiças são tantas e tão frequentes que acabamos por desenvolver uma mórbida habilidade de passar por elas sem permitirmos uma mínima reflexão mais aprofundada sobre os fatos.

Seja rolando a tela do celular ou trocando de canal na TV, nossa aparente insensibilidade diante das notícias revela o que é óbvio: ninguém tolera lidar com o volume imenso de tragédias às quais temos acesso cotidianamente.

Não há cérebro humano que resista a horas por dia vendo fotos de desastres naturais, desastres sociais ou lendo notícias de corrupção e aumento da violência.

Ocorre que, de um lado, passamos a naturalizar e banalizar o inaceitável na tentativa de manter nossas emoções minimamente saudáveis. De outro, vamos aos poucos nos desligando do contexto das coisas, do entorno dos fatos e nos tornamos tristemente incapazes de analisar com clareza o caminho que leva à tragédia, suas razões políticas e suas consequências sociais.

São tempos de profunda e massiva despolitização. Tempos em que parece que até a nossa capacidade de perceber as injustiças está comprometida por essa banalização.

Assim, achamos que trabalhar até o esgotamento, sem qualquer vínculo ou direito, sendo explorado por um aplicativo é aceitável. Olhamos para a profunda destruição do meio ambiente e somos incapazes de perceber a relação disto com um modo de produção que propõem desigualdade, desemprego e acumulação infinita de riqueza por uns poucos.

Por vezes, seguimos individualizando debates e isso é especialmente perigoso. O jovem negro morto pela polícia já não é mais a concretização de um processo histórico de desigualdades e de profundas injustiças baseadas no racismo estruturante do capitalismo. Ele é só um jovem que foi mal educado pela mãe.

A mulher estuprada e depois revitimizada por um sistema de justiça patriarcal e misógino não é mais a concretização dos danos mais agudos e doloridos do machismo (que estrutura o capitalismo). Ela é só uma jovem sem juízo, que bebeu demais e agora quer dizer que não consentiu o ato sexual.

Se não cuidamos, o único resultado da leitura dessas manchetes é o ódio. E ódio desorganizado é improdutivo e adoecedor.

Organizemos, então, nossas tristezas, nosso desencanto, nossa ira politizando o debate sobre o que nos afeta. Entendendo que tudo é político, do genocídio negro à submissão da mulher, do agrotóxico à mudança climática, do desemprego à fome, da ausência do professor e do médico à sua vizinha esfaqueada pelo marido, somos capazes de perceber que as transformações que precisamos para construir um mundo mais justo são transformações estruturais. Paramos de culpar a mãe do jovem morto, a mulher estuprada, o motoqueiro desempregado e passamos a contemplar as estruturas desse sistema, e esse, sim, é o primeiro passo para transformar o mundo radicalmente.

A internet, a mesma que nos impõe despolitização, debates superficiais, culpabilização da vítima e criminalização da pobreza, também nos traz a magnífica possibilidade de conhecer professores, estudiosos, especialistas que aprofundam e questionam as estruturas com propriedade.

Tenho experimentado uma transformação pessoal que é consequência desse acesso privilegiado. Quando eu poderia pensar que por esta tela, a mesma por onde me chegam superficialidades e debates empobrecidos, chegariam também aulas as quais, de outro modo, eu nunca assistiria? Aulas de pessoas realmente comprometidas com a ciência e com a melhoria do acesso do seu público à complexidade do mundo e aos desafios para mudá-lo.

Ao longo do tempo fui percebendo que popularizar debates complexos não se trata necessariamente de simplificá-los para que caibam em um vídeo de dois minutos. Não! É possível formar pessoas. Capacitá-las para que se tornem leitoras, para que aprofundem-se sobre temas que são relevantes e construam debates que podem transformar esse estado de coisas. Debates complexos precisam seguir sendo complexos. As pessoas é que precisam ser capacitadas para ele. A simplificação empobrece e frusta, justamente por que é incapaz de transformar as coisas.

Há quem se proponha a esta nobre aventura por meio da produção de conteúdo em plataformas gratuitas como o YouTube.

Valeska Zanello, psicóloga e pós doutora em estudos de gênero tem trazido discussões de altíssimo nível abordando a influência da cultura patriarcal e suas consequências no cotidiano e no adoecimento físico e mental de mulheres.

José Paulo Netto, reconhecido professor e intelectual, discute sociologia com encantadora competência e incomum paciência com os iniciantes.

Virgínia Fontes, historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense, faz poesia em forma de aulas magistrais sobre história, sociologia e política.

Até Silvia Federici, filósofa italiana radicada nos Estados Unidos, eu conheci em vídeos antes mesmo de ter acesso aos seus livros.

Thiago Ávila fala de um outro mundo possível, de agroecologia, de acesso à terra, de soberania alimentar e de Bem Viver em vídeos didáticos, com linguagem acessível e recheados de referências e fontes sérias para aprofundamento nas temáticas abordadas.

Thiago Torres, o Chavoso da USP, estudante de Ciências Sociais, traz ao debate a contribuição importante de quem não apenas se dedica a estudar mas traz consigo a vivência de um jovem negro da periferia de São Paulo. Thiago tem hoje um canal acompanhado por mais de 110 mil pessoas.

Débora Baldin traz irreverência e muito conhecimento ao falar sobre temas como visibilidade lésbica e história e política Latino-americana.

Foi também no YouTube que conheci Sabrina Fernandes, uma socióloga que construiu um canal potente de formação política que hoje é acompanhado por mais de 330 mil pessoas.

Mais do que publicar conteúdo sobre política, estes homens e mulheres vem propondo uma formação qualificada da sua audiência. A sugestão de leituras e o apoio a estas leituras é a regra.

Foi por essas e outras influências que repolitizei minhas reflexões e passei a responsabilizar os agentes certos pelas tragédias que tomam nossos celulares e nossas vidas.

É, de fato, um trabalho de formiguinha e isso não deveria assustar. É historicamente assim. Fortalecer e apoiar o trabalho de quem se propõem a democratizar conhecimento é importante e urgente. Só assim, aprofundando e qualificando o debate, é que seremos capazes de reconquistar mentes e corações ansiosos por transformar a realidade e o mundo em que vivemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.