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Júlia Rocha


Dona Ruth, seu violão e o feminismo que enfrenta estruturas

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

19/07/2020 11h31

Dona Ruth, 76 anos, obedecia com rigor todo roteiro de vida de uma mulher idosa na periferia da periferia da periferia. Aquela era uma consulta para ajustar suas medicações, mas a realidade que veio à tona se impôs de tal forma que era impossível relevar. Judiada pelo trabalho sob o sol vivido durante boa parte da sua juventude, Ruth seguia trabalhando em casa, numa rotina difícil e pesada até para uma pessoa jovem.

O trabalho doméstico, como bem explica Silvia Frederici em seu livro "O ponto zero da revolução", apesar de ser fundamental para a manutenção do sistema de produção capitalista, já que é ele que produz a possibilidade de trabalho dos bilhões de trabalhadores mundo a fora, é trabalho menor, tido como menos valoroso, que deve ser feito dia após dia como uma manifestação dos sentimentos que nutrimos em relação à nossa família. Ou seja, trabalhar sem remuneração, sem folga, sem horário de chegar e sair, sem direito a afastamento em caso de doença, sem previsão de aposentadoria, sem férias, sem equipamentos de proteção individual deve ser normalizado, aceito com doçura e chamado de Amor.

Para Dona Ruth, se, durante toda a vida, quem se beneficiou da exploração do seu trabalho foi o marido, que podia sair para trabalhar, alcançar posições, melhorar sua renda e obter prestígio social, na velhice, sua exploração ficou a cargo de seus filhos. Com os resultados de seu trabalho sendo redirecionados, quem passou a colher mais diretamente os benefícios da exploração desta mulher que aos 76 anos lava, passa, cozinha, limpa o quintal, a casa, cuida das galinhas, dá banho, comida e educação para dois netos e que precisa pedir à vizinha que cuide das crianças por 30 minutos para que ela vá ao posto de saúde se consultar, foram os filhos.

Há, porém, uma camada mais interna desse tumor. Há um cerne gerador desses absurdos que pouco questionamos.

Betty Carter e Monica McGoldrick, em seu livro "As mudanças do ciclo de vida familiar", trazem com precisão histórica como o casamento significa uma melhoria de vida para o homem e um prejuízo no cotidiano das mulheres. Enquanto o homem passa a ter em casa aquela que será responsável por reproduzir os meios para que ele possa viver, leia-se trabalhar, estudar, ganhar dinheiro e prestígio, a mulher passa a lidar com jornadas duplas ou triplas de trabalho e cuidado ou precisa optar por abandonar a vida fora da casa para se dedicar a esta organização do cotidiano.

Resolveríamos o problema, então, brigando por uma divisão mais justa desse trabalho? Estaria tudo acertado se cada filho ou marido resolvessem a partir de hoje participar dos trabalhos em casa? Aliás, é possível que um homem ou uma mulher que saiu de casa às 6h, enfrentou transporte público precário, trabalhou das 8h às 18h e chegou em casa às 20h, consiga fazer uma faxina antes de dormir?

Em uma avaliação mais consciente e profunda, logo se percebe quem de fato está lucrando mais com a exploração do trabalho doméstico não remunerado.

Não se trata de falar que a casa é dos dois, que os filhos são dos dois, que um sai para garantir o sustento enquanto o outro cuida da logística da casa, como dizem os homens de classe média, de meia idade, que se revoltam quando os confrontamos com tal realidade. Não se trata disso, por vários motivos.

Primeiro, porque em muitos lares, não é assim que se vive. Há mulheres trabalhando fora e dentro de casa e garantindo o sustento até mesmo sozinhas. Em muitas casas, o brinde por toda a exploração vem em forma de violência doméstica por parte do próprio marido. Em outras ainda, não há renda, não há marido. O que há são mulheres à margem, empobrecidas e vivendo com seus filhos a miséria na forma mais aguda que conhecemos.

A exploração feminina por meio do trabalho de cuidar é condição estruturante do modo de produção capitalista. Sem um enfrentamento dessas estruturas, todo dia eu seguirei atendendo uma Dona Ruth. Tantas outras mulheres subjugadas, impedidas de exercer seus talentos, de aprimorar seus dons, de estudar o que gostariam, de ter lazer, de se desenvolver como seres humanos.

Eu esqueci de dizer que Dona Ruth sempre gostou de cantar e tocar violão. Um violão que só existe hoje nos retratos sobre os móveis limpíssimos de sua casa e na sua memória. É bem provável que nunca ouviremos Dona Ruth cantar. Mas deveríamos.

Júlia Rocha