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Famílias contam como conseguiram divisão mais justa do trabalho doméstico

A pedagoga e designer Ana Claudia Silva com o marido, Edimilson, e os filhos Maria Júlia, Pedro Enrico e Barbara Saliz - Arquivo pessoal
A pedagoga e designer Ana Claudia Silva com o marido, Edimilson, e os filhos Maria Júlia, Pedro Enrico e Barbara Saliz Imagem: Arquivo pessoal

Kamille Viola

Colaboração para Ecoa, do Rio

16/07/2020 04h00

De acordo com pesquisa do IBGE no ano passado, mulheres em geral já investiam duas vezes mais tempo que os homens em afazeres domésticos e cuidados com outras pessoas em casa no Brasil. Com a quarentena, essa situação se agravou, expondo ainda mais as diferenças de gênero. Algumas famílias, no entanto, garantem que estão conseguindo um equilíbrio maior entre as tarefas, em um cenário melhor do que o anterior à pandemia.

A família da pedagoga e designer Ana Claudia Silva, 35, foi uma delas. Ela vive com o marido, Edimilson, 39, e os três filhos (Maria Júlia, 15, Pedro Enrico, 11, e Barbara Saliz, 6) em São Paulo, e organizou as obrigações de todos em um cronograma. "Sentei com eles e conversei: 'Vocês sabem que a casa é grande, que a gente tem uma rotina que é puxada. Eu vou ter que continuar trabalhando, como vocês podem participar do cuidado da casa? Eles foram propondo tarefas, a gente montou uma listinha de cada um e eles foram escrevendo suas atividades", conta ela.

Além de dar aula na rede pública, atividade que está suspensa, Ana Claudia tem uma marca de acessórios e produtos de papelaria de inspiração afro, a Afra Design, e tem se dedicado às vendas online. Antes, a família ficava menos tempo em casa e contava com o reforço de uma diarista, chamada por meio de uma empresa, a cada quinze dias, o que está suspenso. O marido é motorista de aplicativo e fica menos horas em casa, mas também entrou no esquema.

"Vou procurar manter essa divisão quando a pandemia passar, até mesmo por questão de custos. Porque, quando a gente voltar a circular, a economia não vai estar como era. Não sei se vou conseguir voltar a contratar uma pessoa para cuidar da minha casa. As minhas vendas não estão como antes, preciso ter uma contenção de gastos. A divisão que está acontecendo agora provavelmente vai continuar por um bom tempo, para a gente segurar as pontas", acredita ela.

A psicóloga, mestre em Psicologia Social e professora da Unigranrio Fabiane de Souza Vieira observa que muitas mulheres que contavam com ajuda — fosse de parentes, vizinhos ou mulheres que trabalhavam em suas casas — tiveram de assumir as funções domésticas, mesmo que estejam trabalhando à distância e tenham os companheiros em casa. A experiência, no entanto, tem sido diferente para diferentes realidades. Fabiane conta que suas alunas, que são em geral da Baixada Fluminense, região em situação de maior vulnerabilidade social, têm tido mais dificuldade do que as pacientes que frequentam o consultório, na zona sul do Rio.

"Das pacientes tenho escutado sobre a possibilidade de dialogar e dividir essas tarefas. O que não tem sido fácil, já que a ocupação mental continua sendo delas, de ter que planejar, de ter que dizer: 'Olha, precisa fazer isso, aquilo e aquilo outro.' Mas o operacional elas têm conseguido dividir com os companheiros", analisa.

A psicóloga explica como questões socioeconômicas podem afetar mais suas alunas, como conservadorismo e ausência de uma figura paterna ou de alguém que seja corresponsável pela casa e os filhos. "Pode ser que elas estejam mais sobrecarregadas porque são as únicas responsáveis pelo lar, por não ter essa figura do companheiro ou da companheira. São mães solo, ou que criam os filhos junto com tia, avó. É uma outra dinâmica familiar", diz.

A jornalista Beatriz Calado entre a mãe, Rose da Silva Anchieta, e a irmã, Bárbara - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A jornalista Beatriz Calado entre a mãe, Rose da Silva Anchieta, e a irmã, Bárbara
Imagem: Arquivo pessoal

Essa é a realidade na casa da jornalista Beatriz Calado, 25, que mora com a irmã, Bárbara, 31, e a mãe, Rose da Silva Anchieta, 53, na Rocinha, comunidade na zona sul do Rio de Janeiro. Diferentemente do que acontece nas famílias de classe média, que costumam contar com diarista ou empregada doméstica, as três já se alternavam no cuidado da casa. Porém, como agora estão ficando mais tempo por lá devido ao isolamento social, passaram a ter que cozinhar mais vezes. A divisão aconteceu de forma natural, sem sobrecarregar nenhuma delas. "A gente foi se revezando para fazer as coisas dentro de casa para não ficar pesado para ninguém. Até porque eu e a minha irmã estamos trabalhando à distância. E nosso trabalho aumentou muito. Por incrível que pareça, está mais puxado agora do que antes", conta.

O mesmo aconteceu na casa da cantora Aíla, 31, e de sua mulher, a artista visual Roberta Carvalho, 33, na Vila Anglo Brasileira, zona oeste de São Paulo. As duas já faziam algumas das tarefas de casa, mas contavam com uma diarista semanalmente para a limpeza mais pesada. Agora, a tarefa fica por conta do casal. Além disso, Aíla passou também a cozinhar — tarefa que normalmente era Roberta quem fazia. Embora tenham perdido trabalhos por causa da quarentena, elas têm realizado atividades online e equilibrado isso com as demandas domésticas.

A cantora Aíla e sua mulher, a artista visual Roberta Carvalho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A cantora Aíla e sua mulher, a artista visual Roberta Carvalho
Imagem: Arquivo pessoal

A cantora conta que o momento tem sido de grande aprendizado. "A gente percebeu o quanto é trabalhoso fazer uma diária numa casa, na qual geralmente uma pessoa tem que dar conta de tudo, em um dia tem que limpar o apartamento inteiro. A gente entende o quão valoroso é o trabalho de uma diarista quando coloca a mão na massa e faz tudo, das coisas pequenas às grandiosas. E como é que a pessoa consegue fazer em oito horas? Eu comecei a contar: nós duas, juntas, levamos dez horas para limpar a casa, por exemplo", diz. "Ao mesmo tempo, começamos a perceber o quanto somos capazes de fazer as coisas sozinhas, de dar conta das nossas sujeiras também", analisa.

Uma está sempre preocupada em não deixar muito trabalho nas costas da outra, e tudo vai sendo feito à base de diálogo. "Quando a gente vê que uma está relaxando muito, deixando muita louça acumulada, por exemplo, a gente conversa: 'Ó, vamos fazer diferente.' Acho que esse diálogo é importante e tem ajudado a gente a equilibrar as coisas", reflete Aíla. "Quando se fala em casal hétero, eu acho que tudo muda, a questão do machismo sobrecarrega a mulher. É uma coisa cultural mesmo, e a gente precisa combater isso", acredita.

A psicóloga Fabiane de Souza Vieira observa que, além do machismo, a desvalorização do trabalho doméstico passa também pelo racismo. "Não importa se é uma mulher não negra que está desempenhando esse trabalho: ele está associado a esse lugar desvalorizado de ter sido uma função de pessoas pretas escravizadas. Acho que a gente ainda tem muito isso, esse lugar é atravessado simultaneamente pelas questões de gênero e de raça. Não é qualquer trabalho que essa mulher está realizando, é um que deriva, que é herdeiro de um trabalho de pessoas escravizadas, então ele é muito desvalorizado", pontua.

Para ela, ainda é uma incógnita se a experiência vivida durante o isolamento vai mudar o comportamento dentro de casa. "Há uma possibilidade de ressignificar esse lugar — ou de valorizar, no sentido de pagar melhor aos seus funcionários, de entender a necessidade dos direitos, a garantia dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores domésticos. Mas também pode entrar num outro lugar, que é cômodo, que é: 'Nossa, que alívio, acabou esse momento, posso voltar a ter [tal pessoa] aqui em casa e não vou precisar mais olhar para isso.' Isso depende de como isso está sendo vivido por essas famílias, por essas pessoas", argumenta.

"Essa pandemia nos coloca diante da possibilidade de refletir criticamente sobre as coisas mais básicas que a gente vive, desde a divisão do trabalho doméstico até questões mais macropolíticas e econômicas. Tem um potencial, sim, para que isso mude e seja incorporado, porque isso está sendo vivido na experiência, dentro de uma experiência traumática. Isso abre a sensibilidade para essa questão. É um potencial", frisa a psicóloga.