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Júlia Rocha


Fortalecer a imunidade: uma saída à brasileira para o caos

Alfabetização feminina, acesso à assistência pré-natal qualificada e a garantia de renda durante os seis meses de aleitamento geram impacto maior na imunidade das crianças do que qualquer outra intervenção - Getty Images
Alfabetização feminina, acesso à assistência pré-natal qualificada e a garantia de renda durante os seis meses de aleitamento geram impacto maior na imunidade das crianças do que qualquer outra intervenção Imagem: Getty Images
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

21/06/2020 11h49Atualizada em 21/06/2020 18h35

Nossa capacidade de agir e pensar de forma coletiva está severamente comprometida. Parece haver uma doença social que nos impede de olhar além das supostas soluções individuais. Talvez as causas deste tipo de comportamento já estejam bastante explícitas: desassistência, ineficiência e negligência por parte de agentes públicos eleitos para nos governar, uma ideologia hegemônica individualista e meritocrática explicam grande parte do que vivemos. Nos últimos 15 dias acompanhei sem descanso a reação de pessoas em sites e vídeos sobre nutrição, saúde, e notícias a respeito da pandemia. Tentava encontrar pistas para o comportamento no mínimo inusitado de pessoas que não precisavam se expor mas optam por fazê-lo em meio a maior crise sanitária das últimas décadas. Qual foi minha surpresa ao ler as centenas de receitas caseiras e indicações de vídeos para "aumentar a imunidade" espalhadas como verdades científicas incontestáveis por toda a internet.

Em uma busca rápida por vídeos, as palavras imunidade e corona vão te levar a um sem número de explicações, algumas inclusive com racionalidade científica, sobre suplementos, alimentos e receitas que podem melhorar a sua resposta imunológica, fortalecendo o sistema de defesa do seu corpo contra possíveis infecções. Em março e abril deste ano, ocorreram até mesmo abertura de investigações por parte de conselhos regionais de medicina contra profissionais e suas prescrições de suplementos e agentes supostamente responsáveis por "turbinar" o sistema imunológico. Fórmulas propagandeadas em redes sociais e aplicadas em pacientes com custos que ultrapassavam R$1.200.

É interessante observar o movimento das coisas. As pessoas estão pensando em saídas 24 horas por dia. E se não há unidade e propostas responsáveis e centralizadas de saídas coletivas, elas começam a buscar o que podem fazer sozinhas, por elas mesmas e pelos seus. Nossa capacidade de agir coletivamente, como um povo, como a nação que somos, ou deveríamos ser, foi minada de tal forma que adormeceu. Está inativa, sabe-se lá até quando.

Foi lendo e assistindo a tantas informações desencontradas que resolvi fazer uma lista de coisas que podem melhorar a nossa imunidade coletivamente. Sim, como grupo. Um grupo de duzentas e poucas milhões de pessoas. Sou daquelas inocentes e iludidas que acha que ninguém vai ter coragem de deixar os mais pobres, os moradores de rua, os doentes sem assistência para trás. O caminho em direção a estas mudanças é longo e exige mobilização coletiva. Dá um trabalhão danado e por isso é frequentemente substituído por essas saídas fáceis supostamente encontradas na ponta de uma agulha. Se você sentir preguiça só de pensar que isso vai demorar, lembre-se que as saídas rápidas e individuais estão sendo investigadas como crimes e charlatanismo.

As primeiras ações mais efetivas que melhoram a nossa saúde e nos impulsionam para uma infância mais ativa e feliz não têm nada a ver com vitaminas, suplementos ou remédios. A alfabetização feminina, o acesso à assistência pré-natal qualificada e a garantia de renda durante os seis meses do aleitamento materno exclusivo do bebê geram um impacto maior na imunidade de nossas crianças do que qualquer outra intervenção.

Alimentos livres de venenos, com produção local que evita poluição e gastos desnecessários com transporte, saneamento básico, acesso à água limpa, preservação do meio ambiente, um modo de produção voltado para o bem-estar e não para a acumulação infinita de bens, um sistema de produção e reprodução da vida que leve em conta a finitude dos recursos naturais e o óbvio esgotamento dos nossos biomas. Uma agricultura que privilegie pequenos produtores em vez de priorizar monoculturas que devastam o cerrado e as florestas, que exigem utilização de muito mais agrotóxicos e aniquilam a biodiversidade. Acesso à saúde pública de qualidade, com atendimento integral e universal. Direitos trabalhistas que nos garantam descanso, férias e nos protejam de trabalhos adoecedores.

Quer coisa mais eficiente para melhorar a nossa vida e a nossa saúde do que se sentir seguro no lugar onde moramos? Há algo mais danoso que a percepção de que trabalharemos até o fim da vida sem conseguir aposentar? Aliás, o estresse crônico provocado pelas incertezas em relação ao que comeremos, a quem cuidará dos nossos enfermos, a quem protegerá os mais vulneráveis, esse estresse que nos paralisa também nos adoece e nos deixa imunologicamente mais frágeis.

Não há saídas individuais dignas para este momento. Não há solução que não o profundo respeito à dignidade humana, aos direitos humanos. Não há meritocracia capaz de poupar você e os seus da morte, mesmo que você pague caro por suplementos e outras poções. Já fomos longe demais com nosso individualismo e não conseguimos aprender muito com isso, infelizmente.

A cada vez que ouço um: "doutora, o que podemos fazer para aumentar a nossa imunidade?" eu me pergunto: O que vamos fazer do outro lado do rio, após esta longa travessia, sozinhos?

Júlia Rocha