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Arte fora dos centros

"Todos livros são regionais": cordel e Lady Gaga dançam em Jarid Arraes

Jarid e o Redemoinho - Divulgação
Jarid e o Redemoinho Imagem: Divulgação
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

22/10/2020 04h00

Pare alguns segundos e pense na imagem que você faz do interior do Ceará, ali nas quebradas onde Padinho Cícero, outrora, fez-se santo. Cordel? Tem. Xilogravura? Tem, também. Romaria? Sim, tem tudo isso, mas não só. O agreste é tradição em transe, capitalismo e cultura.

"Quando criança, eu tinha uma visão bem diferente da minha cidade. Eu sabia que era uma cidade pequena, mas, ao mesmo tempo, Juazeiro é uma cidade grande do sertão do Ceará, uma cidade urbanizada. A gente tem até hoje o único cinema da região, tem shopping. E eu lembro da primeira vez que eu fui ao cinema assistir a um filme que foi 'Titanic'. Era legal ir pro shopping."

A voz que eu escuto do meu celular pertence à escritora e cordelista cearense Jarid Arraes, 29. Jarid foi vencedora do Prêmio APCA 2019, na categoria contos, com o livro "Redemoinho em dia quente" (Alfaguara) e uma das atrações brasileiras na Feira do Livro de Frankfurt deste ano. Leitora de Drummond de Andrade e de Conceição Evaristo, filha e neta de cordelistas importantes para a cultura de Juazeiro do Norte (CE), onde nasceu, sua influência maior é a cantora e polímata americana Lady Gaga.

"Eu não tenho como não ser sincera e dizer que ela é minha maior influência. Algumas pessoas ficam meio de nariz torcido, achando estranho. Porque elas não conseguem sair dessa caixa de que existe uma tal de alta literatura e elas só conhecem a Lady Gaga pela face do pop, acham que pop não é música de qualidade. Eu acho que elas estão erradas em todos os sentidos."

McRomaria Feliz

Existem duas formas clichês de encarar as tradições: como algo puro, feito por naivés que vivem congelados no tempo ou como algo a ser derrubado pelo eterno novo que virá. No meio do caminho, gigante esfinge está a realidade da maior parte dos brasileiros viventes nos interiores, sertões, florestas e quebradas, cuja relação orgânica com as tradições os impede de fetichizá-las. É o diálogo dessas tradições com os pulsares contemporâneos que as mantém vivas.

"Eu lembro que a última vez que eu estive em Juazeiro do Norte, há dois anos, fui fazer umas fotos pra inspirar os contos do 'Redemoinho em dia quente' e eu peguei um táxi no aeroporto a caminho de casa e vi um McDonalds no meio do caminho, com drive-thru, e pensei: 'nossa, Juazeiro está muito chique tem até drive-thru'."

A felicidade de ver a chegada da lanchonete mais famosa do mundo ao agreste, convive com a a empolgação na voz de Jarid ao falar das romarias religiosas famosas em sua cidade ou da arte do cordel, tradição familiar.

Juazeiro do Norte, no Cariri, terra natal de Jarid - Divulgação - Divulgação
Juazeiro do Norte, no Cariri, terra natal de Jarid
Imagem: Divulgação

"Eu gostava muito da experiência da Romaria, que eu não entendia totalmente. Gostava da imagem daquelas pessoas circulando pela cidade com chapéus de palha. Quando eu olho para isso eu penso como eu tive sorte de ter crescido com tanta gente criando coisas bonitas ao meu redor, coisas tão características daquela região. Isso influencia totalmente no que eu escrevo. (...) Faz parte da minha personalidade. "

Pergunto a Jarid como o cordel a descobriu. Boa contadora de causos, ela faz da resposta um curta-metragem:

"Estávamos eu, uns amigos e meu pai num bar que era muito famoso lá em Juazeiro, o bar do Zé. Aí, eu perguntei:

- Pai, é muito difícil escrever cordel? Porque eu penso muito que o vô e você são os únicos da família que escrevem [cordéis] e são muito famosos com esse trabalho, mas vai ter um dia que vocês vão morrer e o cordel com nossa família vai morrer também.

- Olha, filha, pega um cordel meu que você gosta e começa a imitar as rimas e os ritmos.

Tudo que ele falou foram dicas bem práticas, nada acadêmico, do jeito que eu ensino, hoje, nas minhas oficinas e tenho certeza que todo mundo das minhas oficinas sai fazendo cordel. (...)

E foi através da arte do seu pai e do seu avô que Jarid estreou na literatura, com o cordel "As lendas de Dandara", inicialmente independente. "Essas histórias de mulheres negras que eu aprendi a fazer em formato de cordel são muito importantes pra mim Gostaria que essas histórias fossem conhecidas por crianças em oficinas escolares. Essa geração deve ter o direito de conhecer a história do Brasil pelas vozes que 'silenciaram'."

A literatura como arte coletiva

Jarid passou um tempo fotografando o Cariri, enquanto escrevia seu "Redemoinho em dia quente" - Divulgação  - Divulgação
Jarid passou um tempo fotografando o Cariri, enquanto escrevia seu ?Redemoinho em dia quente?
Imagem: Divulgação

"Lembro muito de brincar na rua. Eu morava num bairro que minha mãe mora até hoje, que é um bairro periférico, né? Mas a periferia que eu morava era diferente das periferias que a gente conhece nos grandes centros urbanos. Fui uma criança muito livre nesse sentido: podia brincar muito na rua, podia ir muito na casa de amigas. Se eu tinha os pratinhos e copinhos da Barbie, e as minhas amigas não tinham, a gente saía pelos terrenos baldios catando tampa de pasta de dente pra fazer copinho e tampa de garrafa, que a gente enchia de terra, pra fazer bolinho. Eram experiências muito coletivas, depois que eu fui crescendo eu fui ficando mais na minha, comecei a ler."

Apesar de destacar a transição da infância-coletiva para uma adolescência mais introspectiva, Jarid Arraes nunca deixou de buscar a experiência coletiva na literatura. Quando migrou para São Paulo, fez parte do coletivo "Casa de Lua" e, lá, criou o "Clube de Escrita para Mulheres." que revelou talentos como Gabriela Soutello, vencedora do I Prêmio Mix Literário "Quinzenalmente eu me encontrava com aquelas mulheres e também comigo: nos escutávamos, e isso é grande. (...) Escritoras: nos lembrávamos, e isso é grande. Nos ensinaram a esquecer.", recorda Gabriela sobre o Clube pelo qual também passou a escritora paraense Monique Malcher:

Jarid  - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Antes da amizade e de Jarid se tornar minha editora, eu era - e continuo sendo - sua leitora. Uma voz que incomoda não só quem carrega infinitos privilégios, mas uma sociedade brasileira que desconhece a história de mulheres negras, nordestinas. (...)É certamente uma das vozes contemporâneas mais importantes do Brasil, além de uma grande incentivadora da literatura produzida por mulheres.", elogia Monique.

Monique e Gabriela fazem parte da novíssima geração de escritoras brasileiras vindas de todos os cantos do país que tem tornado a literatura brasileira mais plural. "Acho que é uma conquista coletiva. E fico feliz que tenha sido uma movimentação de muitos.. (...) Porque os eventos estavam ficando mais do mesmo, estavam perdendo leitores... Os leitores sempre quiserem ler essas histórias escritas por pessoas negras, com personagens negros; por indígenas, por nordestinos, por LGBTQI+. Quem está perdendo com isso é quem não está abraçando isso."

Para conhecer mais Jarid Arraes:
A escritora: http://jaridarraes.com/
O livro: http://redemoinhoemdiaquente.com.br/fotos/
O blog: https://www.blogdacompanhia.com.br/colunistas/visualizar/Jarid-Arraes

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.