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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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Durante manifestação pelo dia da Consciência Negra em São Paulo, cruzes simbolizam as mortes de negros no Brasil - ROBERTO SUNGI/ESTADÃO CONTEÚDO
Durante manifestação pelo dia da Consciência Negra em São Paulo, cruzes simbolizam as mortes de negros no Brasil Imagem: ROBERTO SUNGI/ESTADÃO CONTEÚDO
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

15/06/2022 06h00

Não há o que teorizar quando o assunto é morte, sendo essa, uma morte chancelada pelo Estado. Não é neglicenciável, é projeto perpetuado ao longo dos últimos anos, com envergadura de ponta. É estratégia colocada em prática.

É o entendimento de que nenhuma vida conta ou vale, tem sentido. Da pequena menina que morre na favela dentro de uma kombi, até a moça jovem atingida com bebê sendo gestado. Um país colapsado por pandemias (como a do racismo, nossa maior), até a de uma peste, com milhares de vítimas, chegando ao que acomete um jornalista e um ambientalista, símbolos de luta e resistência para que outras pessoas possam ser enxergadas como sendo de direito.

O debate anterior é fundamental. Temos tido direito a viver no Brasil? Em que pé está nossa capacidade de nos humanizar, depois de tantos retrocessos e arranhões, feridas que não serão fechadas tão cedo? Como temos olhado para a questão primária de Constituição, calcada em proteger seus cidadãos e a eles dar a chance de dispor energia em uma nação? Sejam eles filhos deste chão, sejam os agregados ao longo de sua trajetória.

"Eu gostaria que o Brasil não fosse este cemitério lotado de mortos que deveriam estar vivos mantido por vivos que agem como se estivessem mortos", brada, enlutada, a escritora Eliana Alves Cruz. Só posso sentir e acolher.

Vivo, sigo lutando, no gerúndio, para ter continuidade na missão individual e coletiva. Mas é também lutando que sinto, ao mesmo tempo, que estamos indo para algum lugar cada vez mais aterrorizante. Antes que matem a todos, o pacto firmado é o de tentar não morrer. Não me finco em garantias longas, apenas a do próximo minuto.

Fico por aqui, recebendo as notícias na sala de estar, enquanto as desgraças daquilo que chamamos de país empilham-se. É difícil até de processar.

O texto de hoje não tem desfecho….