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Eduardo Carvalho

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Nova dimensão de trabalho e economia nasce nas periferias

Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

18/08/2021 06h00

Eu sei, você já deve ter me lido dizendo aqui em Ecoa que quando se pensa em favela, a correlação com a palavra ''carência'' é logo feita. E não apenas e somente pela classe conservadora ou bem abastada da sociedade brasileira, e sim por pessoas que se colocam no espectro de esquerda, ou melhor dizendo, progressista.

Mas quando realmente nos colocamos a pensar na produção destes locais que, embora marginalizados, não param de produzir, a chave muda. O que antes era tratado como falta passa a ser força-motriz de uma série de ações que vão impactar individualmente cada vida e também o coletivo. Eu tô falando é de potência, que também é giro de renda e trabalho para milhões de pessoas, que, enquanto você me lê, consomem mais do que aquelas que moram nos bairros mais caros espalhados pelo Brasil.

Dados do Data Favela e do Instituto Locomotiva calculam que a receita anual das periferias brasileiras é de cerca de R$ 119,8 bilhões. Para quem está na Faria Lima entender, este é o montante que equivaleria ao PIB do quinto estado da federação. E o mais 'doido' de tudo: é um capital que impacta fora, mas com circulação totalmente territorial, advinda pela inexistência de serviços e a não presença do Estado.

Não entendeu? Eu dou um exemplo. Na impossibilidade do carro por aplicativo (aquele famoso que todo mundo usa) adentrar as ruas de uma das maiores favelas do país, a Rocinha, moradores que antes eram taxistas nos bairros vizinhos se uniram e montaram o serviço para dentro, a ser chamado pela WhatsApp ou propriamente na hora. No mesmo território, há uma cooperativa que faz a distribuição de cartas e encomendas às casas, na falta dos Correios e seus carteiros subirem o morro.

Iniciativas assim pulam aos olhos em diversas partes do país, fugindo do eixo Rio-São Paulo. E na tentativa de potencializá-las, nasce o G10, bloco de líderes e empreendedores de impacto social das favelas que, assim como as principais potências mundiais reunidas no G-7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), busca união em prol do desenvolvimento econômico e social dessas áreas Fazem parte do grupo Paraisópolis e Heliópolis (SP), Rocinha e Rio das Pedras (RJ), Cidade de Deus (AM), Baixadas da Condor (PA), Baixadas da Estrada Nova Jarunas (PA), Casa Amarela (PE), Coroadinho (MA) e Sol Nascente (DF). No total, uma população de 1,5 milhão de pessoas.

Recentemente a ação criou o G10 Bank, banco que oferece crédito de R$ 1 mil a R$ 15 mil para quem quer começar a desenvolver seu negócio, com taxa de juros de 0,99% mensais.

O impacto é tamanho e supera a marca de R$ 250 mil reais revertidos em empréstimos aos empreendedores da quebrada. "Queremos ser o BNDES da favela", disse Gilson Rodrigues em entrevista ao Valor Econômico em relação a um dos eixos desenvolvidos pelo big-polo de ideias.

E não para por aqui: eles acabam de lançar o Favecoin, criptomoeda gerada para ser um token com viés social, depositando suas forças em três importantes eixos: educação, empreendedorismo e causas de impacto.

O ''novo'' a ser pensado sobre trabalho e por sua vez, a economia, passa por esses lugares e atores. O futuro aqui já começou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL