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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Era de aquarius

Aplicação de dose da vacina da AstraZeneca contra a covid-19 no RJ - RICARDO MORAES/REUTERS
Aplicação de dose da vacina da AstraZeneca contra a covid-19 no RJ Imagem: RICARDO MORAES/REUTERS
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

04/08/2021 06h00

''Alô Maré, bora vacinar!'', gritava eu a plenos pulmões na manhã do último domingo (1º), enquanto caminhava por uma viela das 16 comunidades da Maré, zona norte do Rio, quando me vi defronte aos ''meninos'' sentados escutando funk. Sim, eu estou falando de moradores. Sim, eles são traficantes. Sim, eles estavam com armas e drogas.

Não desviei da rota, nem esbocei surpresa. Eu cresci e ainda vivo em um território de favela - a Rocinha - e grande parte da minha vida foi tocada entre conhecer muitos dos que hoje lideram o tráfico em diferentes regiões. Eles brincavam na infância comigo, frequentavam os mesmos campos de futebol, estudamos juntos. O sentimento de pertencer àquelas histórias não é apagado.

''Aí, aí, chega aí'', gritou um deles. Virei, no intuito de entender o que era, mesmo cogitando que poderiam saber do que se tratava. O #VacinaMaré foi uma campanha que até ontem atuou em todas as favelas do território, encabeçada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenada pela ONG Redes da Maré, que desenvolve projetos no local há mais de 20 anos. A mídia brasileira e a internacional estavam com os olhos voltados para lá e uma forte campanha interna de informação era feita.

''Com quantos anos pode?'', ele me perguntou, com uma metralhadora atravessada ao pescoço. ''Acima de 18, chefe. Você tem quantos?'', retruquei. ''Pô, tenho só 17! Eles aqui tudo pode, já tem mais'', apontou para os colegas, que atentos concordavam. ''E se der reação? Como é que eu faço?'', outro questionou. ''Rapaz, o que é reação para quem não quer ter o estado grave da doença?'', respondi, recebendo risos.

Foi aí que João (nome fictício), voluntário, surgiu. ''Meus crias, é o seguinte: vocês são jovens, têm a família de vocês, não têm? Tão na rua a todo momento, devem já ter até filho''. Nesse momento, alguns responderam que sim. ''Vocês têm que se proteger, proteger quem vocês amam. E sabe como? Vacinando e usando máscara'.'

Parte do grupo que não estava usando, foi sacando do bolso os panos que hoje fazem parte da rotina de grande parte da população mundial, as máscaras. O som do funk foi baixando e o que se viu ali foi um espaço para troca e conscientização, ainda que curto, sobre prevenção à doença que, como João dizia pra trazer mais gente durante a fala, ''mata mais que amor por mulher e bala em tiroteio''.

Não posso dizer que não demos o recado. ''Você vai ter medo da dose quando chegar a sua vez? Vai deixar de ir?'', perguntei ao que primeiro tinha falado comigo. ''Não, não, pô''.

Ao fim, eu e João compartilhamos a sensação de ter levado informações a quem precisava, sem julgar a situação em que estavam. As armas e drogas pareciam ter desaparecido, e só restavam cidadãos que necessitam de um olhar que também os reconheça como agentes de direito.

A mobilização foi justamente feita para isso: garantir que pessoas que residem em favelas ou periferias tenham acesso a imunização de maneira igualitária, a partir de um esforço que reúna sociedade civil, entidades e Estado. E assim foi feito. Em seis dias, mais de 30 mil moradores da Maré foram vacinados.

Fico emocionado duplamente. Primeiro, como ''cria'' de um lugar não tão diferente. Segundo, como profissional da comunicação que acredita que o ofício deve ser pautado pela missão de levar, a quem quer que seja, informações que o façam entender aquilo que é justamente seu por direito.

Assim, segui caminhando pelos becos e vielas, convidando a quem aparecesse para vacinar. Encontrei mais dos ''meninos'', que mais uma vez perguntavam sobre a vacinação. Estendi o braço para senhores e senhoras conseguirem, mesmo em passos lentos, entrar nas unidades de saúde e receber suas doses. Vi jovens aniversariantes emocionados enquanto a agulha entrava em seus braços. Profissionais de saúde em êxtase pelo resultado desse que já é um momento histórico.

Fico com o desejo de que mais aconteça e ninguém fique esquecido. Que todos possam ter acesso a oportunidades constituídas em lei, porque só vai ser bom se para todo mundo. E que ninguém seja penalizado ou criminalizado pelo lugar onde vive. Que armas deem espaços a mais lápis, instrumentos musicais ou até agulhas para quem quiser ser da Saúde. Para que, como canta Martinho da Vila e Djonga, a 'Era de Aquarius' chegue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL