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Agrofloresta e o caminho da felicidade

Bela Gil transformou o campo de futebol da casa dos pais em Petrópolis em uma agrofloresta - Arquivo pessoal
Bela Gil transformou o campo de futebol da casa dos pais em Petrópolis em uma agrofloresta Imagem: Arquivo pessoal
Bela Gil

É chef, ativista, escritora e apresentadora. Mestre em ciências gastronômicas pela Universidade de Slowfood, na Itália, e bacharel em nutrição pela Hunter College, em NY, Bela tem como missão difundir a importância da alimentação saudável e consciente. Sua principal bandeira é comida de qualidade todo dia na mesa de todos.

26/08/2020 04h00

Agroflorestar em meio à pandemia é sofrer da dualidade dos sentimentos, é sentir o mistério da consciência se materializar em angústia. Digo isso porque implementar uma agrofloresta e produzir parte dos alimentos que consumo sempre foi uma grande vontade pessoal, mas fazer isso num momento no qual muitos estão passando fome e milhares de entes amáveis estão morrendo é desafiador. Acredito que o mesmo deva acontecer com mulheres grávidas e casais recém-apaixonados. Como podemos estar felizes em meio a esse caos? Estar feliz nesse momento é um ato de egoísmo? Mas estar feliz em qualquer momento desta vida também não seria egoísmo sabendo que muitos ainda sofrem? Me acalmo quando penso que ser feliz faz parte, faz bem e transforma a raiva e a angústia do privilégio em combustível para fazermos o nosso melhor, para lutar contra as desigualdades e construir um ambiente mais justo e saudável. Ser feliz vale muito a pena, quando não nos acomodamos.

Poderia divagar aqui sobre felicidade, privilégios e os altos e baixos desta pandemia, mas quero contar sobre a nossa agrofloresta.

Um dia, jantando com meus pais, na casa deles em Petrópolis, na serra fluminense, minha mãe estava reclamando do estresse que é tomar conta de casa (alô para aqueles que acham que quem cuida da casa e/ou dos filhos, não faz nada). No caso da minha mãe, além de todo o trabalho que ela já desempenha fora de casa, gerenciando a carreira do meu pai, tomando conta de um escritório e dezenas de funcionários, também precisa dar conta do lixo do jardim da casa e do campo de futebol que está sendo invadido por bambus. Ela explicou que o lixo era incinerado por ordem do condomínio, mas não estava confortável com a fumaça que isso gerava, e perguntou: será que não tem outro jeito?

Eu fiquei em choque quando soube que toda aquela matéria orgânica do jardim tinha que ser queimada e expliquei as vantagens de criar uma composteira. Sua reação seguinte foi: "tá, mas onde vamos colocar tudo que for gerado na composteira?" Sem hesitar indaguei: "então que tal transformar o campo de futebol em uma agrofloresta? Isso pode ajudar a conter o bambu e dar um belo fim à matéria orgânica residual da cozinha e do jardim."

Todos na família concordaram, mas meu pai se antecipou e saiu em defesa do neto amante do futebol, e pediu que mudássemos o campo de futebol de lugar. Ele seria 10 vezes menor, mas pelo menos não deixaria de existir.

Negócio fechado!!!

Em seguida, liguei para meu amigo e grande agrofloresteiro Namastê Messerschmidt para me ajudar com o novo trabalho, uma nova empreitada e, ao mesmo tempo, a realização do sonho de poder produzir parte dos nossos alimentos num sistema que acredito ser o mais harmônico com a própria natureza.

Bela Gil e o marido, JP Demassi, com o amigo e agrofloresteiro Namastê Messerschmidt ao centro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Bela Gil e o marido, JP Demassi, com o amigo e agrofloresteiro Namastê Messerschmidt ao centro
Imagem: Arquivo pessoal

A agrofloresta, ou sistema agroflorestal (SAF), é um conjunto de técnicas que reúne agricultura, preservação e regeneração. O sistema usa a dinâmica de sucessão de espécies da flora nativa para trazer as espécies que agregam benefícios para o terreno, assim como produtos para o agricultor. A agrofloresta recupera antigas técnicas de povos tradicionais de várias partes do mundo, unindo a elas o conhecimento científico acumulado sobre a ecofisiologia das espécies vegetais, e sua interação com a fauna nativa. Ou seja, como diz o meu amigo Namastê, é a agricultura da paz.

Depois de retirar a grama do campo, tivemos que descompactar o solo com a ajuda de uma tobata (micro trator) e salpicamos um pouquinho de calcário para recuperar o pH do solo, torná-lo um pouco mais alcalino. No dia seguinte, fizemos os 18 canteiros onde entrariam as mudas, sementes e todas as plantas que decidimos cultivar. Preparamos as mudas de bananeira, abrimos todos os berços (ou covas) e plantamos todas as árvores e raízes primeiro, pois elas fazem mais bagunça. No outro dia, colocamos esterco e cama de cavalo (uma mistura de fezes de cavalo com serragem) em cima de todos os canteiros — o esterco é para nutrição e cama de cavalo, para a cobertura de solo, dois princípios fundamentais na agrofloresta. Nos dois últimos dias, plantamos todas as mudinhas de hortaliças e as sementes de milho, arroz e feijão, e cobrimos todos os caminhos entre os canteiros com poda de árvores e bananeiras. Ficou lindo demais!!!

Foram cinco dias de muito trabalho, muita enxada, muito sol na cabeça, mas tudo regado a muito amor, paz e principalmente felicidade. Agora, é deixar a natureza fazer o seu papel com muito cuidado e amparo do nosso lado para colhermos os frutos da felicidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.