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Bela Gil

Café: uma ferramenta de trabalho

Getty Images
Imagem: Getty Images
Bela Gil

É chef, ativista, escritora e apresentadora. Mestre em ciências gastronômicas pela Universidade de Slowfood, na Itália, e bacharel em nutrição pela Hunter College, em NY, Bela tem como missão difundir a importância da alimentação saudável e consciente. Sua principal bandeira é comida de qualidade todo dia na mesa de todos.

12/08/2020 04h00

Nunca fui de tomar café, sempre preferi o chá desde criança. Apesar de gostar do cheirinho de café passado na hora, o cheiro de café na boca das pessoas logo de manhã me dava um pouco de agonia. Na adolescência, adotei o consumo do chá verde, muito influenciada pelos meus pais que sempre curtiram os chás digestivos e medicinais. Cresci tomando chá de carqueja, habú, folha de goiabeira, folha de pitangueira, artemísia, erva doce, boldo e tantas outras plantas que faziam parte dos tratamentos de diferentes sintomas de mal estar.

No começo da vida adulta, morando em Nova York, assistia com curiosidade aos colegas de faculdade, às amigas e aos nova-iorquinos em geral agarrados com seus copos de café pelo campus da universidade, nas mesas dos restaurantes e pelas ruas movimentadas da cidade que é definitivamente movida a cafeína. Aos poucos fui me interessando pelo café, não pelo seu poder psicoativo de alertar e dar energia a seus consumidores, mas pela curiosidade de saber porque existiam tantos selos e marcas que defendiam um café mais sustentável e socialmente justo. Neste momento decidi me dedicar a compreender toda a cadeia produtiva dos alimentos que consumia.

Em 2015, gravando o programa Bela Cozinha, me vi sentada no camarim muito cansada e contemplando uma garrafa térmica de café. Pensei, será que o café me ajudaria nesse momento? Fui até a mesinha e me servi de uma pequena xícara de café, um café qualquer, sem saber a procedência e muito menos onde ele poderia me levar naquela tarde. Em 15 minutos o meu coração começou a disparar, comecei a sentir uma agitação fora do comum e uma euforia que me ajudou a fazer um programa fluido, alegre e focado. Nota 10 pro café até então. Só não sabia que à noite não conseguiria dormir, ainda sentindo o coração bater fortemente. Finalmente às 4h da manha consegui pregar o olho e adormecer.

Definitivamente, o café me agita, me tira o sono e me dá palpitação. Seu efeito energético vem acompanhado de efeitos colaterais não tão agradáveis. Todavia, desde 2015 venho tomando café esporadicamente e me ajustando a sua potencialidade. Uso café como uma solução para os dias nos quais a preguiça não pode se dar ao luxo de me dominar. Mas também tomo café para acompanhar um pedaço de bolo especial, durante viagens para ajustar o fuso horário e às vezes antes de me exercitar. Não tenho regra, posso tomar café por dias seguidos, e ficar sem por semanas a fio.

Esta saga pelo equilíbrio perfeito do café na minha vida me deixou curiosa sobre essa substancia tão amada e amplamente consumida no mundo, a cafeína. Por que eu conseguia consumir xícaras de chá verde diariamente, inclusive antes de me deitar, e dormir profundamente, enquanto uma xícara de café após o meio-dia só me deixaria dormir de madrugada?

O café, assim como o chá verde (camélia sinensis), chocolate e guaraná contém cafeína. Porém a ciência aponta que ela não é necessariamente absorvida da mesma forma em todos os alimentos.

No caso do café, a absorção da cafeína no intestino acontece de forma rápida e completa, atingindo o pico médio de concentração no sangue entre 15 minutos a 2 horas após a ingestão. O principal efeito da cafeína acontece no cérebro, bloqueando os efeitos de um neurotransmissor chamado adenosina, que relaxa o cérebro e nos faz sentirmos cansados. Normalmente os níveis de adenosina vão aumentando ao longo do dia, junto com a sensação de cansaço e a vontade de dormir. Portando, ao ingerirmos café, a cafeína se conecta aos receptores de adenosina no cérebro, bloqueando o seu efeito e consequentemente nos deixando mais alertas e com mais energia.

No caso do chá verde, por conter polifenois, antioxidantes e aminoacidos como os taninos, as catequinas e L-teanina, pode ser que a cafeína seja absorvida mais lentamente e liberada de forma gradual na corrente sanguínea. Estas são algumas hipóteses que a ciência aponta para diferenciar a ação da cafeína no organismo proveniente do café e do chá. Se depender de mim, meu corpo comprova essa teoria.

Ademais, continuo preferindo chás do que café, no entanto descobri um santo remédio para os dias de trabalho nos quais a cama insiste em me segurar.

A curiosidade do público enchia a minha caixa de e-mail e redes sociais com perguntas sobre o café, já que pouquíssimas vezes falei sobre ele em meus programas de culinária. Um dia me debruçarei sobre esse fruto mundialmente conhecido e farei um programa sobre café.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.