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Bela Gil

Educação e acesso são urgentes para melhorarmos a alimentação no Brasil

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Imagem: Getty Images
Bela Gil

É chef, ativista, escritora e apresentadora. Mestre em ciências gastronômicas pela Universidade de Slowfood, na Itália, e bacharel em nutrição pela Hunter College, em NY, Bela tem como missão difundir a importância da alimentação saudável e consciente. Sua principal bandeira é comida de qualidade todo dia na mesa de todos.

25/11/2020 04h00

Educação é um tema recorrente e sempre urgente no Brasil. Podemos falar sobre educação (ou sua falta) em diferentes áreas, como escolar, social, ambiental e muito mais. Como acredito que podemos transformar vidas e consequentemente o planeta através da alimentação, acho importante abordar o tema da educação alimentar e ecológica para a construção de seres mais humanos, mais saudáveis e integrados com a natureza. Pois é sempre bom lembrar que também podemos e devemos aprender a nos alimentar.

Falar sobre educação alimentar é sempre complexo pois abrange um espectro grande que passa por cultura, acesso, ideologias e principalmente saúde. O que é bom para um grupo, pode não ser para outro, o que é viável para uma parcela da população não é para todo mundo, o que é culturalmente aceitável em uma sociedade pode ser escandaloso para outra e por aí vai. Por isso é imprescindível entendermos o que, o quanto e para quem, quando falamos de comida.

Mas algo que estudiosos já sabem é que para nenhum corpo, cultura ou sociedade, o excesso de consumo de produtos ultraprocessados cheios de corantes, conservantes e aromatizantes, o excesso do consumo de açúcar, sal e gordura não faz bem e pode levar a doenças sérias e fatais como problemas cardíacos, diabetes, câncer e doenças respiratórias.

Sabemos também que os ultraprocessados são produtos viciantes, altamente acessíveis, palatáveis e práticos. Ou seja, um competidor com muitas "vantagens" sobre a comida de verdade que vem perdendo espaço na mesa da população brasileira. Pois fazer comida de verdade dá mais trabalho sim!

Aí entramos na educação, porque tudo que aprendermos desde cedo se torna mais fácil e mais prático. É preciso ter intimidade com a cozinha para não ter medo dela. E a pergunta é: com quem fica essa missão?

Devemos aprender a cozinhar e a comer em casa, na escola, com os programas de culinária ou nas propagandas de TV? A resposta é em todos os lugares, o que temos que prestar atenção é o que se ensina.

Educação alimentar e ecológica são duas urgências na educação do pequeno brasileiro.

Algo que no passado era mais intuitivo e mais presente na vida das crianças, hoje se tornam disciplinas necessárias para a construção de uma sociedade mais saudável.

Dentro de casa, dada as devidas oportunidades, as crianças podem e devem estar mais inseridas no ambiente da cozinha. Crescer perto do fogão faz com que o ato de cozinhar se torne mais natural e fácil de fazer. Assim como quem cresce com uma segunda língua ou nadando, não se assusta com um estrangeiro ou com o mar. Infelizmente hoje temos jovens que se sentem incapazes de fazer um arroz com feijão.

Lavar uma louça, fazer a lista do supermercado, ir à feira para conhecer e escolher os alimentos e conhecer os produtores, lavar uma alface e colocar a mesa são atitudes que podem incentivar a participação das crianças na sua própria alimentação. Crianças gostam de se sentirem capazes e assim ficam mais relaxadas e abertas a experimentarem novos sabores.

Já nas escolas, a educação alimentar e a alfabetização botânica poderiam ajudar a criar seres humanos mais saudáveis, empáticos e confortáveis com a natureza. Crianças que sabem nomear uma árvore terá mais receio de derrubá-la. Criança que cresce em um ambiente no qual beber água é tão ou mais legal que tomar refrigerante, se sentirá acolhida na sua escolha mais saudável. Da mesma maneira que a arte de dançar, interpretar, cantar, tocar e desenhar estão presentes em muitas escolas, adotar as artes mais fundamentais à vida seria essencial: cozinhar e plantar.

No entanto, temos um sistema educacional baseado no modelo industrial para formar jovens para o mercado de trabalho e não para compreender a vida. Não é do nosso interesse, como sociedade capitalista, ensinar ninguém a plantar ou a preparar o seu próprio alimento, entender dá onde vem a nossa comida e os impactos das nossas escolhas alimentares na saúde pessoal e do planeta.

Lucrativo é não querer saber como é feita a nossa comida, passar no mercado depois de 12h de trabalho e comprar uma pizza congelada para o jantar.

Educação e acesso são urgentes para melhorarmos a alimentação de todxs!