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Bela Gil

Biodiversidade como igualdade

O coco babaçu é um dos alimentos pouco conhecidos da biodiversidade brasileira - Bela Gil
O coco babaçu é um dos alimentos pouco conhecidos da biodiversidade brasileira Imagem: Bela Gil
Bela Gil

É chef, ativista, escritora e apresentadora. Mestre em ciências gastronômicas pela Universidade de Slowfood, na Itália, e bacharel em nutrição pela Hunter College, em NY, Bela tem como missão difundir a importância da alimentação saudável e consciente. Sua principal bandeira é comida de qualidade todo dia na mesa de todos.

09/09/2020 04h00

Diversidade, representatividade e equidade estão em voga e fico muito feliz de poder participar desses debates em prol da justiça e do bem-estar social.

Em pleno século 21, ainda há uma grande disparidade na oferta de oportunidades de trabalho para diferentes sexos, raças, orientações sexuais, identidades de gênero e outros grupos minoritários. Isso torna constante a pauta de discussões, reflexões e ações para mudar essa situação no ambiente corporativo. Cada vez mais, estratégias e programas estão sendo criados dentro das empresas para recrutar e reter talentos diversos. Essa é uma estratégia para oferecer maiores oportunidades de ingresso ao mercado de trabalho a grupos historicamente discriminados.

Esta passagem acima é de um texto de um site de RH que achei aleatoriamente na internet, porém me fez refletir sobre os nossos hábitos enquanto sociedade que muitas vezes replica e perpetua atitudes da supremacia branca que ainda reina entre nós.

Vocês já pararam para pensar que podemos e devemos trabalhar a diversidade em muitas esferas da nossa sociedade para além do questão de raça e gênero? Diversidade não se deve aplicar somente ao ambiente de trabalho, cultura e política, pois a falta de biodiversidade na nossa alimentação também causas muitos danos socioambientais.

Marlon, extrativista de castanha-do-Pará e coco babaçu de uma comunidade ribeirinha na Resex do Rio Iriri - Bela Gil - Bela Gil
Marlon, extrativista de castanha-do-Pará e coco babaçu de uma comunidade ribeirinha na Resex do Rio Iriri
Imagem: Bela Gil

Conhecer e consumir alimentos da biodiversidade brasileira é uma forma de apoiar os povos tradicionais que vivem da produção ou colheita desses alimentos e ajudar na ingressão ao mercado. O coco babaçu das quebradeiras do maranhão, as castanhas dos extrativistas na Amazônia, a baunilha dos quilombolas de Goiás, a pimenta dos povos Baniwa, e tantos outros alimentos nos conectam diretamente com esses povos, dando mais oportunidade para que eles possam exercer seus ofícios e permanecer tranquilamente no seu território.

Consumir esses alimentos é também uma forma de conservar a floresta, o Cerrado, a Caatinga e todos os biomas do Brasil em pé. É uma maneira de consumir os diferentes nutrientes e fitoquímicos necessários para a preservação da nossa saúde física e alimentar o leque cultural tão rico e importante na nossa sociedade. Conhecer a história desses alimentos e de seus povos é uma linda forma de se conectar com o Brasil mais profundo. Uma deliciosa maneira de descolonizar o nosso prato!

A diversidade racial, sexual, de identidades de gênero são importantes para uma vida mais harmônica, saudável e divertida. O respeito e a prática da diversidade como programas de inclusão são fundamentais para a sobrevivência das minorias. Assim como a diversidade alimentar é fundamental para a sobrevivência da fauna e da flora, e consequentemente essencial à humanidade.

Pimentas cultivadas pelos povos Baniwa - Bela Gil - Bela Gil
Pimentas cultivadas pelos povos Baniwa
Imagem: Bela Gil

Não à toa faço questão de trabalhar com o que para mim já foi só mais um ingrediente culinário fantástico para criar texturas, sabores e cores incríveis no prato. Mas como logo entendi o poder transformador dos alimentos, dei cada vez mais importância à diversidade alimentar construída com alimentos da biodiversidade brasileira e com as plantas alimentícias não convencionais. Cozinhar com esses alimentos que muitos julgam esquisitos e justificavelmente difíceis de achar por conta do nosso sistema agroalimentar industrial é uma forma de resistir e lutar pela diversidade cultural e ambiental da nossa nação.

Recentemente testemunhamos a triste morte do menino Miguel que nos mostra como a herança escravista da sinhá contemporânea continua a caracterizar o racismo no Brasil. E a fome que assola as crianças pobres e pretas também mostra a herança da hegemonia latifundiária na produção de alimentos.

O Brasil se fez através de exploração da terra, dos negros e dos povos originários criando acúmulos e riquezas para poucos homens brancos. Os latifúndios de cana, café e algodão sempre fizeram parte da nossa história e hoje se perpetuam sob as lentes do agronegócio.

Sementes do coco babaçu - Bela Gil - Bela Gil
Sementes do coco babaçu
Imagem: Bela Gil

Substituir uma caixa de cereal matinal ultraprocessado feito com milho transgênico por um cuscuz de milho crioulo é um ato de resistência. É claro que não são todos que podem fazer do alimento a sua luta, mas do mesmo jeito que alguém que está numa posição de poder numa empresa deve se atentar à diversidade racial dos seus funcionários, quem tem conhecimento e oportunidade para diversificar a dieta também deve fazê-lo. Esse é um dos caminhos para a democratização da verdadeira alimentação saudável.

Muitos me pedem dicas de como ter uma alimentação mais saudável, mais equilibrada, mais sustentável. A resposta não está no alimento x ou y, ou num nutriente específico somente, mas na criação de uma cultura de aceitação da diversidade alimentar. E isso começa ainda na nossa primeira infância. Crianças que conhecem e saboreiam alimentos da nossa biodiversidade vão crescer querendo consumi-los e protegê-los

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.