PUBLICIDADE
Topo

A criança que acreditava ser onça

Ilustração de Fernando Vilela para o livro "Onde a onça bebe água" - Reprodução
Ilustração de Fernando Vilela para o livro "Onde a onça bebe água" Imagem: Reprodução
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

16/07/2020 04h00

Felino, caminha ele-ela, quatro patas na terra úmida coberta pelas copas das árvores tropicais à margem do igarapé Ipixuna, afluente da margem direita do Médio Xingu. Arisco, acelera o passo elegante, arma o ataque, ruge; os dentes caninos expostos e afiados. Depois aproxima-se, carinho encarnado, ronronando a busca de afeto. A imersão da criança em jaguar não se desfaz em nenhum momento ("Não posso tirar meu rabo para tomar banho, papai"). Sim, fazia 4 meses que meu filho virara onça.

O interesse pelos animais (e a forma de enxergá-los mais interessantes e dignos que os humanos) veio, precocemente, junto com a fala e alguma consciência. Mas agravou-se quando, por questões do trabalho da sua mãe, ele precisou mudar-se para outra escola, em outro país, onde não dominava a língua ("Papai, a vovó vai trazer o Brasil na mala com ela?"). Então, com dois anos e meio, a segunda língua que meu pequeno selvagem dominava era a dos grandes felinos. Foram quatro meses chorando e implorando para não ir à creche, para voltar para o lar tropical onde nascera.

Ao ver-se na creche, metamorfoseava-se em onça. Algumas crianças da escolinha, reconhecendo o animal sul-americano ali encarnado, paravam para brincar com ele. Comunicavam-se por gestos, rugidos e miados. No quinto mês, fez-se o milagre da transubstanciação: o filhote de jaguar havia tornado-se bilíngue capaz de falar na língua bárbara dos alemães. As incorporações de outros animais, no entanto, sempre procurando agir de forma mais fiel possível ao bicho incorporado, seguem firmes.

Ilustração de Fernando Vilela para o livro ?Onde a onça bebe água? - Reprodução - Reprodução
Ilustração de Fernando Vilela para o livro "Onde a onça bebe água"
Imagem: Reprodução

Onde a onça bebe água

A performance do meu filho, amante dos animais, e exposto a situação de ter que comunicar-se com crianças estrangeiras, em uma língua tão indecifrável quanto a ecolocalização dos golfinhos ou a mudança de cor dos polvos, ocorreu ao mesmo tempo em que eu descobria os estudos do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Viveiros passou uma temporada com os Arawetés, povo tupi-guarani que vivem em áreas de "mata de cipó", cercados de cactos, bromélias e lianas, no Pará. A forma de enxergar o mundo dos Arawetés, que partilha de semelhanças com outros povos ameríndios da região amazônica, inspirou a ideia de perspectivismo ameríndio, cuja tradução mais acessível está no livro-infantil "Onde a onça bebe água" (Cosac & Naify, 2015), da escritora gaúcha Veronica Stigger e do próprio Viveiros de Castro.

Em "Onde a onça bebe água", o menino Joaci sonha um encontro com uma onça que acredita ser humana. Para a onça, sangue é cerveja, cocô são frutinhas e uma cobra é um milho. Na visão da onça, Joaci é caça, um porco do mato, e ela é humana.

Essa perspectiva muda, na visão de um porco do mato, por exemplo. Para ele, porcos do mato é que são humanos, frutinhas são caça e Joaci é a onça. Essa é a síntese do perspectivismo ameríndio. A forma como o mundo se mostra muda de acordo com os olhos do animal (ou vegetal, ou espírito ou "coisa"). Não existe, então a hierarquia vaidosa em que os homens (de preferência os homens brancos ocidentais e heterossexuais) são os únicos "humanos" a viver no topo de uma escala evolutiva usando a terra e os outros seres vivos como recursos.

Antigamente, os animais também eram homens. Só depois eles se tornaram animais. Mas, no fundo, dizia o pajé, eles continuaram homens. Quando estão em casa, sozinhos, falava ainda o pajé, eles tiram suas roupas de animais e agem como nós. Aquela onça agia como gente. Ela falava, andava sobre duas patas, bebia em cuia. Daí, Joaci desconfiou: se a onça se via como gente, talvez ela o visse como bicho!

Veronica Stigger e Viveiros de Castro, "Onde a onça bebe água"

Crianças araweté da aldeia Paratati, às margens do Xingu - Lalo de Almeida/ Folhapress - Lalo de Almeida/ Folhapress
Crianças araweté da aldeia Paratati, às margens do rio Xingu, jantam na varanda de sua casa (2013)
Imagem: Lalo de Almeida/ Folhapress

Olhares para adiar o fim do mundo

Há algo de muito sábio no olhar amazônico dos Araweté que é compartilhado pela visão das crianças, como meu filho, que ainda não foram doutrinadas pela nossa fé no progresso e no culto narcisístico do antropoceno. Algo que foi traduzido com maestria pela gaúcha Stigger em seu livro "Onde a onça bebe água".

Para meu filho, uma onça é um "humano" diferente, mais digno de nota do que um senhor entediante e engravatado teclando um computador sem sentido. E, quando ele, xamã-mirim, incorpora essa onça o mundo muda de cor, perspectiva e suas relações com as coisas também mudam. Em tempos de aquecimento global, pandemia, conflitos ideológicos e doutrinação, não está na hora de trocarmos nossas íris e enxergamos o mundo com perspectivas mais maduras, profundas e respeitosas como as de uma criança?

Sete meses depois de mudar de país, o filho ainda gostaria que alguém trouxesse em suas malas o calor, a língua, os pássaros, a família e o estoque infinito de farinha de mandioca que ele não sabe de onde vem, mas sabe que gosta.

Arte fora dos centros