Topo

Por que gigantes alemãs apostam em futuro com carros movidos a hidrogênio

BMW X5 a hidrogênio - Divulgação
BMW X5 a hidrogênio Imagem: Divulgação

Nick Carey

Em Munique, na Alemanha

26/09/2021 04h00

Carros alimentados por baterias podem até estar em destaque neste momento para se tornarem a tecnologia automotiva do futuro, mas não descarte o hidrogênio.

Essa é a visão de algumas das grandes montadoras alemãs, incluindo BMW e Audi, que estão desenvolvendo protótipos de veículos de passageiros com célula de combustível de hidrogênio, paralelamente com suas frotas de carros a bateria, como parte dos preparativos para abandonar os combustíveis fósseis

Essas companhias calculam que uma mudança política poderia ajudar a tecnologia de hidrogênio, em uma indústria moldada pela decisão da pioneira e norte-americana Tesla de fazer carros limpos.

O hub automotivo global na Alemanha já aposta bilhões no hidrogênio em setores como aço e produtos químicos para cumprir metas climáticas. Além disso, as eleições deste mês podem impulsionar ainda mais essa tecnologia.

A BMW é a maior proponente do hidrogênio entre as montadoras alemãs, traçando um caminho para um modelo de mercado de massa por volta de 2030. A empresa também está de olho na mudança das políticas de hidrogênio na Europa e na China - maior mercado automotivo do mundo.

A marca premium com sede em Munique desenvolveu um protótipo de carro a hidrogênio baseado em seu SUV X5, em um projeto já parcialmente financiado pelo governo alemão.

Jürgen Guldner, vice-presidente da BMW que lidera o programa de carros com célula de combustível a hidrogênio, disse à Reuters que a montadora construirá uma frota de teste de quase cem carros em 2022.

"Se [essa tecnologia] for impulsionada por política ou demanda, estaremos prontos com um produto", disse ele, acrescentando que sua equipe já está trabalhando para desenvolver os veículos de próxima geração.

"Estamos prestes a chegar lá e estamos realmente convencidos de que veremos um avanço nesta década", disse ele.

Marca premium da VW, a Audi disse à Reuters que montou uma equipe de mais de cem mecânicos e engenheiros para pesquisar células de combustível de hidrogênio em nome de todo o grupo Volkswagen, em como construiu alguns protótipos de carros.

Custo do carro a hidrogênio é muito alto agora

Caminhão da Mercedes a hidrogênio; tecnologia hoje está mais viável para aplicação em veículos de carga - Divulgacão - Divulgacão
Caminhão da Mercedes a hidrogênio; tecnologia hoje está mais viável para aplicação em veículos de carga
Imagem: Divulgacão

O hidrogênio é visto como uma aposta mais certa pelas maiores fabricantes de caminhões do mundo, como Daimler AG, Volvo Trucks e Hyundai, porque as baterias usadas em veículos elétricos são muito pesadas para as longas distâncias percorridas por veículos comerciais.

Ainda assim, a tecnologia de células de combustível - onde o hidrogênio passa por um catalisador, produzindo eletricidade - é por enquanto muito cara para carros de consumo em massa. As células são complexas e contêm materiais caros. Embora o reabastecimento seja mais rápido do que o recarregamento da bateria, a infraestrutura é mais escassa.

O fato de o hidrogênio estar tão atrás na corrida para o mercado acessível também significa que até mesmo alguns campeões da tecnologia, como as montadoras da Alemanha, prefirem priorizar os carros de passeio movidos a bateria, já que são vistos como o caminho mais rápido para atingir seu objetivo principal de descarbonização do transporte.

Essas marcas, no entanto, apoiam o uso de hidrogênio combustível para navios e aviões e querem investir pesadamente em hidrogênio "verde", produzido exclusivamente a partir de fontes renováveis.

"O hidrogênio terá um papel muito importante na indústria de transporte", disse Stefan Gelbhaar, porta-voz da política de transporte do parlamento alemão.

A política pode ser imprevisível - o diesel passou de santo a pecador após o escândalo de fraude de emissões da Volkswagen no Dieselgate, que veio à tona em 2015. Algumas montadoras veem a tecnologia do hidrogênio como uma apólice de seguro, já que a União Europeia visa uma proibição efetiva de carros movidos a combustível fóssil a partir de 2035.

No ano passado, a Daimler disse que encerraria a produção do Mercedes-Benz GLC F-CELL, um SUV com célula de combustível a hidrogênio, mas uma fonte familiarizada com os planos da empresa disse que o projeto poderia ser facilmente reativado se a Comissão Europeia ou um governo alemão decidisse promover carros a hidrogênio.

"Estamos nos concentrando na eletricidade (de bateria) primeiro, mas estamos em estreita cooperação com nosso pessoal dos caminhões", afirmou Jörg Burzer, chefe de produção da Daimler, quando questionado sobre essa abordagem.

"A tecnologia está sempre disponível.

180 km/h em um BMW X5 a hidrogênio

Protótipo do BMW X5 com célula de hidrogênio; abastecimento para rodar 500 km leva poucos minutos - Divulgação - Divulgação
Protótipo do BMW X5 com célula de hidrogênio; abastecimento para rodar 500 km leva poucos minutos
Imagem: Divulgação

Durante anos, as montadoras japonesas Toyota, Nissan e Honda, além da sul-coreana Hyundai, estavam sozinhas no desenvolvimento e promoção de carros com célula de combustível a hidrogênio. Mas agora elas têm companhia.

A China está expandindo sua infraestrutura de abastecimento de hidrogênio, com várias montadoras trabalhando agora em carros com célula de combustível, incluindo a Great Wall Motors, que planeja desenvolver SUVs movidos a hidrogênio.

A UE quer construir mais estações de abastecimento de hidrogênio para veículos comerciais. O analista automotivo da Fitch Solutions Joshua Cobb disse que o bloco provavelmente só começará a incentivar carros de passageiros movidos a hidrogênio daqui a dois ou três anos, já que ainda está descobrindo como pagar por seu impulso de carros elétricos a bateria.

Mas ele acrescentou: "não é impossível pensar que os alemães podem acelerar o esforço para adotar regulamentações que favoreçam carros com células de combustível a hidrogênio."

Guldner, da BMW, reconheceu que a tecnologia de hidrogênio é muito cara para ser viável para o mercado consumidor hoje, mas disse que os custos cairão à medida que as empresas de transporte investirem na tecnologia para levar os veículos com célula de combustível ao mercado em escala.

Para demonstrar o protótipo X5 de hidrogênio da BMW, Guldner levou a Reuters para um passeio a 180 km/h na Autobahn perto da sede da montadora em Munique. Em poucos minutos, em um posto de combustível da Total, o veículo foi abastecido com hidrogênio suficiente para rodar 500 km.

Guldner disse que a BMW vê os carros com célula de combustível a hidrogênio como "complementares" à sua futura linha de modelos elétricos a bateria, oferecendo uma alternativa para os clientes que não podem carregar os carros em casa, querem viajar para longe e desejam reabastecer rapidamente. O motor de hidrogênio do X5 é o mesmo do iX totalmente elétrico da BMW.

"Já que o futuro é de emissões zero, acreditamos que ter duas respostas é melhor do que uma", acrescentou.

Estrada longa e complicada

Toyota Mirai é um dos poucos carros fabricados em série que têm propulsão com célula de hidrogênio - Divulgação - Divulgação
Toyota Mirai é um dos poucos carros fabricados em série que têm propulsão com célula de hidrogênio
Imagem: Divulgação

Especialistas dizem que ainda levará anos antes que qualquer apoio político europeu para carros movidos a hidrogênio se traduza em vendas significativas.

A previsão é de que vários usos do hidrogênio - em veículos comerciais, aviação e armazenamento de energia - estimularão sua adoção em automóveis de passageiros, mas em longo prazo.

"Não vamos chegar lá tão cedo", afirmou Sam Adham, analista sênior. Estima-se que em 2030 os modelos de célula de combustível de hidrogênio representarão apenas 0,1% das vendas na Europa e as vendas só decolarão após 2035."

Ainda existem divisões sobre as perspectivas da tecnologia na indústria automotiva global e até mesmo dentro dos grupos automotivos.

A Audi até pode estar no momento pesquisando células de combustível, por exemplo, mas o CEO do grupo Volkswagen, Herbert Diess, vem criticando essa tecnologia.

"O carro a hidrogênio provou não ser a solução para a mudança climática", disse ele em um tweet este ano. "Debates falsos são uma perda de tempo."

Stephan Herbst, gerente geral da Toyota na Europa, tem uma visão diferente.

Falando como membro do grupo empresarial Hydrogen Council, que prevê que o hidrogênio irá abastecer mais de 400 milhões de carros até 2050.

"Acreditamos firmemente que é uma questão de tempo", acrescentou. "Precisamos de carros elétricos e a hidrogênio."