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Cultura do carro


Conheça o ex-relojoeiro que sobrevive mexendo em Fusca, Gol e Kombi

Mecânico Rafael Filgueira arrumando um Fusca  - Teus Rocha/Divulgação
Mecânico Rafael Filgueira arrumando um Fusca
Imagem: Teus Rocha/Divulgação

Daniel Leite

Juiz de Fora (MG)

16/07/2019 07h00

A necessidade e dificuldade de arrumar o Fusca 1969 comprado em 2003 fizeram Rafael Filgueiras, então dono de relojoaria, abandonar o ofício de acertar as horas para começar a consertar carros da Volkswagen a ar.

Hoje, ele é dono de uma oficina em Belo Horizonte especializada em veículos da marca que dispensam água na refrigeração.

Dezesseis anos atrás, com a ajuda dos pais, ele juntou dinheiro e adquiriu o popular "besouro" 69. Foi quando começou a ver como era difícil achar mecânico para o carrinho na capital mineira. "Ninguém queria mexer. Diziam que não tinham mais peça, não tinham tempo, passavam outros carros na frente".

Com erros e acertos, o relojoeiro começou a fazer a manutenção do veículo por conta própria, em casa. Era meio expediente na relojoaria e, no restante do dia, treinava mexendo no seu Volks. Se um mecânico cobrava R$ 40 a mão de obra, por exemplo, Rafael lembra que pegava esse valor para comprar em ferramentas e ele mesmo tocar o serviço.

Para se especializar, fez um curso de mecânica profissional de dois anos de duração. Amigos também passaram a deixar Rafael dar manutenção e consertar os seus modelos a ar.

A paixão o levou até a montar um clube de admiradores, o Fuscaria BH, mas em 2017 foi preciso escolher entre ser relojoeiro ou mecânico. E ele não titubeou. Deixou a relojoaria sob responsabilidade da família para montar e tomar conta exclusivamente da oficina, onde cuida dos motores, da parte elétrica, de rebaixamento e projetos, em um galpão de 250 m².

Teus Rocha/Divulgação
Imagem: Teus Rocha/Divulgação
No dia da entrevista, eram sete carros na fila - seis Fuscas e um Puma. A grande maioria dos clientes tem o "baratinha", seguido de Kombi e Gol. "Sai carro de manhã, de tarde entra outro. Ontem saíram dois, entraram dois", conta o ex-relojoeiro.

Problema de peça, segundo ele, não tem. Muitas do Fusca podem ser utilizadas na Kombi, por exemplo. Carburador também é encontrado com facilidade.

O principal cuidado com o veículo refrigerado a ar é ficar de olho no nível do óleo, explica Rafael. "Motor a ar consome um pouco mais óleo porque o controle de temperatura é precário, você não sabe qual a temperatura exata, não tem marcador. Mas o motor pode estar a 70 ou 110° funcionando normalmente", diz.

Teus Rocha/Divulgação
Imagem: Teus Rocha/Divulgação
Os fregueses

Quando viu um vizinho da sua mãe chegar numa Kombi 1974 Stander Luxo, o representante comercial Max Dumont Zuba se ofereceu para comprar. Depois de muito negociar, conseguiu baixar o valor de R$ 18 mil para R$ 10 mil, até porque a quarentona precisava de vários reparos. "Começava minha labuta na reforma da Kombi".

"Santinha", homenagem ao apelido de uma tia, virou xodó e sempre visita a oficina de Rafael, mas não porque dá muito problema. O dono é que gosta de mantê-la em dia, com pelo menos duas revisões anuais. "Estou sempre atento às revisões dela, trocando as mangueiras, observando o nível dos óleos".

A confiança no mecânico é fundamental para levar o que era o sonho de criança de Max sempre na mesma oficina. "Hoje um exemplar como o meu vale aproximadamente R$ 100 mil. Mas eu não vendo", avisa.

Para os donos, carros antigos e a ar são raridades como uma "kriptonita". E é justamente esse o nome do Fusca 1969 do professor universitário Leonardo Alves. Com motor e caixa de Brasília e estilo Rat Look, o veículo foi comprado há dois anos em um site de vendas com alguns problemas de mecânica.

Leonardo conheceu o mecânico num encontro de Fuscas e eles combinaram de fazer a primeira revisão. "O kriptonita chegou na oficina do Rafael rebocado, morto (risos). Imagino que tenha dado muito trabalho a ele".

Deu trabalho, mas com resultado, e agora as revisões são a cada seis meses. O Fusca é o principal meio de locomoção de Leonardo para ir trabalhar, rodando cerca de 40 km por dia, pegando trânsito na capital e vias de alta velocidade, como rodovias. Ele não descuida do nível de óleo do motor, da calibragem de pneus e sempre lubrifica a suspensão. "É muito difícil encontrar boas oficinas de Volks a ar. Existem muitos aventureiros ou profissionais que cobram um valor absurdo".

Negócios em família também fazem parte de quem trabalha com carros antigos. Breno, primo de Rafael, viu um Gol ano 1980, motor 1.3, com teto solar, na casa do mecânico. O jornalista calcula que mais de 90% do veículo são originais.

Em março desse ano, comprou fiado do parente, pagando aos poucos. E as primeiras mexidas foram feitas na oficina do primo.

Breno quis colocar de volta as rodas originais e precisou resolver um vazamento de óleo por causa de um problema no burrinho que nunca havia sido trocado em quase quatro décadas. Outro detalhe: o estepe é original, de 39 anos atrás, novo. "É o prazer de ter um carro a ar, a verdade é essa", resume.

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