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Greve dos entregadores: mulheres relatam medo à espera de pedidos na rua

Entregadores de aplicativo prometem paralisação geral hoje em todo o Brasil - Joel Carillet/Getty Images
Entregadores de aplicativo prometem paralisação geral hoje em todo o Brasil Imagem: Joel Carillet/Getty Images
Diego Salgado

Repórter do UOL desde 2015, com passagens por Estadão e Portal 2014. Ciclista há 20 anos na cidade de São Paulo, já pedalou por 10 países e atravessou sozinho a América do Sul e a Europa. A Oceania é o próximo desafio.

01/07/2020 04h00

Uma greve nacional promete paralisar as entregas de comida de aplicativos hoje (1º) em busca de melhores condições de trabalho. Incluídas nessa categoria, duas cliclistas relataram à Coluna Pedala as dificuldades diárias que enfrentam nas ruas de grandes cidades brasileiras.

Ambas irão aderir à paralisação e buscam, sobretudo, mais suporte nas ruas enquanto pedalam para entregar refeições. Além disso, citam os baixos salários pagos por corrida. Segundo elas, a situação piorou durante a pandemia do novo coronavírus.

Tirza Drumond, 21 anos, por exemplo, passou a fazer entregas em Porto Alegre para ajudar nas contas de casa em meio à crise causada pela pandemia. Ela relata que existe um temor de ficar exposta nas ruas à espera de novas entregas. Sem sede fixa para ficarem, é comum ver entregadores em pontos das cidades.

"Esperar na rua ou ficar igual barata tonta na rua sem rumo é muito ruim. Aqui está frio demais. Às vezes a gente só fica ali sozinho, é muito ruim, é muito triste. Eu já chorei muitas vezes na rua escorada na minha mochila, que é a única parceira que a gente tem. E eu sinto muito medo na rua, até nem faço de noite", conta Tirza, que faz entregas apenas para a Rappi, pois não conseguiu se cadastrar no iFood nem na Uber.

"Há momentos que chega a duas horas sem tocar nenhuma chamada à tarde. O entregador fica sentado pelas sombras embaixo das árvores, correndo o risco ainda de ser assaltado", frisou uma entregadora de Brasília, que terá a sua identidade preservada — ela presta serviço aos três aplicativos há 18 meses.

A falta de banheiro também traz incômodo. Tirza explica que muitas vezes precisa segurar para urinar em casa. "É constrangedor, os estabelecimentos não deixam a gente entrar. Já voltei chorando para casa, foi horrível, é humilhante demais", disse.

Menos dinheiro

A entregadora de Brasília não passou apuros desse tipo, pois mora em uma região central. Ela ressalta, porém, que precisa ficar mais tempo na rua para conseguir o mesmo salário de tempos atrás.

"Antes existiam diversas promoções relâmpagos, taxas adicionais e dinâmicas que tornavam o preço da entrega mais justo. Hoje em dia essas promoções e adicionais já quase não existem. Dessa forma, todo entregador precisa trabalhar muitas horas a mais para conseguir chegar perto da renda que ele tinha antes", contou.

A ciclista brasiliense chegou a fazer cerca de 70 entregas nos primeiros dias do mês de junho. Por isso, ganhou R$ 247, com média inferior a R$ 4 por delivery. Ela destaca que é preciso aumentar os preços mínimos e por quilômetro.

Tirza, por sua vez, conta que a média recebida em trajetos de 20 quilômetros, com mais de uma entrega, é de apenas R$ 15. Por isso, a gaúcha começou a fazer entregas diretamente para pequenos comércios, como uma forma de aumentar o salário mensal.

Outra reclamação comum às duas é a falta de equipamento, seja de segurança diante da pandemia ou até mesmo as mochilas, que são compradas pelos próprios entregadores, com a marca do aplicativo estampada. Tirza pagou R$ 100 em uma usada e só pôde começar a trabalhar depois da compra.

A entregadora do Distrito Federal ainda ressalta dificuldades com o sistema de pontos acumulados, que muitas vezes forçam o entregador a se manter em um determinado aplicativo. Ela relata também alguns bloqueios indevidos ligados a alguns colegas.

A Coluna Pedala procurou os três aplicativos, mas só obteve a resposta do iFood. A mensagem enviada à Uber não foi respondida. A Rappi também não foi achada.

Confira a resposta do iFood na íntegra

Antes de mais nada, o iFood apoia a liberdade de expressão em todas as suas formas. Em nenhuma hipótese entregadores são desativados por participar de movimentos. Essa medida é tomada somente quando há um descumprimento dos Termos & Condições para utilização da plataforma e é válida tanto para entregadores, como para consumidores e restaurantes.

É importante frisar que desativar indevidamente um entregador é ruim para o iFood. Os principais casos de desativação acontecem quando a empresa recebe denúncias e tem evidências do descumprimento dos termos e condições que pode incluir, por exemplo, extravio de pedidos, fraudes de pagamento ou, ainda, cessão da conta para terceiros.

Em casos identificados, o entregador recebe uma mensagem via aplicativo e é direcionado para um chat específico para entender o motivo da desativação e pedir análise do caso. A empresa também não adota nenhuma medida que possa prejudicar aqueles que rejeitam pedidos. Ao rejeitar muitos pedidos, o sistema entende que o entregador não está disponível naquele momento e pausa o aplicativo, voltando a enviar pedidos, em média, 15 minutos depois.

O iFood também não possui um sistema de ranking e nem de pontuação. O algoritmo de alocação de pedidos leva em consideração fatores como por exemplo, a disponibilidade e localização do entregador e distância entre restaurante e consumidor.

A empresa esclarece que o valor médio das rotas é de R$ 8,46. Esse valor é calculado usando fatores como a distância percorrida entre o restaurante e o cliente, uma taxa pela coleta do pedido no restaurante e uma taxa pela entrega ao cliente, além de variações referentes a cidade, dia da semana e veículo utilizado para a entrega. Todos os entregadores ficam sabendo do valor da rota antes de aceitar ou declinar a entrega. Todas as rotas têm um valor mínimo de R$ 5,00 por pedido, mesmo que seja para curta distância.

Em maio, o valor médio por hora dos entregadores foi de R$ 21,80. Para fins de comparação apenas, esse valor é 4,6 vezes maior do que o valor por hora tendo como base o salário mínimo vigente no país. Esses entregadores foram responsáveis por 74% dos pedidos. Pelos dados do iFood, os ganhos médios mensais do grupo que têm a atividade de entregas como fonte principal de renda (37% do total) aumentaram 70% em maio quando comparados a fevereiro.

Quanto a seguros, desde o fim de 2019, o iFood oferece a todos os entregadores cadastrados em sua plataforma o Seguro de Acidente Pessoal. A iniciativa é operacionalizada pela MetLife e pela MDS. Com ela, estão cobertas despesas médicas e odontológicas, bem como indenização em caso de invalidez temporária ou permanente ou óbito decorrente do acidente. O seguro não representa nenhum tipo de custo para os parceiros. O benefício é válido durante o período no qual eles estão logados na plataforma da empresa e também no "retorno para casa" - válido por uma hora e até 30 km do local da última entrega realizada de moto, ou por duas horas e até 30 Km do local da última entrega para quem realiza entregas com bicicletas, patinetes ou a pé. O iFood possui ainda parceria com a Prefeitura Municipal de São Paulo para promover boas práticas de conduta no trânsito.

Sobre medidas de enfrentamento do Covid-19, desde o início da pandemia, em março, foram implementadas medidas protetivas que incluem fundos de auxílio financeiro para quem apresentar sintomas e para aqueles que fazem parte dos grupos de risco. Também foi disponibilizado gratuitamente até o final do ano um plano de benefícios em serviço de saúde. Até o momento, foram destinados mais de R$ 25 milhões a essas iniciativas.

Em abril, a empresa iniciou a distribuição de EPIs (álcool em gel e máscaras reutilizáveis) em kits com duração de pelo menos um mês. O iFood desenvolveu uma logística específica para retirada desses materiais, para evitar aglomerações. O entregador recebe um convite no aplicativo, como se fosse um pedido, e o deslocamento é pago até o ponto de retirada.

A empresa já comunicou todos os entregadores ativos sobre a retirada e está focada grande parte dos seus esforços para atingir toda a base de entregadores nas cidades em que operamos. Também continuamos avaliando alternativas para atingir mais pessoas de forma segura e controlada, considerando a distribuição mensal para que todos tenham materiais sempre

De acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva realizada em abril, as medidas adotadas pelo iFood tiveram nota média de 8,9, melhor avaliação entre as ações realizadas por empresas do setor que operam no Brasil. Oito em cada dez entregadores avaliam muito positivamente as iniciativas. A pesquisa mostra ainda que, mesmo após o fim da crise, 92% dos entregadores pretendem continuar na atividade de entregas por aplicativo.