Doação de medula: ele só queria atestado pós-bebedeira, mas salvou uma vida

Muitos podem ser os motivos para uma pessoa tornar-se doadora de medula. No caso de Gustavo Rubio, 31, o objetivo não era tão nobre assim, mas ele nem imaginava o final.

Tudo o que ele queria era conseguir um atestado médico para se curar de uma baita ressaca. Um mês após o cadastro, uma ligação para informá-lo sobre uma possível compatibilidade. Coisa do destino? O engenheiro acredita que sim, afinal, a probabilidade de um paciente encontrar um doador de medula óssea compatível é de 1 a cada 100 mil pessoas.

À época com 23 anos, Millena Sousa estava prestes a fazer uma viagem de formatura quando uma amiga notou uma mancha grande e roxa no braço esquerdo. No mesmo dia, ela foi ao PS e um hemograma apontou que os níveis de leucócitos [responsáveis pela defesa do organismo] estavam altos e das plaquetas baixos [elas são essenciais para o processo de coagulação sanguínea]. A suspeita era de leucemia, mas somente um exame específico poderia confirmar o diagnóstico.

No dia seguinte, Millena foi encaminhada para outro hospital e fez o mielograma, um exame que estuda a produção das células sanguíneas. Poucos dias depois veio o resultado: leucemia linfoide aguda.

"Como já sabia da possibilidade de ter um câncer no sangue, no dia do diagnóstico estava preparada e tinha certeza que não iria morrer, mas chorei quando perguntei se meu cabelo iria cair, ficar careca era triste. O hematologista explicou que eu não conseguiria trabalhar e teria que focar na minha saúde. Abdicar de tudo me doeu muito", relembra a bancária, que foi diagnosticada em 2017.

Após alguns ciclos de quimioterapia, constatou-se que Millena não tinha mais células cancerígenas no sangue, mas como ela possui uma mutação molecular, a químio não seria suficiente para curá-la completamente. Ela necessitava de um transplante de medula óssea e foi cadastrada no Redome (Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea) em busca de um doador nacional ou internacional.

A medula óssea é o tecido que existe dentro dos ossos, sobretudo os ossos longos, e é considerada a nossa "fábrica de sangue". Ela é diferente da medula espinhal —que está localizada na coluna vertebral e remete-se ao sistema nervoso— e que muitas pessoas acabam confundindo.

Breno Gusmão, hematologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que existem dois tipos de transplante de medula óssea.

Na modalidade autóloga, a própria medula do paciente é reinfundida. No alogênico —caso de Millena—, a medula óssea do paciente já não serve mais, por isso a pessoa necessita da medula de um doador para repovoar o tecido do osso.

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Era só um atestado, doutor

Após virar a noite numa festa, o então estudante de engenharia Gustavo foi trabalhar e se deparou com uma campanha de doação de sangue no seu local de trabalho. De ressaca e sem dormir, o jovem viu a oportunidade de conseguir um atestado, mas ao informar que tinha extraído os dentes do siso na semana anterior, não pôde doar sangue.

Nesse momento abri o jogo com o doutor, disse que estava ali para ajudar alguém, mas também precisava de um descanso. Ele comentou que estava acontecendo uma campanha de doação de medula. Se eu me cadastrasse, ele iria me dar um atestado para o período da tarde. Gustavo Rubio

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Imagem: Arquivo pessoal

Gustavo conta que no momento em que fez o cadastro não imaginou que sua medula poderia ser compatível, mas sentiu que haveria novos capítulos. Sua intuição estava certa. Passado um mês ele recebeu uma ligação do Redome informando a possível compatibilidade.

"A ficha demorou para cair, mas o que me motivou a doar foi a surpresa e animação da equipe médica com o nível de compatibilidade mesmo sendo uma doação sem grau de parentesco", conta.

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Segundo o hematologista, a vantagem deste tipo de doação é que não é necessário um órgão, como rim e fígado, de uma pessoa para ser transplantado, apenas a compatibilidade.

Inicialmente, a tentativa é realizada com familiares de primeiro grau, como pais e irmãos. Caso não eles não sejam compatíveis, é feita uma busca de doadores em rede nacional e internacional.

Millena quis saber quem salvou sua vida

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Imagem: Arquivo pessoal
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Imagem: Arquivo pessoal

No dia 5 de julho de 2017, Gustavo retirou a medula através de plasma sanguíneo, ficou 4 horas conectado a uma máquina que coletou a medula óssea por aférese —que é a separação dos componentes do sangue por centrifugação, em que as células são coletadas diretamente da corrente sanguínea pela veia.

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No dia 6, Millena foi submetida ao transplante por meio de um cateter, como se estivesse recebendo uma infusão de sangue. O procedimento ocorreu no quarto em que estava internada na BP. Onze dias depois a medula "pegou", isto é, foi reconhecida pelo organismo.

Em 2020, a bancária pediu a quebra de sigilo do seu doador no Redome e entrou em contato com Gustavo.

Tinha muita curiosidade em saber quem era o doador, mas mesmo sem saber, já o amava, afinal ele salvou a minha vida. Millena Sousa

Pouco tempo depois de doar a medula, Gustavo se mudou para Portugal, os dois se conheceram por videoconferência e conectaram as famílias. Eles se encontraram pessoalmente em uma das visitas do engenheiro ao Brasil.

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Imagem: Arquivo pessoal

O sentimento dos dois é de irmandade. "Considero o Guga como um irmão, temos exatamente o mesmo sangue", comenta a bancária. "Somos mais do que amigos, vejo a Millena como uma irmã", afirma Gustavo.

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Ao apelidar o acontecimento que uniu o caminho dos dois de "santa ressaca", Millena diz que Deus age de formas inimagináveis.

Já Gustavo brinca que não se deve esperar uma ressaca para se cadastrar num banco de doação. "Acredito que todos nós temos que ser doadores, seja de sangue, de medula ou de órgãos. É extremamente importante."

Atualmente, Millena faz exames regularmente e segue em remissão completa, sem manifestação de recidiva [volta da doença] ou suspeita de falha no transplante.

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