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Longevidade

Práticas e atitudes para uma vida longa e saudável


'Só envelhece quem vive': planejamento é caminho para não temer velhice

Preparo é caminho para criar "poupança" para a velhice - iStock
Preparo é caminho para criar 'poupança' para a velhice Imagem: iStock

Bruna Buzzo

Colaboração para VivaBem

16/12/2022 04h00

O sociólogo francês Edgar Morin fez 101 anos agora em julho de 2021. Canceriano, ele lamenta a morte de seus amigos, mas festeja sua própria vida e, sempre que perguntado sobre o assunto, diz que ainda tem planos para o futuro.

Todos nós deveríamos querer chegar aos 101 anos de Morin e, tendo nos planejado para isso, buscar envelhecer com saúde. Não é à toa que se fala em "propósito de vida".

Ter planos, ter um propósito, é o que nos mantém vivos e é justamente o que afasta o medo de envelhecer.

Esse medo da velhice surge da forma como nossa sociedade enxerga os idosos, ainda muito associados a um imaginário de perdas de capacidade física, consciência e autonomia. O envelhecimento, porém, é um processo heterogêneo e que varia muito de acordo com o contexto em que o idoso está inserido --gênero, faixa de renda, região geográfica em que vive, tudo isso influencia.

"A sociedade ocidental trata o envelhecimento de forma homogênea, como se todo mundo envelhecesse igual. Mas envelhecer ainda é um privilégio", explica Viviane da Silva Jardim, professora do curso de enfermagem da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e responsável pela coordenação de grupos de arteterapia para idosos na universidade.

Ela trabalha com o tema desde o mestrado, em que estudou a representação social da velhice, que em geral é negativa. Porém, ao conversar com idosos, o que apareceu na fala de muitos deles não foi medo, mas, sim, alívio.

Boa parte dos meus entrevistados contou que vê a velhice como uma fase de oportunidades para fazer aquilo que antes não tinham tempo. Viviane da Silva Jardim, professora

São pessoas que encontraram novos hobbies, continuaram fazendo laços sociais e estão aproveitando o tempo de vida disponível, ainda que precisem lidar com as limitações físicas impostas pela idade.

Ser ativo para si mesmo

A participação em grupos de idosos e outras atividades é uma das dicas da professora para envelhecer melhor, já que isso estimula o cérebro e ainda favorece a criação de novas amizades.

Uma das vantagens da velhice é justamente que o tempo e a energia do indivíduo já não precisam ser destinados ao mercado de trabalho.

"A aposentadoria, muito temida por alguns, é algo positivo. É um momento em que a pessoa vai poder descobrir hobbies, estudar coisas diferentes, usar esse tempo que antes era destinado ao trabalho para ser ativo no sentido pessoal. Você não precisa ser ativo no mercado, pode ser ativo só para si mesmo", explica Márcia Pin Fancelli, psicóloga especialista em idosos do HSPE (Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo).

A forma como nossa sociedade enxerga os idosos tem um peso grande na ansiedade que muitas vezes acompanha o processo do envelhecimento. Ainda é comum que os idosos recebam um tratamento infantilizado, como se eles já não tivessem mais uma função social. Isso traz ansiedade e pode levar a um ciclo vicioso de perdas cognitivas e físicas.

"Muitas vezes, o próprio idoso tem preconceito consigo mesmo, seja não aceitando suas limitações ou se restringindo demais, e isso prejudica a pessoa", explica Fancelli. Em sua experiência clínica, o que ela vê é que, quanto mais uma pessoa se lamenta por sua idade, se restringe de fazer algo que gostaria pensando que 'já é muito velha para isso', mais paralisada e prejudicada ela fica.

Se a pessoa não se estimula, aí sim ela acaba tendo perdas cognitivas e físicas, é um ciclo vicioso. Márcia Pin Fancelli, psicóloga

Ela reforça a importância das escolhas individuais para se manter ativo ao longo dos anos, garantindo assim um envelhecimento saudável. "O que importa não é a idade cronológica, é a vida. Hoje em dia vemos cada vez mais idosos envelhecendo bem e sendo produtivos".

Planejamento é caminho para não temer velhice

A geriatra Uiara Ribeiro, professora da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), concorda: "O envelhecimento está muito atrelado à forma como a pessoa vive. Por isso, deveríamos começar a nos preparar para envelhecer o quanto antes, criando uma espécie de 'poupança' para a velhice. O velho pode ter limitações físicas, pode ter doenças, mas isso não significa que não seja possível adaptar as coisas que faz para continuar seguindo seus planos."

Esse planejamento da velhice garante o que se chama na prática clínica de longevidade saudável. A ideia é, ao longo da vida, direcionar suas escolhas para garantir que você tenha um 'estoque de saúde' para usar quando estiver mais velho.

Dentre as práticas que Ribeiro recomenda para envelhecer com saúde estão:

  • Alimentação correta;
  • Atividade física regular;
  • Práticas de lazer;
  • Atividades que ajudem na saúde mental e
  • Manutenção de relações afetivas saudáveis.

É claro que, ao longo da vida, podem acontecer acidentes e imprevistos. Mas, considerando que o envelhecimento é um processo natural, a professora brinca que "só envelhece quem está vivo" e, por isso, todos nós deveríamos querer ficar velhos, já que "a única terapia antienvelhecimento real é a morte".

Hoje em dia o velho é visto como inútil e, então, porque alguém ia querer ficar velho? Mas isso precisa mudar, envelhecer deveria ser sobre querer viver mais. Uiara Ribeiro, geriatra

Negar o envelhecimento, ter isso que Fancelli chama de "preconceito consigo mesmo", é justamente o oposto do caminho de planejamento indicado pela professora Ribeiro.

"O negativismo quanto ao futuro, essa perspectiva negativa que às vezes aparece na fala de alguns idosos, revela o medo de envelhecer. Às vezes atendo pessoas que acham que já estão velhas pra qualquer coisa, até mudar os móveis da casa de lugar, por exemplo. Isso revela um quadro patológico, de muita ansiedade, nessa forma de encarar a velhice", explica Fancelli.

No caso de quem cuida ou convive de perto com idosos, ela diz que é importante observar o comportamento de pais e avós para perceber eventuais mudanças, sobretudo porque esse negativismo pode afetar a cognição.

A projeção da OMS (Organização Mundial da Saúde) indica que, até 2050, um quinto da população mundial terá 60 anos ou mais. No Brasil, os dados de 2022 divulgados pelo IBGE mostram que os maiores de 60 anos já representam 14,7% da população, podendo chegar a 30% já em 2030, segundo projeções da ONU (Organização das Nações Unidas).

Gráfico - United Nations, DESA. CC BY 3.0 - United Nations, DESA. CC BY 3.0
Gráfico da ONU mostra projeção de pessoas com 60 anos ou mais na população brasileira
Imagem: United Nations, DESA. CC BY 3.0

Segundo assim, quanto antes começarmos a cuidar do envelhecimento, melhor vamos viver esse futuro. "Isso vale tanto para idosos quanto para os jovens, que vão conviver com cada vez mais idosos daqui pra frente", avisa Fancelli.

Por isso, é preciso estar atento para não acabar reforçando comportamentos de preconceito para com os idosos, ainda que de modo inconsciente. Se tudo der certo, nós também chegaremos lá.