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2 casais, 2 rins, 4 cirurgias simultâneas: o 1º transplante pareado do país

Da esq. para a dir.: Allan, Ivana, o médico David Machado, Alessandra e Enzo - David Machado/HC-FMUSP
Da esq. para a dir.: Allan, Ivana, o médico David Machado, Alessandra e Enzo Imagem: David Machado/HC-FMUSP

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

02/05/2022 04h00

Duas mulheres tinham o mesmo desejo, doar o rim para os seus maridos, mas a incompatibilidade sanguínea era uma barreira para a realização do transplante. Após os dois casais serem selecionados para participar de um projeto de pesquisa inédito no Brasil, no dia 10 de março de 2020, um dia antes de a OMS (Organização Mundial de Saúde) decretar a pandemia da covid-19, os quatros fizeram o primeiro transplante pareado do país, no HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Na cirurgia, que ocorreu de forma simultânea, as esposas dos pacientes renais realizaram uma espécie de troca. Ivana Nascimento, 43, doou o rim dela para Enzo Perondini Filho, 58, e a esposa de Enzo, Alessandra Bueno Perondini, 47, doou o rim dela para Allan Nascimento, 40, marido de Ivana.

"A doação renal pareada (DRP) oferece a um par de doador/receptor incompatível a possibilidade de trocar o doador com outro par na mesma situação e realizar os transplantes, beneficiando ambos os receptores. A DRP se mostra como uma solução para resolver as incompatibilidades e aumentar o número de transplantes, diminuindo o tempo de espera e a fila com doador falecido", explica David Machado, médico nefrologista do HC e coordenador responsável pelo projeto de pesquisa do transplante pareado.

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Alessandra doou um rim para Allan, e Ivana doou um rim para Enzo
Imagem: Arte UOL

Juntos há 15 anos, Ivana e Allan já eram casados e faziam faculdade juntos quando o comprador de tecidos e aviamentos teve uma crise durante uma aula. Com dor nas juntas, no corpo e cãibra nas mãos e nos pés há 15 dias, Allan foi num posto de saúde, fez alguns exames e ouviu do médico que ele tinha um problema grave no rim.

Na época em que o marido recebeu o diagnóstico de insuficiência renal, aos 28 anos de idade, Ivana se ofereceu para doar seu rim, mas eles eram incompatíveis.

5 pessoas passaram por processo para tentar doar rim a Allan

Transplante pareado - David Machado/HC-FMUSP - David Machado/HC-FMUSP
Imagem: David Machado/HC-FMUSP

Com a função do único rim com que nasceu piorando a cada dia, Allan começou a fazer hemodiálise em 2013 três vezes por semana no HC. Na fila de transplante renal desde então, o comprador conta que, ao longo dos 7 anos e 2 meses que fez diálise, cinco pessoas compatíveis com ele, entre tio, primos e amigos, se ofereceram para doar um rim.

"Cada um deles passou por um processo que envolveu fazer diversos exames e avaliações. No final, eles foram descartados como doadores porque apresentaram algum problema de saúde no decorrer do processo, que durou em média de 9 a 12 meses."

Ex-fisiculturista achava absurdo esposa querer doar rim

Alessandra e Enzo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alessandra e Enzo
Imagem: Arquivo pessoal

Oito vezes campeão brasileiro de fisiculturismo, o personal trainer Enzo descobriu ter uma doença renal em 2014, ano em que parou de competir. A descoberta veio após ele procurar um médico e fazer exames para tratar uma inflamação recorrente na planta do pé.

"Os resultados mostraram que os níveis de creatinina e potássio estavam altos. Fiquei internado para investigar a causa e fui diagnosticado com hipertensão e com insuficiência renal."

O ex-fisiculturista iniciou o acompanhamento pelo setor de nefrologia do HC durante um ano para ver se a função renal voltava. Nesse período, teve um quadro de neuropatia que atingiu os membros inferiores, ele não tinha força nas pernas e só conseguia andar com bengala.

Diante da piora geral e da perda da função renal, Enzo começou a fazer hemodiálise numa clínica perto da sua casa em 2016 e entrou para a fila de transplante. "Antes de saber que éramos incompatíveis, minha esposa se ofereceu para doar o rim dela para mim, mas eu achava um absurdo. Minha maior preocupação era ela doar, ficar com um único rim e no futuro ter algum problema renal."

Ivana vislumbrou uma 'superoportunidade'

Transplante pareado - David Machado/HC-FMUSP - David Machado/HC-FMUSP
Imagem: David Machado/HC-FMUSP

Num conflito entre fé e dúvida, altos e baixos, em que via algum colega morrendo ou vendo os anos passarem e sua posição na fila de transplante quase não sair do lugar, em 2018, Allan recebeu a ligação da enfermeira Bruna Moura, coordenadora do ambulatório de transplante renal do HC.

"Ela me ligou para perguntar se minha esposa ainda tinha interesse em doar o rim, no impulso acabei dizendo que sim sem falar com ela. A enfermeira me explicou que um médico do HC, David Machado, estava desenvolvendo um projeto de pesquisa inédito que iria selecionar duas duplas para fazer o chamado transplante pareado que funcionaria assim: minha esposa doaria o rim dela para um paciente renal e um parente desse paciente doaria o rim dele para mim. Desliguei com a enfermeira e liguei para Ivana para contar o que tinha acontecido e para perguntar: você quer mesmo doar?"

A resposta de Ivana, compradora de e-commerce de calçados e acessórios, foi sim: "Sempre quis, nunca titubeei. Assim que Allan me falou, acreditei na proposta do projeto, vi como uma superoportunidade, sabia que tinha chegado a hora dele. Como mulher, companheira e amiga, via o sofrimento dele e queria poder ajudar a reverter a situação. Não me incomodou saber que meu rim iria para outra pessoa, o importante é que meu marido seria beneficiado com a minha ação".

Após três anos fazendo diálise, Enzo também ficou sabendo do projeto pelo nefrologista que atendia na clínica onde ele fazia o tratamento e que era da equipe de David Machado.

"Ele me explicou o procedimento por cima, vi com bons olhos, mas tinha resistência em aceitar a ideia da minha esposa ser doadora, conversei com ela e aos poucos fui mudando meu pensamento", conta o ex-atleta.

Alessandra não pensou duas vezes

Transplante pareado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Alessandra diz que não tinha medo de ser doadora e que já sabia que a vida dela com um rim continuaria normal. "Quando meu marido me contou do projeto, falei que queria participar. Por mais que dentro do possível o Enzo lidasse bem com o fato de fazer hemodiálise, era um tratamento cansativo e que o limitava. Ao saber que eu poderia melhorar a qualidade de vida dele de alguma forma, não pensei duas vezes", diz a gerente de marketing.

De acordo com o nefrologista Machado, não é qualquer dupla que está habilitada para fazer o transplante pareado, existem alguns critérios que precisam ser atendidos.

"Pacientes que têm doadores vivos compatíveis do ponto de vista do sistema ABO (que classifica os grupos sanguíneos em tipos A, B, AB e O) e a compatibilidade tecidual podem fazer o transplante com seus doadores. O ineditismo desse projeto de cruzar doador/receptor com incompatibilidade sanguínea ABO ou imunológica tecidual, buscando a compatibilidade com outras duplas, resulta na conclusão de dois doadores e dois receptores renais compatíveis", explica o médico.

Machado conta que pacientes com incompatibilidade tecidual têm muita dificuldade de transplantar devido à elevada frequência e nível de anticorpos em seu sangue que podem causar rejeição com perda imediata do enxerto renal.

"Estes compreendem 30% dos pacientes em lista de espera e somente 10% dos transplantes realizados. Tais pacientes ficam em média cinco anos em fila de espera, permanecem em diálise, estão inscritos na lista de espera para transplante com doador falecido mesmo tendo um doador disposto a doar. Assim a DRP é uma ótima alternativa", afirma.

Transplante pareado não é regulamentado no Brasil

Apesar de ser vista com esperança por pacientes renais crônicos, a doação pareada não é regulamentada no Brasil, mas um projeto de lei em andamento pretende mudar isso. O projeto de lei 95 de 2020 objetiva alterar a lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento, para permitir a doação recíproca de órgãos e tecidos (transplante cruzado).

"A aprovação permitiria a regulamentação desse ato médico e ampliação do alcance nacional", comenta o nefrologista.

Transplante pareado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Enzo é ex-fisiculturista
Imagem: Arquivo pessoal

Uma vez selecionados para o programa, Allan e Ivana e Enzo e Alessandra foram avaliados clinicamente, fizeram uma bateria de exames e receberam a confirmação de que estavam aptos para fazer a cirurgia.

Por orientação da equipe do HC, os dois casais, que não se conheciam pessoalmente, tiveram que entrar com uma ação conjunta na Justiça para conseguir uma liminar autorizando o transplante pareado —enquanto o projeto de lei não é aprovado, essa autorização judicial é necessária.

Dois dias antes da cirurgia, os casais se conheceram pessoalmente na porta do ambulatório de transplantes do HC, quando Alessandra abordou Allan e Ivana e perguntou se eles eram os outros participantes do projeto. Ao ver Alessandra, Ivana lembrou de um sonho que havia tido seis anos atrás.

"Sonhei com o Allan e uma mulher loira deitados em duas macas numa sala de cirurgia. Eu via o rim dela flutuando para ele. Como observava a cena de cima, a sensação era a de que eu estava participando daquilo. Na época, esse sonho não fez o menor sentido, mas ao ver a Alessandra, tive a certeza que a mulher loira e de pele clara do meu sonho era ela", relembra Ivana.

Com duração de cerca de 3 horas e a participação de 25 profissionais de saúde, no dia 10 de março os transplantes foram realizados em quatro salas cirúrgicas simultaneamente. Enquanto uma equipe retirava o rim de Ivana, na sala ao lado Enzo já estava pronto para receber o órgão. Ao mesmo tempo, Alessandra passava pelo mesmo procedimento para doar seu rim para Allan.

Segundo o coordenador do projeto, o primeiro transplante pareado do Brasil foi bem-sucedido. "Os pacientes apresentaram diurese imediata, houve a recuperação da função renal, eles não tiveram qualquer rejeição aos órgãos e ambos receberam alta em menos de uma semana", explica o nefrologista.

Enzo e Allan viraram 'irmãos de rim'

Transplante pareado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Allan e Ivana
Imagem: Arquivo pessoal

Grato pela oportunidade que teve, Enzo diz que o sentimento que tem por Allan é de irmandade: "Criamos um vínculo, a gente se chama de irmão de rim".

Allan diz que a pandemia atrapalhou um pouco a aproximação física das famílias: "Nos falamos mais por mensagem, estamos tentando marcar um encontro pessoalmente para estreitar ainda mais o bom relacionamento que já temos".

Dois anos após a cirurgia, Ivana e Alessandra comemoram a recuperação dos maridos: "Agradeço a Deus pelo privilégio de ter proporcionado isso a ele", diz Ivana sobre Allan, que por sua vez reconhece a importância da esposa: "O fardo era meu, ela teve uma atitude de puro amor e coragem".

Alessandra celebra o fato de ter ajudado a mudar a vida de duas pessoas. Enzo comenta: "Doar um órgão é uma das maiores demonstrações de amor que existe".

Felizes e aliviados por não precisarem mais fazer hemodiálise, Enzo e Allan têm esperança que o transplante pareado seja regulamentado no Brasil e divulgado para que mais pacientes renais crônicos sejam beneficiados.

Atualmente, o HC de São Paulo tem 40 duplas aguardando nova rodada de seleção de pares de receptor e doador para a doação renal pareada.

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