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Com 750 gramas, prematura é o menor bebê do Brasil a fazer cateterismo

Camila Mazzotto

Colaboração para VivaBem

15/02/2022 04h00

A temperatura na sala de hemodinâmica não passava de 20ºC, mas o médico Marcelo Ribeiro estava suando. Cardiologista intervencionista em cardiopatias congênitas da Rede D'Or São Luiz em São Paulo, o profissional, que há dez anos trata problemas no coração de bebês e crianças, estava realizando um cateterismo em um prematuro. O desafio, porém, era inédito: tratava-se de um bebê com pouco mais de 750 gramas —o que fazia dele o menor recém-nascido a passar por tal procedimento no Brasil.

A paciente minúscula se chama Rebeca. Nascida 20 dias antes daquele 1º de outubro de 2021, a menina viera à luz com 27 semanas de vida, muito menos do que a média de 40. Era, portanto, uma prematura extrema, como são chamados os bebês que nascem antes da 28ª semana de gestação ou sétimo mês.

Do lado de fora da sala, a ansiedade se misturava à esperança entre os pais da pequena. O casal, assim como a equipe médica, esperava que o procedimento cardíaco fosse uma luz para a criança.

Desde o seu nascimento, em 10 de setembro de 2021, os boletins médicos sobre a primogênita eram cheios de altos e baixos —com mais baixos do que altos. "No dia em que ela nasceu e foi para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal, os médicos já alertaram que as próximas semanas seriam como uma montanha-russa de emoções. E foram mesmo", recordam a psicóloga Larissa, 26, e o executivo de vendas Klemilson Abreu, 32.

Bebê Rebeca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Poucos dias após o nascimento prematuro de Rebeca —que ocorreu devido a um quadro de pré-eclâmpsia (aumento da pressão arterial) grave em sua mãe—, a recém-nascida foi diagnosticada com um problema congênito conhecido como PCA (Persistência do Canal Arterial). A condição é exatamente o que seu nome sugere: a presença de um canal que, quando deveria estar fechado, permanece aberto.

Enquanto o bebê está na barriga da mãe, o canal arterial é como uma ponte que conecta a aorta (a maior artéria do corpo humano) à artéria pulmonar, responsável por levar sangue ao pulmão. Esse canal, porém, deve se fechar espontaneamente ao longo das primeiras 48 horas após o nascimento, com a expansão dos pulmões.

No entanto, não é o que acontece entre os bebês com PCA, como Rebeca. O resultado é que os pulmões continuam recebendo sangue, podendo ficar sobrecarregados, enquanto os outros órgãos recebem um fluxo sanguíneo reduzido.

Com incidência maior entre bebês prematuros, a condição responde por cerca de 10% das cardiopatias congênitas, segundo a médica Tathiane Davoglio, cardiopediatra e coordenadora do serviço de cardiopatias congênitas do Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco, da Rede D'Or São Luiz.

"O canal arterial é essencial para a vida intrauterina, mas se ficar aberto após o nascimento é muito prejudicial para prematuros, porque vai roubando o fluxo da aorta, do intestino, do rim e mandando para dentro dos pulmões. E isso gera consequências graves, como hemorragia pulmonar, alterações cardiorrespiratórias e insuficiência renal, como aconteceu com a Rebeca", explica Davoglio, que também acompanhou a recém-nascida.

Quando o canal arterial não se fecha naturalmente, o recém-nascido pode receber medicamentos para induzir esse fechamento, recurso que foi adotado no caso da primogênita de Larissa e Klemilson. Mas a bebê não reagiu de forma consistente ao tratamento e seu caso continuou a se agravar.

Foi aí que a equipe médica decidiu tirar do papel um plano B: o cateterismo cardíaco —procedimento minimamente invasivo que levou a pequena Rebeca à sala de hemodinâmica naquela tarde de sexta-feira.

Esperança do tamanho de uma ervilha

Bebê Rebeca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aprovada recentemente no Brasil, prótese Piccolo foi desenvolvida para bebês a partir de 700 gramas
Imagem: Arquivo pessoal

O suor do cardiologista Marcelo Ribeiro não era à toa. Embora outras crianças maiores e alguns bebês com menos de 1 kg já tivessem passado por um cateterismo cardíaco no Brasil, nenhum deles era tão pequeno quanto Rebeca.

E esse não era o único desafio pela frente. "Era um canal muito grande num bebê muito pequeno, o que também deixou a gente apreensivo. Mas precisávamos fazer alguma coisa, porque ela provavelmente não iria resistir por muito mais tempo", avalia o cardiologista intervencionista, que liderou o procedimento inédito ao lado de Carlos Pedra, diretor médico no HCor (Hospital do Coração) e no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, ambos em São Paulo, e líder da cardiologia intervencionista no país.

Segundo Ribeiro, o canal arterial de Rebeca chegou a medir 4 milímetros de espessura, valor considerado alto para um bebê de seu tamanho.

Rodeada por uma equipe de oito pessoas, entre cardiologistas, enfermeiros e anestesiologistas, a sala de hemodinâmica do Hospital e Maternidade São Luiz Anália Franco se tornou palco para o cateterismo com o menor recém-nascido do Brasil até o momento, diz o especialista.

Com auxílio das imagens do ecocardiograma —um ultrassom específico do coração—, os médicos introduziram um cateter pela virilha da recém-nascida até chegar ao coração. Foram várias tentativas até que conseguissem alcançar com uma agulha a veia da região, tão fina quanto um fio de cabelo.

Bebê Rebeca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Passado esse desafio, no entanto, uma prótese "menor que uma ervilha", chamada de Amplatzer Piccolo, foi inserida no local sem grandes dificuldades. Mas o dispositivo médico, desenvolvido para bebês a partir de 700 gramas, só foi "solto" ali dentro quando as imagens do ecocardiograma comprovaram que ele não interferiria no funcionamento do sistema circulatório da bebê. E o mais importante: que havia fechado o canal.

"O grande benefício desse procedimento feito por cateterismo é que a prótese fica presa no catéter até eu ter certeza absoluta que ela está no lugar certo e que ali ela não incomoda, não interfere em nenhuma outra estrutura da bebê", explica Ribeiro. O médico também ressalta que a técnica é menos invasiva que a cirurgia a céu aberto, cujo pós-operatório pode causar complicações graves em prematuros.

Não vai sair tão já da mente dos profissionais de saúde a cena da equipe, após quase três horas de cirurgia, comemorando o sucesso da intervenção. A alegria rapidamente se estendeu até as médicas neonatologistas que aguardavam na sala abaixo, aos profissionais que já estavam a postos em outro recinto para uma possível cirurgia —caso alguma coisa desse errado— e aos pais da criança.

"Quando você é 'mãe e pai de UTI neonatal', você não pode criar muita expectativa, então a nossa dificuldade sempre era qual é o limite de você ter esperança de que o melhor vai acontecer e também ser muito pé no chão, porque você não pode esperar demais, já que a notícia ruim pode chegar. Mas nós estávamos muito esperançosos, e receber a notícia foi como tirar 10 toneladas das costas. Eu consegui respirar", lembra Larissa.

Próximos passos

Bebê Rebeca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Larissa segura Rebeca nos braços após o procedimento
Imagem: Arquivo pessoal

A revisão da prótese será feita nos primeiros meses e exames de ecocardiograma nos próximos dois anos. Segundo os médicos, o procedimento cardíaco foi crucial não só para salvar a vida da criança, como acelerar sua saída do hospital.

"Eu brinco que a prótese entrou e os problemas saíram, porque ela realmente começou a melhorar todo o restante. A gente conseguiu tirar as drogas para a diálise, por exemplo. Para mim, a Rebeca é guerreiríssima, ela foi vencendo um obstáculo de cada vez", diz Alessandra Bonizzoni Serra, médica neonatologista da UTI neonatal do Hospital São Luiz Anália Franco.

A jornada de Rebeca na UTI, no entanto, estava apenas na metade. Por conta das complicações da extrema prematuridade, a bebê só recebeu alta no último dia 27 de janeiro.

A lista de especialistas que ela terá de passar, como qualquer prematuro extremo, é longa —de nefrologista à fisioterapeuta. Poder estar com a filha nos braços após mais de quatro meses de internação, porém, é o que dá força aos pais.

Bebê Rebeca - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Sentar no sofá e colocar ela no colo, amamentar e ver todo o processo de crescimento dela de perto tem sido muito especial. Ela é um milagre de Deus", diz Larissa. No hospital, Klemilson lembra de, certa vez, ter flagrado um sorriso da criança. "E eu só consegui agradecer. Agora, ver esse sorrisinho dela o tempo todo é a minha esperança."

Assim como Rebeca, Ribeiro calcula que outros cerca de 20 bebês já passaram por esse procedimento no Brasil, aprovado recentemente no país e mais amplamente difundido nos Estados Unidos. O cardiologista acredita que a intervenção com a menor bebê foi "um grande passo no tratamento de prematuros" em território nacional.

"Acho que o nosso grande passo em relação ao tratamento da bebê foi dado. O nosso próximo desafio vai ser expandir a técnica e incorporá-la ao SUS (Sistema Único de Saúde), para poder ajudar cada vez mais prematuros", avalia. Na sala de hemodinâmica —e fora dela—, a luta continua.

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