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Documentário de Selma Blair é retrato comovente de sua luta contra doença

Selma Blair foi diagnosticada com esclerose múltipla em agosto de 2018 - Divulgação
Selma Blair foi diagnosticada com esclerose múltipla em agosto de 2018 Imagem: Divulgação

Bárbara Paludeti

De VivaBem, em São Paulo

17/01/2022 04h00

Receber o diagnóstico de uma doença crônica, degenerativa e sem cura é, sem sombra de dúvida, assustador. Ser uma estrela de Hollywood cuja vida é extensivamente coberta pela imprensa mundial deve ser um agravante e tanto para a saúde mental deste paciente. Em outubro de 2018, a atriz Selma Blair —dos filmes "Legalmente Loira" e "Hellboy"—, à época com 47 anos, contou ao mundo sobre o seu diagnóstico de esclerose múltipla, uma doença neurológica inflamatória, progressiva e autoimune que afeta o cérebro e a medula.

Em outubro de 2021 estreou nos EUA o documentário que mostra a luta da atriz contra a doença enquanto passa por um tratamento de células-tronco, "Introducing, Selma Blair". E, finalmente, em 20 de janeiro ele chega ao Brasil através da plataforma de streaming discovery+.

VivaBem já assistiu ao filme, que foi batizado de "Selma Blair - A batalha contra a esclerose múltipla" em português, e conversou com Rachel Fleit, diretora do documentário.

Os cerca de 90 minutos do vídeo são bastante íntimos e emocionam, principalmente quem, assim como eu, tem alguém com a doença na família —meu pai—, embora também impressionem o bom humor e a resiliência com que a atriz leva a situação.

Documentário Selma Blair 4 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Se você espera assistir algo com cenas bem marcadas e ensaiadas, esqueça, trata-se de uma película que mostra o dia a dia da atriz em momentos difíceis e perturbadores —como no pós-químio, com muita dor ou raspando os cabelos—, tem imagens de celular, bem vida real, tem cenas engraçadas, tristes e outras que te tiram do prumo.

"Não conhecia Selma, nós fizemos uma videochamada e tivemos uma conexão instantânea. Ela estava a dois meses de fazer o transplante de células-tronco, então havia uma urgência e decidimos que tínhamos que começar a filmar. A ideia era ter um produto final tão honesto, sensível e profundo como ficou", conta Fleit.

Selma conta que começou a perceber alguns sintomas durante um desfile em que precisou fazer mais esforço com a perna esquerda, mas o diagnóstico levou algum tempo, assim como acontece na maioria dos casos.

Estava me esforçando para parecer normal [no desfile em 2018]. O diagnóstico me trouxe um alívio porque posso dar passos [sabendo o que tenho]. Selma Blair

Meu pai teve o mesmo primeiro sintoma perceptível que a atriz —começou a "puxar" a perna direita—, mas teve suspeita de Parkinson, sequelas de AVC, fibromialgia, sarcopenia e polineuropatia antes de cravarem a esclerose múltipla, e hoje nós sabemos que certas coisas que aconteceram quando ele tinha cerca de 35/40 anos (pouco controle de esfíncter e tremores) já eram manifestação da doença —atualmente ele está com 64. Os sintomas ainda podem aparecer e desaparecer e, depois, piorarem.

O distúrbio afeta 2,3 milhões de pessoas em todo o mundo, é mais comum entre as mulheres e os jovens, mas pode se manifestar em qualquer idade, inclusive na infância. Os surtos são o que caracterizam a doença, e os problemas mais comuns são na visão, na fala, no movimento, espasmos musculares e desequilíbrio.

Selma, que já usa uma bengala para se locomover, aparece com bastante dificuldade para falar em algumas cenas: a língua simplesmente "enrola" —é a chamada disartria. Ela conta que em casa, com seu cachorro com função terapêutica, se sente calma e confiante, mas quando sai, os muitos estímulos fazem seus sintomas piorarem muito.

Há uma cena dela caminhando no tapete vermelho de algum evento de Hollywood em que aparece de bengala. Ao chegar e ser bombardeada pelas lentes dos fotógrafos, a atriz se emociona, começa a chorar e pede um tempo das fotos, momento que durou pouco, mas foi respeitado.

Documentário Selma Blair 3 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

A relação com o pequeno Arthur, 10, filho de Selma com o estilista Jason Bleick, permeia todos os momentos do filme. As cenas mostram a atriz brincando com o pequeno —e como fica muito cansada logo depois, a fadiga é um sintoma da doença—, se esforçando para estar alegre, mesmo que esteja travando um grande conflito interno.

É um documentário sobre a mulher que enfrenta a doença enquanto luta contra os desafios impostos pelo impacto social de sua condição, tais como os mitos sobre beleza e o medo coletivo em relação à morte, além de defender causas relacionadas à autoaceitação e a busca pelo equilíbrio.

"Faço filmes para contar histórias sobre pessoas notáveis e realmente acredito que Selma é uma mulher notável com uma história que é bastante semelhante a tantos de nós. E se você tem esclerose múltipla, uma condição autoimune ou é simplesmente humano, minha esperança é que você possa se ver na história dela e que isso possa fazer você se mover e se transformar", afirma Fleit a VivaBem.

A busca pelo tratamento com células-tronco

As coisas estavam andando para trás. Os remédios só estavam me fazendo sentir pior. As opções acabaram. Um transplante de células-tronco é o que vai me ajudar, se alguma coisa vai. Selma Blair

Meu pai também fez tratamento por alguns anos com um medicamento de alto custo que o fazia se sentir pior do que a própria esclerose múltipla. A médica dele resolveu cessá-lo.

Documentário Selma Blair 2 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Selma descobriu que podia se submeter ao transplante —não são todos os casos da doença que são elegíveis— e boa parte da uma hora e meia do documentário se debruça sobre este processo.

O transplante envolve altas doses de quimioterapia, o que leva a náuseas e vômitos, além de queda dos cabelos e riscos de alergias, infecções e sangramentos. Portanto, geralmente não é considerado a primeira opção de tratamento.

São indicados para transplante os pacientes com idade até 60 anos, que não tenham respondido ao tratamento convencional e que estejam apresentando inflamação pela esclerose múltipla, conforme explica Maria Carolina de Oliveira Rodrigues, reumatologista, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora dos mecanismos de ação básicos relacionados aos transplantes de células-tronco para doenças autoimunes.

Selma, que mora em Los Angeles, na Califórnia, se mudou para Chicago, em Illinois, por alguns meses para realizar o transplante. Para um jornalista de saúde como eu, o documentário impressiona pela preocupação em explicar, com depoimentos de médicos e de forma muito didática e simples, todos os passos da técnica à qual se submeteu Selma.

"Senti que tínhamos a responsabilidade de realmente explicar a esclerose múltipla, e precisava explicar de forma muito simples. Sabia que não queria criar um filme de ciência, um filme médico. Queria criar um filme que você pudesse sentir, mas você tinha que entender o que ela estava enfrentando", afirma a diretora.

Todo o processo de transplante de células-tronco —que é autólogo, ou seja, com células do próprio paciente— dura cerca de seis meses, desde a avaliação e exames iniciais até a fase de enxerto das células.

"Normalmente, as células-tronco encontram-se em pequeno número, dentro da medula óssea. Precisamos estimulá-las para que se multipliquem e deixem a medula óssea, passando a circular no sangue. Para que essas células sejam então mobilizadas da medula óssea para o sangue, usamos alguns medicamentos, por via endovenosa e subcutânea", explica a professora.

Depois de aproximadamente 10 dias de estímulo, as células estarão circulando no sangue em grande número, e poderão ser coletadas e congeladas. Aí vem a fase principal: condicionamento mais transplante. Consiste em cerca de cinco dias de quimioterapia pesada, seguida pelo descongelamento das células previamente colhidas e infusão por via endovenosa.

"O objetivo dessa combinação é destruir a medula óssea e o sangue doentes e reiniciá-los através das células-tronco, que funcionam como sementes saudáveis (ou enxerto) que darão origem a uma nova medula óssea e sangue. A partir de então, segue-se o que chamamos de aplasia de medula, onde a medula óssea e o sangue antigos (doentes) são destruídos e as células-tronco reinfundidas ainda não começaram a repor o que foi destruído. Após cerca de 7 a 10 dias, o novo sistema hematopoético passa a ser produzido (chamamos de enxertia) e o paciente poderá receber alta hospitalar, mantendo retornos ambulatoriais no hospital", completa Rodrigues.

O objetivo do transplante de células-tronco é corrigir o sistema imunológico. Ao reiniciar o sistema imunológico através desse tratamento, dá-se a ele uma "segunda chance", para que pare de agredir o sistema nervoso do paciente.

Até o momento, não existe cura para a esclerose múltipla, mas os especialistas afirmam que ela pode ser bem gerenciada por meio de terapias medicamentosas e mudanças no estilo de vida. Além disso, raramente a esclerose múltipla é fatal, mas algumas complicações podem ocorrer como resultado do acúmulo de sintomas e dos surtos sucessivos sem tempo de recuperação e tratamento.

A professora Maria Carolina explica que fala-se em remissão, que é a fase em que Selma se encontra atualmente. É importante ressaltar que muito do que já foi lesado no sistema nervoso do paciente persiste, não regenera. Então, se o paciente tem dificuldade para caminhar, por exemplo, ele provavelmente apresentará uma certa melhora, mas dificilmente voltará a caminhar normalmente.

"É muito difícil regenerar um tecido como o sistema nervoso. O que o transplante promove é um bom controle do sistema imunológico, e a maioria dos pacientes deixa de ter sintomas de inflamação (surtos, pioras neurológicas, alterações novas à ressonância) por muitos anos após o transplante", afirma a pesquisadora.

Disseram-me para fazer planos para morrer. Não porque tenho esclerose múltipla, porque estou lutando contra a esclerose múltipla. Tudo de lindo que conheci, que incentivei outras pessoas, será verdade para mim também? Selma Blair

Documentário Selma Blair 5 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Não sabia como ia terminar o filme. Ela estava em remissão, mas ainda estava lutando, então comecei a pensar que este é um filme sobre o espírito humano. Todos nós sofremos tanto ao lado de Selma... Realmente gosto de expressar o que significa ser humano, então pensei: 'acho que podemos pousar o avião e a história aqui mesmo enquanto ela ainda está se desdobrando'. Foi tão poderoso para as pessoas saberem que Selma é tão crua, tão real e está vivendo sua vida com dias bons e dias ruins. Exatamente como todos nós", diz a diretora Fleit.

E sobre a recepção do documentário no Brasil, ela acrescenta: "Espero que ressoe. Amo histórias que nos unem, não importa de onde você é, mas, sim, que você seja capaz de se ver naquele tema".

Resiliência e leveza parecem ser as palavras que regem a vida de Selma após o diagnóstico. Assim como a de meu pai, que apesar de já estar em uma cadeira de rodas, tenta ter pequenos momentos de alegria sem que a doença crônica, incurável e que já tirou tanto dele domine tudo em sua vida.

"Introducing, Selma Blair" é honesto e profundo e, apesar de mostrar a luta contra uma doença degenerativa, é um documentário que celebra a vontade de viver.

Selma Blair - A batalha contra a esclerose múltipla (Introducing, Selma Blair)
Diretora:
Rachel Fleit
Estreia: Quinta-feira, 20 de janeiro, na discovery+
Classificação indicativa: 10 anos

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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