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Bicarbonato de sódio ajuda a cicatrizar feridas na boca, como a afta?

Priscila Barbosa
Imagem: Priscila Barbosa

Cecilia Felippe Nery

Colaboração para VivaBem

10/11/2021 04h00

Aftas surgem quando menos se espera, causando muita dor e irritação na mucosa da boca. Na ânsia de aliviar o incômodo, as pessoas acabam, muitas vezes, recorrendo a receitas caseiras, como o bom e velho bicarbonato de sódio.

A princípio, de fato, ocorre um certo alívio, mas a ferida permanece e a dor volta a incomodar. "O bicarbonato de sódio e outras substâncias, como o leite de magnésia, são utilizados para diminuir a acidez da boca, mas não aceleram o processo de cicatrização", afirma Adilson dos Santos Torreão, cirurgião-dentista especialista em periodontia.

Apesar de ser um remédio bastante popular e sem grandes riscos, o bicarbonato de sódio como tratamento não é recomendado, sobretudo se aplicado diretamente sobre a afta.

"O bicarbonato é uma substância alcalina que, em contato direto com a afta, causa a destruição das terminações nervosas, e isso acaba diminuindo a sintomatologia devido a destruição dessas terminações. O bochecho diluído em água é mais seguro e causa algum alívio, porém existem outros tratamentos", assegura Celso Augusto Lemos Junior, professor livre docente do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo).

O que são aftas?

As aftas são lesões ulceradas, com bordas avermelhadas, espontâneas e recorrentes na mucosa da boca. Elas costumam ser doloridas. "Afta é o nome popular da manifestação clínica de uma doença inflamatória relacionada a uma alteração do sistema imune, provavelmente envolvendo os linfócitos T, que são células relacionadas a defesa do organismo, porém sua exata causa ainda é incerta", explica Lemos Junior.

Estima-se que até 20% da população é afetada, não havendo predileção por gênero. De acordo com Torreão, as aftas surgem por diversos fatores, entre eles trauma local, que inclui mordida acidental na escovação, queimaduras térmicas ou químicas, alterações hormonais, deficiência de vitaminas do complexo B e ácido fólico, refluxo, hipersensibilidade de certos medicamentos e alimentos e também em razão do estresse.

Alguns alimentos podem causar aftas, principalmente as frutas cítricas. Estes são relatados como fatores desencadeantes para muitos pacientes e, nesse caso, a recomendação possível é diminuir a frequência no consumo desses alimentos para não ter novas aftas.

Como tratar as aftas

O cirurgião-dentista pode avaliar o grau das manifestações das aftas, utilizando, em geral, tratamentos tópicos com anti-inflamatórios, anestésicos e antissépticos. Esses medicamentos causam um conforto adequado para a maioria dos casos em aftas eventuais, ou seja, aquelas que ocorrem duas ou três vezes ao ano.

Entretanto, não existe um melhor tratamento para as aftas, pois a causa continua desconhecida. A maioria dos pacientes sente uma melhora nos sintomas com o uso de corticoides tópicos e de bochechos antissépticos quando as aftas aparecem.

"Outras alternativas de tratamento podem trazer algum conforto, como o uso da laserterapia de baixa intensidade realizada pelo cirurgião-dentista, devido ao seu efeito analgésico e anti-inflamatório. O controle dos fatores desencadeantes, diferentes para cada pessoa, também ajuda bastante. O tratamento medicamentoso será adotado dependendo da intensidade das crises de aftas e nos resultados de exames complementares. Não recomendamos o uso de medicamentos tópicos quelantes, ou seja, aqueles que destroem a superfície da afta transformando-a em uma úlcera química que, apesar de apresentar menos dor, pode demorar mais tempo para cicatrizar", adverte Lemos Junior.

Caso as crises sejam mais frequentes e em maior intensidade, será necessário usar medicações sistêmicas e investigar outras possíveis causas. "O estomatologista (dentista especializado em doenças da boca) está apto a diagnosticar, tratar e acompanhar. Algumas situações são realmente desafiadoras para o profissional, mas infelizmente não existe uma cura mágica e simples, basta ver as centenas de tratamentos populares disponíveis, mas nenhum 100% eficiente, e muitos deles potencialmente perigosos para a saúde e bastante doloridos", assegura.

Prevenção

É importante ressaltar que as aftas normalmente cicatrizam após duas semanas, mesmo se nada for usado. Passado esse período, se não houver a cicatrização, deve ser procurado o cirurgião-dentista para avaliação clínica.

"As pessoas que têm aftas de forma recorrente devem se atentar para o que for consumido no período do aparecimento", orienta Torreão.

De fato, tentar descobrir quais são os fatores desencadeantes e evitá-los na medida do possível, como traumas causados pelos dentes, aparelhos ortodônticos ou alimentos, é fundamental. Ter uma dieta variada e saudável parece ajudar alguns pacientes, além do controle do estresse quando associado ao aparecimento das terríveis feridas da boca.

"Felizmente, na maioria das pessoas, as aftas causam um desconforto que dura alguns dias, não desenvolvendo nenhum outro tipo de doença mais grave. Aftas que duram mais de 15 dias devem ser investigadas por um profissional experiente no diagnóstico e tratamento de lesões orais, pois em inúmeras situações o diagnóstico pode estar incorreto, ou seja, o paciente acha que é uma afta, mas há boa possibilidade que o diagnóstico seja outra doença", recomenda Lemos.

Bicarbonato de sódio

O bicarbonato de sódio é um sal que, quando dissolvido em água, torna o meio alcalino, diminuindo a acidez. A reação desse sal com ácidos gera gás carbônico (CO2), além de água (H2O).

De acordo com Cavagis, o bicarbonato é amplamente utilizado em diversas aplicações práticas. "Por possuir também propriedades abrasivas e clareadoras, entra na composição de cremes dentais e no jato de limpeza dentária, realizada em consultórios odontológicos, além de ser usado como coadjuvante em detergentes e produtos de higiene e limpeza, no clareamento de tecidos e também como desodorante, neutralizando odores ácidos do suor", informa.

Cavagis acrescenta que nos fermentos químicos, a liberação de CO2, decorrente da reação química do bicarbonato com ácidos, facilita a fermentação, levando ao crescimento de massas. Essa reação também ocorre em extintores de incêndio, gerando uma espuma química, aplicada na extinção de incêndios de líquidos inflamáveis, por exemplo.

Devido à propriedade alcalina, o bicarbonato entra na composição de antiácidos efervescentes, ajudando a diminuir a acidez estomacal, aliviando sintomas da azia. "Além das aplicações cotidianas, o bicarbonato também é usado em inúmeras aplicações na indústria química e na pesquisa", completa Cavagis.

Entretanto, é importante salientar que o bicarbonato é um sal de sódio e a ingestão deve ser evitada por pessoas com hipertensão arterial. Além disso, o uso de antiácidos pode mascarar problemas mais sérios como o refluxo gastroesofágico, postergando seu tratamento adequado. "Por isso, é sempre aconselhável consultar um profissional da saúde antes de fazer uso de qualquer agente químico ou farmacológico", orienta Cavagis.

Fontes: Adilson dos Santos Torreão, cirurgião-dentista com especialização em periodontia pela Academia Norte-Rio-Grandense de Odontologia e mestrado em odontologia pelo Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic, professor do Associação Brasileira de Odontologia - seção Pernambuco; Alexandre Cavagis, bioquímico e professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos); Celso Augusto Lemos Júnior, professor livre docente do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral.