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'Peguei covid há 1 ano e ainda tenho problemas de memória e concentração'

Daniela Rossi, 42, teve covid em novembro de 2020 e, até hoje, sente sequelas - Arquivo pessoal
Daniela Rossi, 42, teve covid em novembro de 2020 e, até hoje, sente sequelas Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

08/11/2021 04h00

Mesmo um ano após a alta hospitalar de um quadro de covid-19, muitos pacientes relatam sintomas persistentes da doença —a tal covid longa. Inclusive, uma pesquisa feita pelo Hospital das Clínicas de São Paulo mostra que cerca de 70% das pessoas relatam algum tipo de sequela mesmo após este período.

Além da fadiga, falta de ar e fraqueza, há os impactos neurológicos, que são dos mais diversos, como dor de cabeça, problemas de memória e de concentração, dificuldade de concentração e sensação de adormecimento nas pernas.

Embora ainda em estudo pela comunidade científica, o neurofisiologista Luiz Gustavo, chefe da neurofisiologia clínica do HSVP (Hospital São Vicente de Paulo) do Rio de Janeiro, explica que as causas dessas sequelas estão relacionadas, na maioria dos casos, a complicações da covid e não da ação direta do vírus.

"Isso é muito individual. Tem casos de sequelas mais graves que são irreversíveis, mas isso não quer dizer que esses sintomas não possam ser tratados ou melhorados. Hoje em dia tem bastante coisa para poder ajudar além de remédios, como a fisioterapia ou a reabilitação física", explica.

Pesquisadores de universidades dos EUA, do México e da Suécia que analisaram dezenas de estudos, envolvendo 48 mil pacientes, explicam que as origens e causas dos sintomas neuropsiquiátricos em pacientes de covid-19 são complexas e multifatoriais.

Entre as causas, eles citam o efeito direto da infecção, doenças cerebrovasculares, resultado do uso prolongado de medicamentos, aspectos sociais e comprometimento fisiológico (hipoxia).

Dormência em uma das pernas

Daniela Rossi - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Daniela Rossi ficou 10 dias internada em hospital particular de SP
Imagem: Arquivo pessoal

O ponto é que há muitos pacientes que convivem, diariamente, com alguma dessas sequelas. Caso da servidora pública Daniela Rossi, 42, que ficou intubada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) 10 dias após pegar covid. "Meu caso era muito grave. Cheguei ao hospital e, em 2 horas, já fui intubada", conta.

A situação ocorreu em novembro de 2020. Passado o período hospitalar de 21 dias, Daniela saiu com diversas sequelas: não conseguia andar e nem mexer os braços, também desaprendeu a falar. Além disso, teve dormência nas pernas. Fez fisioterapia todos os dias e, aos poucos, os movimentos, assim como a fala, foram voltando.

No entanto, a servidora pública ainda sofre com uma das pernas —a esquerda— que, segundo ela, não "voltou totalmente". Ainda sente o pé dormente, tem dificuldade para andar por muito tempo e não consegue, por exemplo, se equilibrar caso use um sapato com salto alto.

"Sempre fui muito agitada e não posso voltar a fazer as coisas que gosto, como ir à escola de samba. Não consigo sambar por dois motivos: não tenho equilíbrio para salto e não aguentaria caminhar na avenida toda", lamenta.

Dificuldade para fazer grandes esforços

Quem também relata o mesmo problema de Daniela é a secretária Ana Lucia Vianna Ferreira, 59, do Rio de Janeiro. Intubada durante 24 dias em março de 2020, ela tem dormência na perna esquerda, fadiga persistente e problemas na concentração e com a memória.

Ana Lucia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Lucia ficou intubada 24 dias em hospital do Rio
Imagem: Arquivo pessoal

"Qualquer esforço ou caminhada muito longa já me cansam. Também sinto essa dormência até hoje, às vezes, a perna 'falha'", conta.

Ana Lucia também teve alguns episódio de falta de concentração, mas os sintomas já melhoraram: "Eram coisas bobas, como guardar um negócio dentro da geladeira, quando o local certo era na sala."

Para ajudar com isso, tenta manter o hábito de leitura e, além disso, faz acompanhamento rotineiro com um neurologista. "Fiz muita fisioterapia no começo, mas parei. Devo voltar a fazer pilates. O médico disse que pode ajudar", conta.

Casos mais graves de covid-19

De acordo com o neurofisiologista, essa sequela de dormência ou formigamento de alguns membros, principalmente nas pernas e nos braços, é chamada de polineuropatia. Ela ocorre devido ao comprometimento de vários nervos periféricos do corpo.

Gustavo explica que isso é mais comum em pacientes que tiveram quadro grave, com internações longas, intubados e que tomaram diversos antibióticos. Isso pode ser uma consequência do efeito inflamatório da covid-19 ou até mesmo da ação do vírus —o que vem sendo estudado.

"O corpo tem limitações para manter todos os órgãos funcionando, e isso não é diferente com os nervos periféricos. Para manter o coração batendo, por exemplo, vai faltar energia para outras regiões do corpo. Por isso, é possível ter esses sintomas posteriores de um quadro mais importante de covid", diz o médico.

Problemas na memória e de concentração

Outra sequela que Daniela Rossi —apresentada acima— relata é a dificuldade para se lembrar das coisas. Sua memória foi totalmente impactada. "Converso com você hoje e, se você me ligar amanhã, posso contar tudo novamente", diz. "Às vezes, não consigo completar uma frase inteira, preciso fazer algumas pausas quando falo muito."

Daniela Rossi - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Daniela tinha costuma de ir à escola de samba, mas, hoje, acredita não ter mais fôlego
Imagem: Arquivo pessoal

Tudo isso teve um grande impacto na sua vida: esqueceu-se de momentos e de pessoas importantes. Entretanto, quando alguém faz algum comentário sobre os fatos, por exemplo, ela consegue se lembrar na maioria das vezes. No trabalho, afirma ter "sorte", pois quando apresenta dificuldade para realizar as atividades, os colegas a relembram.

"Minha vida mudou completamente. Ter covid-19 atrapalhou em tudo", comenta Daniela que, por conta disso, também não consegue mais realizar trabalhos como modelo de plus size.

Atualmente, ela realiza fisioterapia sozinha em casa, além de acompanhamento com neurologista. Também pretende voltar, aos poucos, a praticar atividade física.

O neurofisiologista esclarece que essas sequelas cognitivas podem ter origem em questões emocionais e, não, diretamente com a covid-19. No entanto, há alguns casos em que a infecção causa uma diminuição da saturação —tanto em quadros leves, como os mais graves.

"Isso já causa uma diminuição da oxigenação cerebral, o que pode trazer uma perturbação cognitiva", diz. Além disso, essas sequelas relacionadas ao cansaço, sonolência, entre outras, pode ser consequência de impactos causados no pulmão.

"Esse efeito direto no pulmão pode trazer consequências na função cerebral, nas trocas gasosas do corpo. Se o corpo não está oxigenando bem o cérebro, você também não vai responder bem a essas questões cognitivas", diz. "É interessante entender que pode ter complicações neurológicas da covid não relacionadas diretamente ao cérebro, mas, sim, por essa situação a nível pulmonar."

Por isso, é importante procurar ajuda médica casos os sintomas persistam por muito tempo. Também é fundamental realizar um check-up com especialistas para ver se está tudo bem com o seu corpo após a infecção por covid.

Reabilitação pós-covid

Se você teve covid e sofre com alguma sequela —seja ela qual for—, é possível encontrar hospitais, faculdades, centros médicos, entre outros, que oferecem o serviço de reabilitação pós-covid de forma gratuita. Você pode conferir os locais espalhados pelo Brasil nesta lista.

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