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Pensar em efeito colateral contribui para que eles apareçam, sugere estudo

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

25/11/2020 14h36

Você costuma ler as bulas de todos os medicamentos que toma e fica esperando algum efeito colateral? Cuidado. Esse tipo de atitude é chamado de efeito nocebo, que ocorre quando os pensamentos negativos levam a resultados piores durante o tratamento.

Cientistas do Imperial College London e médicos do Imperial College Healthcare NHS Trust, no Reino Unido, desenvolveram um experimento para descobrir até que ponto o efeito nocebo é responsável por efeitos desagradáveis relatados por pessoas que tomam estatinas, medicamento que reduz o risco de ataque cardíaco ou AVC, por diminuir a quantidade de colesterol no sangue. O resultado da pesquisa foi publicado no periódico The New England Journal of Medicine.

A pesquisa revelou que a intensidade média dos efeitos colaterais ao tomar um placebo chegou a 90%. De acordo com os cientistas, o efeito nocebo pode influenciar pessoas que tomam estatinas a não tomarem mais, por medo dos efeitos colaterais, mesmo precisando do remédio.

"Nosso estudo sugere que os efeitos colaterais relatados das estatinas não são causados pelas próprias estatinas, mas pelo efeito de tomar um comprimido", disse James Howard, pesquisador clínico do Imperial College London, cardiologista do Imperial College Healthcare NHS Trust e principal autor do estudo.

"Alguns dos efeitos colaterais também podem ser causados pelas dores típicas do envelhecimento", acrescenta.

Como foi feito o estudo?

  • Os pesquisadores recrutaram pacientes com idades entre 37 e 79 anos que estavam tomando estatina, mas a descontinuaram após 2 semanas devido a efeitos colaterais;
  • Cada participante recebeu 12 frascos de comprimidos. Quatro frascos continham um suprimento mensal de uma estatina chamada atorvastatina, quatro continham um suprimento mensal de pílulas de placebo e quatro não continham nada;
  • Os participantes foram instruídos a usar um frasco diferente a cada mês, de acordo com uma sequência aleatória predeterminada durante os 12 meses do experimento;
  • Todos os dias os participantes usaram um aplicativo para relatar a intensidade de seus sintomas em uma escala de 0, indicando nenhum sintoma, a 100, indicando os piores sintomas. O aplicativo não coletou informações sobre a natureza dos sintomas, apenas sua gravidade geral;
  • Caso os participantes sentissem que seus sintomas eram muito graves, eles eram incentivados a parar de tomar os comprimidos naquele mês;
  • 60 participantes concluíram o experimento.

E quais foram os resultados?

Houve 71 interrupções. Dessas, 31 ocorreram durante os meses de placebo e 40 ocorreram durante os meses de estatina. Já a gravidade média dos sintomas foi de 8 durante os meses em que não tomaram os comprimidos, 15,4 nos meses em que tomaram os comprimidos de placebo e 16,3 nos meses em que tomaram as estatinas.

Os especialistas dizem que esse tipo de experimento pode ajudar os médicos a alertar os pacientes quanto a reais efeitos colaterais e efeitos nocebos, que não são provocados pelo medicamento. Eles também avaliam que a gravidade média não foi tão significativa, devido ao número reduzido de participantes.

Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada da The Open University, no Reino Unido, que não esteve envolvido na pesquisa, avaliou que as descobertas do efeito nocebo não se aplicam a todos que tomam estatina.

"Os pacientes neste estudo não eram típicos de todos os pacientes que recebem estatinas porque todos haviam interrompido as estatinas anteriormente, após os efeitos colaterais que começaram dentro de 2 semanas após terem começado o uso", pontuou o especialista.

Contudo, 6 meses após o final do teste, 30 dos participantes haviam retomado o uso de estatinas e outros quatro planejavam retomar.

Além disso, a pesquisa descobriu que as pessoas que sentem ansiedade ou medo têm maior probabilidade de perceber os efeitos negativos de um tratamento.

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