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Só com a covid-19? Negação à microcefalia por zika desafiou ciência em 2015

A médica Adriana Melo e Conceição Alcântara - Arquivo pessoal
A médica Adriana Melo e Conceição Alcântara Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

20/04/2020 04h00

Em 2015, ao perceber que havia algo estranho no número de crianças que nasciam com microcefalia na Paraíba, a médica Adriana Melo suspeitou que um agente novo causava o problema. Ali do lado, duas médicas pernambucanas já haviam feito uma notificação às autoridades sobre um número fora da média histórica de crianças com microcefalia.

Contar hoje a história da microcefalia associada ao vírus da zika (agora chamada de Síndrome Congênita da Zika) é fácil, mas a médica Adriana Melo foi uma das pioneiras nas pesquisas à época e precisou desafiar autoridades é até outros médicos para levar à frente sua tese sobre o problema.

Na época, era comum ouvir também teorias da conspiração, como que a microcefalia seria causada por vacina vencida, por larvicida ou mesmo que seria algo relacionado a algum fator exclusivo do Nordeste. Falava-se até que países como a Colômbia teriam zika, mas não teriam microcefalia (quando o número de casos lá era ainda restrito, e grávidas ainda aguardavam bebês). Nada disso, claro, se comprovou.

O vírus da zika foi descoberto por pesquisadores da UFBA (Universidade Federal da Bahia) em abril de 2015, após testarem vários tipos de vírus, sem sucesso. A doença chegou a ser chamada de "Síndrome de Camaçari" no começo.

Foi de Adriana a primeira amostra retirada do útero de uma mulher grávida e infectada que comprovou a relação entre o vírus e a má formação congênita. Em novembro de 2015, ela enviou suas amostras ao Ministério da Saúde, que investigou o caso e confirmou a ligação. "Assim como agora, havia muito descrédito", afirma.

Voz da ciência embargada

Em conversa com VivaBem, Adriana Melo lembrou como foi difícil fazer valer a voz da ciência também naquela ocasião.

"Quando o vírus chegou no Brasil, no início de 2015, médicos e pesquisadores tiveram dificuldade para convencer as autoridades de saúde que não se tratava de uma forma atípica de dengue. Em novembro do mesmo ano, quando coletei líquido amniótico de duas grávidas que tinham apresentado sintomas de zika, cujos fetos apresentavam malformações cerebrais, não tinha dúvidas que algo novo estava causando danos nos cérebros daqueles fetos, pois era um padrão totalmente diferente", conta.

"Mesmo com o resultado positivo para zika, muitos pesquisadores questionavam e afirmavam que nós, médicos nordestinos, estávamos apenas enxergando o que não tínhamos visto antes", completa.

Ela lembra algo que ouvia um argumento com frequência: "Diziam que microcefalia sempre existiu, que apenas a gente não tinha percebido antes", afirma. "A população também duvidou, e muitos preferiram acreditar em teorias conspiratórias, em vacinas vencidas, em larvicidas alterados, dentre outras."

Enquanto recebia prêmios lá fora por suas pesquisas, Adriana Melo era chamada de alarmista e acusada de inventar casos para aparecer na mídia.

"Mas o tempo revela o que a ciência afirma precocemente. A epidemia do zika nos ensinou que temos que ter a mente aberta para novas doenças que com certeza irão surgir", diz, citando que a situação é parecida com o momento atual. "Vamos ter de aprender com nossos erros", diz.

Demora em acreditar

Uma das mães que teve líquido amniótico colhido e que gerou a primeira confirmação foi a fisioterapeuta Conceição Alcântara, mãe da pequena Catarina —conhecida como caso um da doença.

"Apesar da confirmação com essa descoberta, infelizmente muitos demoraram a dar credibilidade, inclusive as autoridades e com isso os casos de microcefalia só aumentavam", lembra.

Um dos alertas feitos pela mãe de Catarina é que hoje existem informações sobre a covid-19 que, à época, ela não tinha em 2015.

"Passamos momentos difíceis. Todas as precauções e cuidados necessários que uma grávida pode ter eu tive, apenas faltaram os cuidados com o mosquito. Passamos por uma grande epidemia, eu fui umas das vítimas e infelizmente não pude me prevenir, pois não tive as mesmas informações preventivas que outras gestantes tiveram, como usar repelente e roupas longas", explica.

"Hoje vemos na covid-19 uma pandemia na qual a população recebe todas as informações possíveis, todas as mídias alertam, temos países de primeiro mundo que também já nos serviram de exemplo, mas mesmo assim muitos continuam sem seguir as orientações do meio científico", completa.

Em 2015, lembra Conceição, era bem parecido com a zika. "Mesmo diante de todas as informações, muito zombaram, não acreditavam, diziam que era coisa da cabeça da doutora Adriana, e os casos foram apenas crescendo. Muitas vezes, eu chegava ao consultório médico e encontrava as grávidas de roupas curtas, comentando que não usavam repelente porque o cheiro era enjoado ou porque não gostavam."

"Ficava super triste, pois eu era uma das vítimas, e não podia fazer mais nada para ajudar minha filha, apenas me doei inteiramente para contribuir nas pesquisas e tentar alerta à população quanto aos riscos do vírus zika, principalmente para gestantes", relembra.

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