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Ela teve câncer 4 vezes, amputou o braço, mas aprendeu a nadar e lutar

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o VivaBem

16/02/2020 04h00

Diagnosticada quatro vezes com câncer, Maristela Siqueira, 43, passou por várias desafios ao longo dos dez anos em que luta contra a doença. Desde engravidar durante o primeiro diagnóstico e optar entre fazer o tratamento ou interromper a gestação, a amputar o braço direito e descobrir 11 nódulos nos dois pulmões. A seguir, ela compartilha sua história e conta como se tornou nadadora e lutadora para se defender do preconceito.

"Em 2009, apareceu um machucado no dedo anelar da minha mão direita, uma mancha vermelha, tipo queimadura, e foi escurecendo. Eu fui ao médico, ele pediu três exames e uma biópsia. Quando saiu o resultado, fui diagnosticada com sarcoma de partes moles.

Em outras palavras, o médico disse que eu estava com um câncer maligno no dedo.

Eu fiquei apavorada e chorei bastante.

Achei que fosse morrer, meu maior medo era deixar meu filho, o Rafael, que na época tinha 5 anos. Eu tinha uma vida ativa e saudável, não aceitava estar doente.

Desisti do tratamento e continuei a gravidez

Fiz a cirurgia para amputar o dedo no dia 10 de janeiro de 2010. A recuperação foi tranquila. Aproveitei que era mês de férias e fui passar um tempo na casa da minha mãe. Na despedida do meu marido, 'namoramos' e quando voltei descobri que estava grávida. Fiquei preocupada, pois a sequência do tratamento seria fazer a radioterapia no mês seguinte.

Contei a novidade ao médico, ele informou que eu teria de escolher entre o tratamento e o bebê.

Ele explicou que se eu fizesse a rádio grávida, eu poderia sofrer um aborto ou meu filho poderia nascer com alguma deficiência. Ele também explicou que o tratamento só teria eficiência após seis meses da operação, depois desse período, não seria mais indicado.

Confiei que se Deus me permitiu engravidar assim, ele cuidaria de mim e do meu filho. Eu prossegui com a gestação e meu bebê nasceu no dia 10 de outubro de 2010. Dei o nome de Mateus, que significa presente de Deus.

Deu metástase no braço e precisei amputá-lo

Segui minha vida normalmente, até que em 2012 comecei a perder a força na mão direita até perder completamente o movimento do braço. Eu sentia muita dor e choques. Nesse processo, tive de aprender a fazer tudo com a mão esquerda: comer, lavar louça, cozinhar, limpar a casa, escrever.

Fui investigar o problema e demorei dois anos para receber o diagnóstico. Nenhum exame apontava o que eu tinha, mas um médico percebeu que eu estava com o linfonodo aumentado. Não queria acreditar que era câncer, dizia todos os dias para mim mesma: 'eu não estou com câncer'. Mas infelizmente, era sim, tinha dado metástase no braço e eu teria de amputá-lo.

O médico disse que se continuasse com aquele membro doente, iria morrer.

Ele orientou que o melhor seria amputar e ter qualidade de vida.

Eu fiquei mais chateada de ter que me submeter ao tratamento, que era bastante agressivo, do que de perder o braço.

A primeira etapa foi fazer 28 sessões de quimioterapia. Eu passei muito mal, vomitava, tinha dor de estômago, emagreci. Depois da cirurgia, fiz 30 sessões de radioterapia. Eu pedia a Deus para me deixar viver e criar meus filhos. Eu estava sempre alegre na frente deles, não deixava transparecer meu sofrimento. Com a amputação, passei a conviver com o preconceito.

As pessoas olhavam feio, comentavam, evitavam se aproximar, alguns amigos se afastaram e duvidaram da minha capacidade.

Na escola, meus filhos sofriam bullying. Para ofendê-los, os colegas diziam: 'sua mãe é sem braço, é feia'. Eles ficavam tristes e isso me deixava arrasada.

Aprendi a nadar, andar de bicicleta e lutar com um braço só

Um dia eu fui levá-los na natação e a professora me convidou para fazer uma aula. Eu aceitei e ela me ensinou a nadar com um braço só. Inicialmente eu nadava com o macarrão e depois sem nada. Foi uma grande conquista. Passei a praticar a modalidade três vezes por semana.

O esporte foi uma forma de defesa contra o preconceito. Queria provar para mim e para os outros que eu era capaz de fazer as coisas mesmo sem um braço.

Depois disso, criei coragem para explorar novas habilidades. Eu era apaixonada por moto, mas como não podia mais pilotar, fui aprender a andar de bicicleta, com uma mão só, aos 39 anos de idade. Eu apoiava o pé no chão até conseguir o equilíbrio. Peguei o jeito e passei a pedalar para todos os lugares: para o parque, supermercado, orla.

Em 2016, recebi um outro convite, dessa vez da professora de muay thai dos meninos para fazer uma aula experimental. Ao chegar lá, percebi os olhares desconfiados e pensei: 'Vou praticar mais um esporte para ver se me aceitam'.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Comecei a fazer muay thai para conseguir o respeito das pessoas. Passei a treinar 1h30, duas vezes por semana. No início, minha maior dificuldade era usar as outras partes do corpo, perna, pé, cotovelo, joelho, para compensar a falta de um braço nos comandos de ataque e defesa. Hoje em dia, quando os colegas dos meus filhos dizem que eu não tenho braço, eles respondem: 'Minha mãe é atleta, ela nada, luta e anda de bicicleta'. Eles me veem como um exemplo de força.

Ao descobrir 11 nódulos nos pulmões, tive mais fé do que medo

Ao fazer exames de rotina em 2017, fui diagnosticada pela terceira vez com câncer, dessa vez no pulmão: cinco nódulos no esquerdo e seis no direito.

Depois de tanta pancada ao longo desses anos, eu tive mais fé do que medo.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Eu fiz a primeira cirurgia em fevereiro de 2018 e a segunda em abril. Não precisei fazer químio nem rádio. Foi um alívio. O pós-operatório foi terrível. Nos primeiros 15 dias em casa, eu dormi sentada no sofá de tanta dor que eu sentia, não conseguia deitar. Quatro meses depois, fiquei bem e fui liberada pela médica para voltar à piscina e ao tatame.

Ao repetir os exames no final de 2018, recebi o quarto diagnóstico de câncer. Estou com um nódulo no pulmão esquerdo e dois no direito.

Em breve, farei mais duas cirurgias. O grande segredo para enfrentar as adversidades com otimismo é confiar em Deus. Minha vontade de dar a volta por cima e de ver meus filhos crescerem é tão grande, que repito todos os dias: eu vou lutar, eu vou superar, eu vou viver".

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