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Diabetes, anemia, lúpus, aids e outras 10 doenças que se manifestam na boca

O dentista pode ser o primeiro profissional de saúde a saber que você tem algumas doenças  - iStock
O dentista pode ser o primeiro profissional de saúde a saber que você tem algumas doenças Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

12/09/2019 04h00

A boca, mais precisamente o sorriso, muitas vezes é o primeiro "cartão de visita" de uma pessoa. Contudo, como você sabe, a região oral não é importante só para sustentar dentes brancos: ela compreende "a capacidade de falar, sorrir, cheirar, saborear, tocar, mastigar, engolir e transmitir uma variedade de emoções, por meio de expressões faciais, com confiança e sem odor ou desconforto, e sem doença do complexo craniofacial", segundo o FDI (Federação Dentária Mundial).

Além disso, a cavidade bucal também pode ser um grande indicador de como vai sua saúde, pois doenças dos mais diversos tipos manifestam sinais na boca. A seguir, mostramos algumas das condições que é possível identificar em uma análise odontológica —e que, obviamente, depois vai exigir outros exames ou avaliação de um médico especialista para confirmar o diagnóstico, conforme destaca Soraya de Azambuja Berti Couto, estomatologista da área de Odontologia Hospitalar e professora da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

Diabetes

Uma em cada 10 pessoas tem diabetes. Os dados são da OMS (Organização Mundial da Saúde). Independentemente de ser do tipo 1 ou do tipo 2, se o nível de insulina e a glicemia (açúcar no sangue) estiverem descompensados a pessoa pode apresentar hálito cetônico (mais forte), boca seca (xerostomia), aumento de cárie, doença periodental agressiva. Tais condições de saúde bucal são a porta de entrada para infecções, que também se relacionam à falta de controle glicêmico e vice-versa.

O que o dentista pode fazer Esses pacientes necessitam de monitoramento constante do profissional, que pode ajudar no controle da doença incrementando a higiene bucal para prevenção de cáries e doença periodontal, e também eliminando, caso já existam, focos infecciosos de origem dentária que contribuem para o aumento da glicemia.

Refluxo Gastroesofágico

Caracterizado pelo retorno do conteúdo gástrico para a boca que altera o pH da cavidade oral. Isso aumenta a ocorrência aftas e cáries, erosões químicas nos dentes - o esmalte deles fica mais poroso, boca seca, mau hálito, entre outros.

O que o dentista pode fazer Executar o tratamento odontológico de rotina, orientar a higiene bucal incluindo a escovação da língua, indicar o uso de medicamentos tópicos e aconselhar o paciente a procurar um especialista para que ele adote medidas de controle do refluxo.

Anemia

Trata-se de uma enfermidade onde há redução do número de glóbulos vermelhos ou de hemoglobina, a proteína dos glóbulos vermelhos que transposta o oxigênio. A anemia mais comum é a decorrente da falta de ferro, especialmente entre crianças. Mas existem outros tipos, relacionados à carência de vitamina de B12, ácido fólico, entre outras. Os sintomas mais conhecidos são cansaço ao mínimo esforço, falta de ar, taquicardia, palidez de pele e pálpebras.

"Independentemente da sua forma, os sinais que o dentista observa são a palidez da mucosa, redução do tamanho ou desaparecimento completo das papilas da língua, que deixam a superfície lisa". Além disso, "o epitélio [tecido] que reveste a mucosa fica muito fino, o que pode aumentar a sensibilidade. Por vezes, o canto da boca apresenta rachaduras", relata Paulo José Bordini, professor dos cursos de odontologia das Universidades Cruzeiro do Sul e de Mogi das Cruzes.

O que o dentista pode fazer Todos esses indícios apontam para a necessidade de solicitar hemograma para confirmar o diagnóstico e encaminhar o paciente ao médico.

Leucemias

São cânceres dos glóbulos brancos ou das células que lhes dão origem. Os principais sinais bucais de leucemia são inchaço e sangramento gengival sem causa aparente, o que a diferencia da doença periodontal --que sempre está relacionada à presença de biofilme ou tártaro, além de regredir após a remoção desses fatores, o que não ocorre na leucemia.

O que o dentista pode fazer Ao suspeitar da doença, o profissional deve solicitar um hemograma, realizar uma biópsia na região e encaminhar o paciente para o oncologista.

Mau hálito pode ser sinal de transtorno alimentar, diabetes e refluxo - iStock
Mau hálito pode ser sinal de transtorno alimentar, diabetes e refluxo
Imagem: iStock

Transtornos alimentares

Quadros marcados pela compulsão de comer, uso abusivo de laxantes e pela indução de vômitos levam a problemas bucais como erosão dentária, lábios ressecados, hipersensibilidade, fluxo salivar ou boca seca (decorrente do uso de medicamentos para controle do peso ou dieta inadequada), aumento de cáries e mau hálito.

O que o dentista pode fazer Tratamento odontológico de rotina, orientações de higiene e melhora dos hábitos alimentares, além da necessária abordagem do problema e o devido encaminhando do paciente para uma terapia que lhe garanta o bem-estar físico e mental.

HIV/ Aids

Uma das primeiras manifestações do paciente infectado por HIV pode acontecer na cavidade oral. Trata-se da candidíase pseudomembranosa aguda, caracterizada por placas esbranquiçadas no interior da boca, parecidas com leite coalhado. Essas placas se destacam com facilidade, permanecendo um fundo avermelhado e sanguinolento (o quadro ocorre em todos os casos de imunossupressão).

"As manifestações orais ocorrem em cerca de 80% dos pacientes afetados e ajudam a definir o estágio da doença", explica o presidente da Câmara Técnica de Patologia Oral e Maxilofacial do CROSP, Fábio Coracin.

O que o dentista pode fazer Após ouvir o histórico do paciente, ele deve pedir exame laboratorial para detecção do vírus e encaminhar o paciente para o médico competente.

Sífilis

Essa IST (infecção sexualmente transmissível) tem como causa uma bactéria, a Treponema pallidum. A manifestação se dá em três estágios: sífilis primária, secundária e terciária. O sintoma bucal mais comum no primeiro estágio é o aparecimento de uma ferida (cancro duro) indolor, que desaparece espontaneamente em três ou quatro semanas. Já no segundo estágio, podem ser identificadas várias lesões chamadas de placas mucosas; no último, é observada a goma sifilítica, ou seja, perfurações e destruição do tecido bucal.

O que o dentista pode fazer O tratamento da sífilis é feito por meio de antibiótico e, ao ser detectada precocemente, a doença tem mais chance de sucesso. O dentista poderá solicitar exames para confirmar o diagnóstico e encaminhar o paciente para o médico infectologista para tratamento.

Sarampo

A doença é do tipo viral e pode ser prevenida por meio de vacina. De fácil transmissão, o sarampo tem como sintomas a tosse, coriza, olhos inflamados, febre, manchas vermelhas na pele, dor de garganta e pequenos pontos no interior na boca, principalmente na região do palato.

O que o dentista pode fazer Como a doença se resolve sozinha (é autolimitada), não existe um tratamento específico. A recomendação é usar antitérmicos e analgésicos, se necessário, além de manter o paciente hidratado e bem alimentado.

Líquen plano

O problema acomete a pele e também as mucosas, e pode estar relacionado a fatores emocionais. Na boca, ela se manifesta por meio de estrias brancas com aspecto de renda, ou por placas brancas e úlceras (feridas) nas mucosas da bochecha, nos lábios, na língua e no palato.

O que o dentista pode fazer O tratamento visa eliminar traumas locais. Podem ser usados medicamentos corticosteroides tópicos e/ou sistêmicos. Na presença de lesões de pele, o paciente deve ser encaminhado ao dermatologista.

Lúpus

A enfermidade é caracterizada por uma inflamação que afeta as articulações, rins, membranas e mucosas, além das paredes dos vasos sanguíneos. É comum o aparecimento de manchas vermelhas na região da bochecha que lembram uma asa de borboleta, além de máculas avermelhadas ladeadas por áreas esbranquiçadas e ulceradas (com feridas).

O que o dentista pode fazer Caso o dentista suspeite da doença, o paciente deve ser encaminhado ao reumatologista. Ele também poderá realizar uma biópsia para ajudar no processo de diagnóstico. Quando as manchas evoluem para feridas, o uso de corticoides tópicos é indicado.

Pênfigo vulgar e penfigoides

Essas doenças têm como característica a manifestação de bolhas de diversos tamanhos na pele e nas mucosas de revestimento, incluída a boca. "O pênfigo se inicia na cavidade bucal, onde aparece antes da epiderme. Feridas doloridas acometerão bochechas, gengiva e palato. As lesões são descamativas, ou seja, a pele se desprende. Isso causa grande desconforto", descreve Fábio de Abreu Alves, presidente da Câmara Técnica de estomatologia do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo). Já nos penfigoides, os sinais e sintomas são parecidos, mas menos graves.

O que o dentista pode fazer Quando há apenas manifestação bucal, o tratamento deve ser feito por um estomatologista que usará corticosteroides tópicos. O encaminhamento ao dermatologista ou oftalmologista é medida de rigor, já que as bolhas podem propagar-se, levando a quadros mais severos.

Síndrome de Jögren

A doença afeta as glândulas salivares, lacrimais e as de Bartholin, responsáveis pela lubrificação genital na mulher, e tem como sintoma a secura excessiva na boca (xerostomia), olhos e mucosa genital.

O que o dentista pode fazer Como a manifestação bucal pode estar relacionada ao uso de medicamentos ou o diabetes, o especialista poderá valer-se de uma biópsia local para fechar o diagnóstico. Caso a síndrome se confirme, a paciente deverá ser encaminhada a um reumatologista. A secura da boca pode ser minimizada com hidratação intensa e uso de saliva artificial.

Trombocitopenia

A enfermidade consiste na redução do número de plaquetas. Quando ela é significativa, são identificadas hemorragias espontâneas na pele e nas mucosas, representadas por manchas arroxeadas sem causa aparente (equimoses) ou inúmeros pontos vermelhos (petéquias) A doença pode ter como causa o uso de medicamentos e alguns processos infecciosos, por exemplo, a dengue hemorrágica.

O que o dentista pode fazer Poderá solicitar exames de sangue (hemograma e coagulograma) para confirmar o diagnóstico e encaminhar o paciente a um hematologista. Procedimentos odontológicos que envolvam sangramento devem ser postergados até que as plaquetas voltem a ter níveis normais.

Doença de mão, pé e boca

A enfermidade tem como causa o enterovírus Coxsackie, que normalmente habita o sistema digestivo. Comum na infância (antes dos cinco anos de idade), é de fácil contágio porque é transmitida por meio da saliva, gotículas respiratórias, pele e nas fezes. "Nesse caso, a transmissão do vírus se dá por até quatro semanas depois de curada", diz a docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Odontologia da Universidade Cruzeiro do Sul (SP), Eliete Rodrigues de Almeida. Os sintomas podem acometer todo o corpo, mas na região bucal se caracteriza por lesões na boca e ao redor dela, dificultando a alimentação e o deglutir da própria saliva.

O que o dentista pode fazer Solicitar exames de fezes e sangue para identificação do vírus. O tratamento prevê o uso de antitérmicos e anti-inflamatórios para reduzir o incômodo local. Repouso, boa hidratação e alimentação pastosa são indicados. Itens ácidos ou muito quentes devem ser evitados. Caso a criança frequente ambientes coletivos como escolas, deve-se observar as condições do local, que precisa ser arejado e limpo, com higienização frequente de utensílios e brinquedos. Lembre-se de lavar as mãos antes e depois de cuidar de uma criança doente, evitando acompanhá-la ao banheiro. Peça que ela realize a prática sozinha.

Fontes: Fábio de Abreu Alves, presidente da Câmara Técnica de estomatologia do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo); Fábio Coracin, presidente da Câmara Técnica de Patologia Oral e Maxilofacial do CROSP; Eliete Rodrigues de Almeida, mestre e doutora em saúde pública, docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Odontologia da Universidade Cruzeiro do Sul (SP); Paulo José Bordini, professor dos cursos de Odontologia da Universidade Cruzeiro do Sul e de Mogi das Cruzes, mestre e doutor em Ondontologia pela USP (Universidade de São Paulo); Soraya de Azambuja Berti Couto, mestre e doutora em estomatologia, especialista em Odontopediatria, atuando na área de Odontologia hospitalar e professora da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Rodolfo Segawa, cirurgião dentista especialista em prótese e sócio-proprietário da Allegra Odontologia (SP). Revisão técnica: Paulo José Bordini.
Referências: CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo); Heiddi L. Gaddei. Oral Manifestations of Systemic Disease. Academy of General Dentistry. 2017; Angela C. Chi et alli. Oral Manifestations of Systemic Disease. Am Fam Physician. 2010.

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