PUBLICIDADE

Topo

Saúde

Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Saúde

Médicos são mais propensos a ignorar dor das mulheres; por quê?

 Eugenia Mello/The New York Times
Imagem: Eugenia Mello/The New York Times

Laurie Edwards*

The New York Time

22/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Estudo comprava que médicos tendem a atribuir mais dor a indivíduos do sexo masculino e minimizar o sofrimento de mulheres
  • A dor ignorada das mulheres não para aí: nos EUA, uma em cada 5 jovens é agredida sexualmente na faculdade
  • Apenas 20% dessas agressões são relatadas, pois as mulheres temem que não acreditem nelas

Eu tenho uma doença respiratória genética rara e dolorosa chamada discinesia ciliar primária. Eu tinha 23 anos quando os médicos diagnosticaram minha condição, mas eu estive doente minha vida toda. Por várias vezes, me disseram que eu sofria apenas de estresse --que tudo estava na minha cabeça.

Esta é uma experiência comum para mulheres jovens. Há muito tempo sabemos que as mulheres com algumas condições são mais propensas do que os homens a serem subtratadas para a dor, e que os médicos são mais propensos a julgar os relatos de doenças como psicossomáticas quando vêm de mulheres. Agora, um estudo recente feito por pesquisadores de Yale mostra quão cedo esse viés de gênero começa. O estudo constatou que quando os participantes adultos foram solicitados a avaliar a dor percebida de uma criança recebendo uma picada no dedo para tirar sangue, eles atribuíram mais dor à criança que pensavam ser um menino do que à que imaginavam ser uma menina.

Os autores do estudo associam essas descobertas a "estereótipos de gênero explícitos" que caracterizam os homens como mais estoicos com sua dor e as mulheres como mais emocionais --e, portanto, menos convincentes.

Estima-se que de 20% a 35% dos adolescentes experimentam dor crônica. De acordo com um estudo de 2017 os médicos são significativamente mais propensos a ignorar os sintomas de dor de pacientes jovens do sexo feminino do que os dos pacientes do sexo masculino. Isso pode causar danos permanentes nas relações entre os médicos e os pais.

A endometriose é um quadro útil e sóbrio para visualizar as consequências. Até uma em cada 10 mulheres têm endometriose, uma condição dolorosa e debilitante na qual o tecido que normalmente reveste o útero cresce fora dele. Os sintomas podem começar na adolescência, mas muitas vezes as mulheres jovens são informadas de que apenas sofrem de menstruações dolorosas. Elas podem levar anos para obter um diagnóstico. Quanto mais tempo se passa, mais as mulheres sofrem, e mais difícil se torna tratar a condição.

Muitas das jovens com dor crônica que entrevistei têm histórias sobre essa cultura da descrença. Elas são frequentemente informadas de que a dor que sentem é causada pelo estresse. Serem repetidamente ignoradas pode acabar com a autoconfiança delas. Com o tempo, o medo de ser vista como fraca ou chorosa levou algumas mulheres jovens a subnotificar a dor que sentem, tornando ainda mais difícil o tratamento.

Uma paciente descreveu ser "tímida, sem vontade e insegura de como se defender". Durante anos, ela disse, "não me ocorreu que eu pudesse argumentar com os resultados do médico, mesmo se eles fossem contrários ao que meu corpo estava me dizendo."

Mas isso não é apenas sobre uma jovem paciente com dor e como os médicos respondem a ela. É sobre uma jovem narrando seu sofrimento e como todos nós respondemos a ela.

Leve em conta o assédio sexual. A Associação Americana de Mulheres Universitárias entrevistou cerca de 2,000 estudantes da 7ª a 12ª série e descobriu que quase metade relatou ter sofrido alguma forma de assédio sexual. As meninas eram significativamente mais propensas a serem assediadas do que os meninos, o assédio das garotas tendia a ser mais físico e intrusivo, e elas relataram sofrer mais consequências a longo prazo, como problemas para dormir e faltarem mais à escola.

Apenas 12% das meninas que sofreram assédio relataram isso a um adulto na escola, provavelmente por motivos que incluem medo de não acreditarem nelas, medo de retaliação e isolamento social, falha das escolas em responder ao problema e confusão sobre o que realmente constitui assédio.

Na faculdade, estima-se que 1 em cada 5 mulheres são agredidas sexualmente, e apenas 20% das agressões são relatadas, novamente por medo de não acreditarem no relato com uma das maiores barreiras.

As meninas têm boas razões para se sentirem assim. Tomemos o caso de Larry Nassar, o notório médico da Michigan State University e da seleção americana de ginástica artística que foi sentenciado no ano passado de 40 a 175 anos de prisão por crimes sexuais. A Michigan State foi alertada pela primeira vez para preocupações sobre Nassar em 1997, mas as queixas foram ignoradas. Quando ele finalmente enfrentou um julgamento, muitas de suas mais de 160 vítimas descreveram o efeito negativo duradouro de ter suas experiências invalidadas pelos adultos em suas vidas.

O movimento #MeToo fez muito para incentivar as mulheres a compartilhar suas experiências, e agora precisamos dessas conversas para traduzir em mudanças institucionais e culturais significativas. A pesquisa sobre o quão pouco nós reconhecemos a dor das meninas sugere que precisamos começar com algo básico: quando as meninas nos falam sobre suas experiências com seus corpos, precisamos ouvir.

*Laurie Edwards é autora de In the Kingdom of the Sick: A Social History of Chronic Illness in America ("No Reino dos Doentes: Uma História Social da Doença Crônica na América" em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.)

SIGA O UOL VIVABEM NAS REDES SOCIAIS
Facebook - Instagram - YouTube

Saúde