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Mesmo com leucemia, ele decidiu deixar o hospital para dançar com sua filha

Um médico vê o potencial curativo em deixar um paciente com leucemia persistente deixar o hospital para manter uma promessa feita a sua filha - Vivienne Mildenberger/The New York Times
Um médico vê o potencial curativo em deixar um paciente com leucemia persistente deixar o hospital para manter uma promessa feita a sua filha Imagem: Vivienne Mildenberger/The New York Times

Dr. Mikkael Sekeres

Do New York Times

10/05/2018 09h44

Aos 28 anos de idade, meu paciente já era um veterano cansado da guerra e da leucemia.

Quando o câncer foi diagnosticado, nós o tratamos com um coquetel de drogas de quimioterapia por meses, primeiro com programas mais intensivos que o impediram de trabalhar e, depois, com remédios mais brandos.

Contudo, a leucemia voltou com tudo, então o tratamos novamente, desta vez com uma das novas e caras imunoterapias recentemente aprovadas pela FDA, agência americana reguladora de alimentos e medicamentos. Elas não levam à cura, mas, em seu caso, lhe deram condições de receber um transplante de medula, que tinha o potencial de curá-lo.

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Entretanto, quando ligou no meu consultório seis meses depois do transplante reclamando de dor excruciante nas costas, temíamos o pior. As vértebras são o maior ponto de produção de medula óssea no organismo. As células que crescem rápido demais dentro do espaço rígido dos ossos podem machucar, e aquele era o mesmo sintoma que ele apresentava quando nos conhecemos.

A biópsia da medula óssea confirmou a volta da leucemia e ele foi rapidamente internado para administrar a dor e tratar o câncer.

Quando entrei em seu quarto no hospital no começo da manhã seguinte, ele estava confortavelmente deitado na cama. Passara-se tempo suficiente desde o transplante e agora ele tinha barba e a cabeça recoberta de cabelo. Começara a tomar esteroides no dia anterior, os quais, em doses elevadas, podem tratar esse tipo de leucemia e a dor resultante temporariamente.

Nós sorrimos e nos cumprimentamos com a cabeça, como fazem as pessoas que se conhecem bem e admitem a dificuldade da tarefa que estão prestes a assumir.

Sentei na beirada da cama e descrevi a quimioterapia que iríamos começar, um programa de remédios que minimizaria os principais efeitos colaterais que podem afetar a eficácia de outro transplante, sua única chance de cura.

"Acho melhor começarmos", disse ele, hesitante, enquanto olhava rapidamente para a esposa, que vestia um moletom com os dizeres "é isto que visto quando não quero ser muito elegante". Ela era pragmática assim. E também adivinhou o que o incomodava.

"Ele pode ser tratado como paciente ambulatorial?", indagou ela.

Foi a minha vez de hesitar, enquanto avaliava a toxicidade dos remédios que usaríamos e a frequência com que teríamos de monitorar seu sangue.

"Poderia", eu disse, com cuidado. "Teríamos riscos, principalmente de febre e hemorragia quando os glóbulos brancos e as plaquetas do sangue baixarem. Porém, não será sua primeira experiência com isso." Os dois fizeram uma careta ao reconhecer essa verdade.

"Sei que vão me procurar se ele se sentir mal", continuei. "Algum motivo em particular para ter alta?" A esposa respondeu por ele: "Ele vai dançar com nossa filha de quatro anos hoje à noite. Ela só fala nisso há semanas."

E fez uma pausa. "Se ele não puder sair do hospital, nós compreendemos. Temos um plano B. Um amigo dele pode levá-la ao baile. Mas seria muito importante para nós."

Meu paciente abriu um sorriso largo para ela, como se agradecesse por falar o que ele não conseguia. Seus olhos estavam marejados.

Meu próprio fôlego captou a tristeza do pedido. Eu me lembrei da primeira vez em que dancei com minha filha, quando ela era recém-nascida e a abracei forte contra meu corpo, e dos casamentos a que fomos quando ela tinha a mesma idade da filha do meu paciente. Eu a levava à pista de dança enquanto ela cuidadosamente colocava os sapatinhos de laços cor-de-rosa sobre meus formais sapatos pretos de couro, enquanto eu a levantava e baixava ao ritmo da música. Com a lembrança, senti a pressão gentil de seu peso em minhas mãos.

A chance de a quimioterapia e o transplante funcionarem, com uma leucemia que se recusava a ser extinta, era frágil. As chances de que ele teria outra oportunidade para dançar com a filha eram menores ainda.

"Não consigo imaginar motivo melhor para ser tratado ambulatorialmente do que dançar com a filha. Faremos o que for possível para que isso aconteça", afirmei.

Conforme envelhecemos e passamos mais anos praticando a medicina, médicos e enfermeiros costumam identificar melhor as sutilezas da enfermidade e nossas decisões e recomendações se tornam mais exatas. Mais importante que isso, no entanto, porque já vivemos bastante, eu espero que também consigamos reconhecer que o que é importante para os pacientes supera qualquer medicamento que possamos oferecer.

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