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'Fadiga por compaixão': quando cuidar de animais pode levar à depressão

Psicólogos e veterinários têm se voltado para a saúde mental daqueles que cuidam de animais, seja como ativismo ou trabalho - Getty Images
Psicólogos e veterinários têm se voltado para a saúde mental daqueles que cuidam de animais, seja como ativismo ou trabalho Imagem: Getty Images

Mariana Alvim

Da BBC News Brasil em São Paulo

12/08/2019 07h56

A mesma sensibilidade que motiva a empresária Andressa Ciccone, 29 anos, a passar horas a fio fazendo protestos ou resgatando animais em situações de maus tratos faz com que, em alguns momentos, estas experiências despertem também a sensação de impotência, angústia e estresse.

"Muitas vezes, você está de frente a animais que sabe que não tem como salvar e que vão morrer. Você fica de olhos com olhos com aqueles animais. Nossa, isso é muito triste e frustrante. Machuca", desabafa Andressa, que é vegana, se considera uma ativista "independente" e participa há mais de dez anos de ações como invasões a abatedouros de porcos, manifestações contra a exportação de bois vivos e resgate de cães e gatos abandonados ou maltratados.

"Pessoas veganas e que lutam pelos animais costumam ser mais sensíveis, empáticas. Como tem muita maldade no mundo, essas coisas afetam muito a gente. Nas transmissões ao vivo que faço, às vezes não consigo falar, de tanto chorar".

"Sabemos que isso afeta, mas o amor fala mais alto. Eles [os animais] precisam da nossa ajuda, não podemos simplesmente cruzar os braços. A força também vem da empatia: não tem nada no mundo que pague salvar vidas", completa.

O relato de Andressa, que conta à reportagem ter tomado algumas ações para suavizar estas emoções difíceis e estar em tratamento para depressão --causada em parte por estas experiências--, vai ao encontro de um alerta que vem da convenção anual da Associação Americana de Psicologia, realizada no fim de semana em Chicago.

Os efeitos para a saúde mental de pessoas que cuidam de animais, como voluntários em abrigos e veterinários, são o foco de algumas pesquisas apresentadas no evento, como uma revisão de vários estudos já feitos sobre o assunto e reunidos por Angela Fournier, pesquisadora da Universidade de Bemidji, em Minnesota.

"Pessoas que trabalham com animais ou se voluntariam para isso são muitas vezes motivadas por que veem [isso] como uma missão de vida", explica Fournier em um comunicado à imprensa, destacando riscos para a saúde mental como ansiedade e depressão.

"No entanto, elas encaram rotineiramente o sofrimento e a morte de animais, o que pode levar ao 'burnout' (síndrome despertada por um esgotamento físico e mental), à dita fadiga por compaixão e a outras questões de saúde mental".

"Estudos sugerem que pessoas dedicadas ao bem-estar animal carregam um peso ainda maior do que outras pessoas que trabalham com algum tipo de assistência por conta de particularidades do trabalho com animais, como a possibilidade de eutanásia e o contato com seres que viveram dor e sofrimento, mas não podem comunicar suas necessidades e experiências".

A psicóloga sugere que, nestes casos, pacientes e terapeutas busquem estratégias para reenquadrar experiências negativas e para estabelecer uma fronteira saudável entre vida pessoal e trabalho ou ativismo.

"Pode ser importante fazer com que o paciente se concentre no quadro geral do quanto estão fazendo a diferença e nos animais que foram salvos, em vez de focar em histórias individuais de crises e perdas", explica Fournier.

Para Andressa, algumas das estratégias de autocuidado que têm se mostrado promissoras são exercícios físicos; pausas no uso das redes sociais, que no seu caso são repletas de pedidos de ajuda e fotos de animais em mau estado; e grupos de conversa e apoio com outros ativistas e veganos.

Luisa Mell: 'Via que não conseguia ajudar todos, e isso me causava desespero'

À frente de um instituto dedicado, entre outras pautas, ao cuidado de cães e gatos vulneráveis e que leva seu nome, Luisa Mell, 40, diz já ter "sofrido muito" em sua trajetória de mais de uma década como ativista --o que ainda acontece, ela conta, mas de uma forma mais controlada, inclusive depois de ter passado por uma depressão.

"Quando eu comecei [o ativismo], esta agenda ainda era nova, então quando chorava pelos animais na TV as pessoas riam de mim", lembra Luisa, cuja visibilidade, expressa hoje, por exemplo, nos milhões de seguidores nas redes sociais, começou em seu trabalho como atriz e apresentadora de TV.

"Eu via que não conseguia ajudar todo mundo, e isso me causava desespero. Hoje, aceitei que não posso salvar todos animais do mundo, então vou fazer o melhor que consigo. Cada animal já vale tudo. Eu também tenho a oportunidade de ver muitas pessoas se transformando, se tornando veganas".

Ainda assim, Luisa diz que continua sendo necessário "muita terapia" e "muita conversa" com familiares e amigos para lidar com situações como resgates arriscados de animais e noites não dormidas.

Outro exemplo aconteceu no início do ano, quando ela e sua equipe participaram de uma ação conjunta com a prefeitura de Piedade (SP) e com a Polícia Militar Ambiental, que resgataram mais de 1.500 cachorros em um canil que havia sido interditado por suspeita de maus tratos.

A proprietária do canil chegou a entrar com um mandado de segurança contra o instituto e a Polícia Ambiental, mas o pedido foi negado na Justiça.

Depois do resgate, alguns animais morreram e outros receberam cuidados, posteriormente sendo colocados para adoção em feiras organizadas pelo instituto.

"Depois da ação, eu estava enlouquecendo. Resolvi sumir", lembra, contando que deixou de usar redes sociais naquele momento e foi viajar com a família.

Outra mudança que ajudou foi, segundo ela, ter dado um perfil empresarial para seu instituto, fundado em 2015. Ter uma diretoria, por exemplo, faz com que uma pessoa ajude a outra. Ela também delegou a um assistente a tarefa de ver e dar conta de suas redes sociais --onde também chegam inúmeros pedidos de ajuda e imagens de animais precisando de cuidado.

"Já visitei muitas ONGs e abrigos pelo Brasil, e muitas vezes saí deprimida dessas visitas por suas condições, pela superlotação. Muitas iniciativas dessas precisam se profissionalizar, não dá para ultrapassar os limites do bem-estar dos animais".

"Existe também a discussão dos acumuladores, pessoas que resgatam mas não doam todos os animais e acabam ficando com dezenas deles, sem ter as condições para isso. Já inclusive resgatei uma idosa acumuladora. Essas pessoas não percebem isso, mas para ajudar o outro, você precisa estar bem".

Depressão, 'burnout', fadiga por compaixão... O que significam?

Algumas condições de saúde mental citadas na reportagem são distúrbios classificados e consolidados em listas internacionais, mas há também aqueles mais incipientes e em debate, como "fadiga por compaixão". Muitas vezes, essas condições se combinam ou têm fronteira pouco evidente entre elas --afinal, nem sempre é eficaz definir o que se passa na nossa cabeça. Mas todos têm tratamento. Entenda:

Ansiedade: Sentir-se apreensivo ou nervoso ocasionalmente faz parte da vida, mas uma maior frequência e impacto destas situações pode se transformar em um distúrbio. Nestes casos, a rotina, situações determinadas (ex: estar em uma multidão ou se deparar com algum animal) ou com alguma imprevisibilidade (mas muitas vezes relacionadas a temores já existentes) podem ser fonte de cansaço, mente agitada, palpitações, dificuldade de respirar, suor, rubor e sensação de descontrole.

Em classificações internacionais, a ansiedade se divide em vários tipos de distúrbios, como ansiedade generalizada, fobias e transtorno de pânico.

Burnout: Esta síndrome é ligada ao mundo do trabalho, que pode ser fonte para um estresse crônico tamanho que leva à exaustão; distanciamento e sentimentos negativos em relação à função exercida; e queda na eficiência.

Depressão: Denominação para diversos tipos de distúrbios e com vários níveis de gravidade, ela abrange em comum um estado contínuo de incômodo e perda de interesse por coisas da vida. Isso afeta funções básicas, como dormir, comer e se relacionar.

A depressão é considerada uma condição comum: estima-se que, hoje, mais de 300 milhões de pessoas no mundo estejam vivendo com ela --um aumento de 18% entre 2005 e 2015. Uma pesquisa em 17 países, a World Mental Health Survey, publicada em 2012, revelou que, em média, uma a cada 20 pessoas relatou ter tido depressão em algum momento do ano anterior.

Alguns tipos de depressão são a distimia, pós-parto e depressão psicótica. O transtorno bipolar também inclui episódios e sintomas depressivos. Ansiedade e depressão também têm uma associação importante.

Fadiga por compaixão: Esta denominação é defendida por alguns pesquisadores americanos, como Charles Figley, especialista em trauma --mas, hoje, ainda não está consolidada na literatura científica ou em classificações internacionais.

Acredita-se que a fadiga por compaixão combine características do "burnout" com o chamado trauma vicário ou secundário --quando uma pessoa se sensibiliza com o testemunho ou narrativa da dor do outro, como profissionais da saúde ou agentes da Justiça.

Fontes: Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA; Organização Mundial da Saúde

Incidência de suicídio entre veterinários preocupa

Outra demonstração da importância do cuidado da saúde mental de quem cuida é uma propensão maior ao suicídio entre veterinários, como já foi demonstrado em vários países.

Nos Estados Unidos, um estudo publicado no periódico "Journal of the American Veterinary Medical Association" já revelou que, de 1979 a 2015, a incidência de suicídio entre veterinários foi de 2 a 3,5 vezes maior do que na população americana em geral.

Em relação ao Brasil, a reportagem pediu dados ao Ministério da Saúde, mas não recebeu retorno até a publicação. No entanto, uma monografia apresentada em 2012 por Tatiana Guimarães, então graduanda orientada pelo sociólogo Ignacio Cano, estudou dados sobre suicídio em ocupações profissionais que, na literatura científica mundial, tendem a apresentar maior incidência, como veterinários, policiais, farmacêuticos e trabalhadores agrícolas.

A incidência de suicídios entre veterinários foi mais de duas vezes maior na comparação com a população brasileira em geral.

"Mais pesquisas estão sendo feitas para compreender melhor por que os veterinários podem ter este risco aumentado, mas uma combinação de traços de personalidade, demandas profissionais e o ambiente de aprendizado da veterinária podem contribuir", explicou a veterinária Katherine Goldberg durante a convenção da Associação Americana de Psicologia.

Outras hipóteses levantadas para explicar essa propensão são ainda o contato frequente com o sacrifício de animais; o acesso a fármacos; e uma rotina intensa de trabalho, muitas vezes não acompanhada por remuneração e benefícios à altura das expectativas.

No Brasil, o médico veterinário intensivista (especializado no suporte a animais em estado crítico) Rodrigo Cardoso Rabelo vem estudando e escrevendo sobre a saúde mental da categoria - além de implementado algumas ações na clínica onde atende, a Intensivet, em Brasília.

Uma delas é a aplicação periódica de um formulário que pode detectar o "burnout" nesta e em outras profissões e que, segundo explica Rabelo, tem três indicadores principais: realização profissional; despersonalização (distanciamento que o profissional mantém do paciente); e esgotamento emocional.

Dos formulários aplicados, Rabelo diz acreditar que, entre os veterinários brasileiros, o esgotamento tende a pesar mais.

"O veterinário lida não só com os animais, mas com seu tutor [humano]. Diferente dos europeus e americanos, nós brasileiros, latinos, temos uma relação muito mais próxima da família e dos animais. Às vezes deixamos a parte profissional e financeira de lado, de tanto que nos envolvemos emocionalmente. Isso fica difícil em uma rotina diária, considerando o volume de pacientes que a gente recebe".

"Eu mesmo cheguei a um nível de estresse muito alto. O luto que via no consultório acabava se refletindo em um medo de perder pessoas queridas em casa. Somente neste ano, perdi amigos [veterinários] neste tipo de situação [suicídio]".

"Hoje, reduzi o número de pacientes, inclusive para prestar um atendimento de melhor qualidade a eles e também para estar bem comigo mesmo".

Somando a outras recomendações compartilhadas por entrevistados na reportagem, o veterinário indica alguns cuidados com a saúde mental daqueles que cuidam de animais:

  • Evitar jornadas longas de trabalho e prezar por intervalos
  • Rotatividade de funções no trabalho
  • Prática de exercícios físicos
  • Alimentação equilibrada e hidratação
  • Ter um hobby e apoio emocional, como em terapias e práticas espirituais
  • Conversar com pessoas próximas e colegas
  • Reduzir uso de celular e redes sociais

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