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Roberto Trindade

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Luto traumático por causa da covid-19: como ajudar quem está nesse processo

Michel Dantas - 25.fev.21/AFP)
Imagem: Michel Dantas - 25.fev.21/AFP)
Roberto Trindade

Professor universitário e médico da família e comunidade na Zona Leste de São Paulo, Roberto Trindade é formado pela Escuela Latinoamericana de Medicina, em Cuba. Possui especialização em pediatria clínica pelo CAEPP (Centro de Apoio Ensino e Pesquisa em Pediatria‎) e em medicina da família e comunidade pela SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade)

Colunista do VivaBem

18/03/2021 04h00

"Doutor, meu filho era a coisa mais importante para mim —tenho outro, mas ele era o caçula, meu xodó— e não pude estar com ele quando mais precisou de mim! Nem sequer pude enterrá-lo, pois eu também estava lutando pela minha vida, internada em outro hospital. Quando tive alta —e agradeci por ter sobrevivido— recebi a pior notícia de todas: aquela que acabaria com a vida que lutei tanto para manter."

Esse relato foi feito por uma paciente que acompanho há 8 anos, dias após receber alta hospitalar. A mulher ficou 40 dias internada por causa da covid-19 e seu filho de 29 anos faleceu dez dias antes de ela finalmente voltar para casa, vítima do coronavírus.

Foi minha paciente quem levou o filho ao hospital, com muita falta de ar. Ela também já apresentava sintomas da doença, como um cansaço fora do comum, mas priorizou o cuidado do filho, como as mães costumam fazer. Deixou o rapaz internado sem saber que aquele "te vejo em breve" seria a última frase que diria a ele. "Queria ter dito algo diferente; algo que demonstrasse o quanto ele era amado. Mas quem está preparado para admitir que talvez nunca mais veja alguém que ama?"

Ao ouvir essa história, carregada de tristeza —e porque não dizer de culpa, por não poder estar ao lado daquela pessoa em seus últimos momentos— somente uma coisa me veio à mente: quantas pessoas e famílias estão se fazendo a mesma pergunta nesse exato momento?

Quantas não tiveram sequer a oportunidade de despedir-se de seus entes queridos, pelas restrições instituídas (e acertadas) para os sepultamentos? Todas essas pessoas apresentam um risco potencial para desenvolver um luto traumático.

O volume de pessoas exposta a processos de luto em que etapas fundamentais para a construção de sentido e aceitação da perda foram suprimidas é assustador. Se para cada morte temos cerca de seis a dez pessoas experimentando reações agudas ao luto, chegamos ao dramático (e alarmante) número de 1,5 a 2,5 milhões de pessoas!

Há um ano vivemos em um cenário nunca imaginado nem em nossos piores pesadelos. Falamos sobre as medidas de distanciamento; sobre a economia; sobre a vacina e sobre as mortes (nessa ordem), mas pouco falamos sobre como oferecer suporte efetivo a essa multidão de enlutados, que infelizmente cresce dia após dia.

Nossa vida é permeada por rituais, que auxiliam a atribuir significado aos acontecimentos. A primeira visita ao recém-nascido, as festas de aniversário, formaturas, casamentos, velórios e sepultamentos são exemplos destes rituais. A ausência dos rituais mortuários como costumavam ser —espaços onde era permitido manifestar a dor, contar com o apoio social, homenagear e despedir-se do falecido, de forma mais ou menos estruturada, se é que se pode dizer assim— pode dificultar o processo de elaboração da perda, gerando uma espécie de "luto sem fim", com complicações variadas.

Cada indivíduo vivencia este processo de forma particular, com reações diversas e no seu tempo. É preciso respeitar este tempo, com acolhimento e empatia. Ainda que estejamos afastados (e devemos seguir assim, por enquanto), não precisamos estar separados. Oferecer acolhimento pode auxiliar essas pessoas a lidar com o sentimento de culpa por não estar com o ente querido nos últimos momentos de vida. Ainda que pareça simples entender que isso ocorreu por impossibilidade e não por opção, a procura por uma explicação pode ser incessante e cruel, impedindo que a pessoa retome suas funções de vida.

Nem sempre será preciso ajuda especializada. Muitas pessoas conseguem lidar com este processo acessando sua rede de apoio: familiares e amigos.

Porém, quando o processo de dor se arrasta por muito tempo; quando a pessoa se nega a ter qualquer contato com a lembrança (negação); quando há pensamentos negativos exacerbados direcionados ao próprio indivíduo (ideação suicida) ou quando já se tem um histórico de lutos anteriores complicados, talvez seja necessário que essa rede de apoio indique que é o momento de buscar ajuda especializada, visto que nem sempre a pessoa enlutada consegue compreender que já não consegue lidar com o problema sozinha.

Não há uma receita ou conjunto de ações que funcione de modo geral. Os cuidados e caminhos que você tomou para lidar com a perda (seja anteriormente, seja agora) podem não funcionar com o outro. Mas o importante é saber que ninguém precisa passar por isso sozinho e que não é vergonha nenhuma pedir ajuda.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL