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Roberto Trindade

Será que a vacina contra a covid-19 será mais bem aceita que as demais?

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Roberto Trindade

Professor universitário e médico da família e comunidade na Zona Leste de São Paulo, Roberto Trindade é formado pela Escuela Latinoamericana de Medicina, em Cuba. Possui especialização em pediatria clínica pelo CAEPP (Centro de Apoio Ensino e Pesquisa em Pediatria‎) e em medicina da família e comunidade pela SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade)

Colunista do VivaBem

03/12/2020 04h00

Todos esperamos ansiosamente pelo dia em que será divulgado que a vacina contra o covid-19 (seja ela qual for, já que são várias candidatas) é eficaz e segura o suficiente e está liberada para iniciar a imunização da população, reduzindo a propagação do vírus e permitindo que, gradativamente, voltemos à vida sem máscaras. Provavelmente, quando isso acontecer, teremos algo parecido com o que houve com a imunização para o H1N1, com filas nos postos de vacinação começando durante a madrugada. Todos correndo para garantir a sua proteção, até de forma desordenada. Será?!

Nos últimos anos a cobertura vacinal, tão importante para o controle de doenças que muitos de nós só ouvimos falar (e nunca tivemos, graças às vacinas!), vem diminuindo vertiginosamente. Isso deu espaço para a reemergência de doenças consideradas controladas, como foi o caso do sarampo recentemente. Em 2019, tivemos o maior número de casos dessa doença nos últimos 23 anos. E isso diz muito sobre como a população vem se comportando no que se refere às imunizações. Será que a vacina contra a covid-19 será mais bem aceita?

Pesquisa realizada pela empresa de inteligência de mercado Ipsos em outubro mostra que, se a vacina estivesse disponível, 81% dos brasileiros pretendiam se vacinar. Esse índice vem diminuindo, pois, na mesma pesquisa, ele era de 88% em agosto. Uma das justificativas para a não vacinação é o avanço rápido dos ensaios clínicos (48%). Porém, chama a atenção que 20% dos entrevistados justificaram a recusa alegando ineficácia da imunização (7%), a sensação de que o contágio da covid-19 é baixo (7%) e a recusa em tomar qualquer vacina (6%). Podem parecer números discretos, mas quando pensamos na imunidade de rebanho —conceito mais importante quando se fala de imunização do que de contágio e que só se consegue com uma cobertura vacinal adequada— deve acender um sinal de alerta, pois a rejeição à tão sonhada vacina vem crescendo.

Desde 1796, quando Edward Jenner inoculou pus extraído da mão de uma ordenhadora em uma criança saudável, após observar que estes trabalhadores não contraiam a varíola humana após terem contraído a forma animal, as vacinas não são uma unanimidade. Ainda que essa descoberta tenha contribuído para erradicar a varíola, uma das doenças mais temidas pela humanidade na época, abrindo caminho para o estudo e desenvolvimento de imunobiológicos cada vez mais seguros e eficazes, as vacinas sempre foram alvo de ataques. Com as redes sociais, disseminar e fortalecer crenças errôneas, potencializando e propagando o medo e a desinformação ficou mais fácil. E isso pode ter consequências devastadoras.

Outro fator que contribui para a baixa cobertura é a falsa sensação de segurança produzida após anos de imunização em massa, que permitiram eliminar e controlar várias doenças, levando as pessoas a descuidar-se na vacinação. De igual forma, a própria prevenção por vacina, quando efetiva, gera a sensação de não ser mais necessária. Devemos lembrar que a situação de controle ou erradicação de uma doença só se mantém em um país se a cobertura vacinal for alta, visto que a realidade de uma localidade não reflete o que ocorre no mundo todo. Um exemplo recente disso foi o surto de sarampo já citado: o primeiro caso veio provavelmente do exterior, contaminando pessoas não vacinadas —por "opção" ou por contraindicação.

O ato de vacinar-se vai muito além de uma decisão individual. Configura-se em um pacto coletivo para a prevenção em saúde. Ao se vacinar, você não só evita o desenvolvimento de formas graves daquela doença, mas também que pessoas que não possam ser vacinadas, seja por sua condição imunológica (imunodeprimidos), seja por alguma contraindicação, fiquem doentes. A vacinação também é um ato de solidariedade com os mais vulneráveis, que traz benefícios para todos.

Quando você decide não se vacinar e ainda assim não fica doente, isso significa que a maior parcela da população tomou uma decisão diferente da sua, conferindo-lhe proteção. Esta é a verdadeira imunidade de rebanho atuando. Lamentavelmente, alguns setores ainda promovem uma outra maneira de alcançar este objetivo: que 70% da população seja infectada, vencendo a epidemia pela impossibilidade de o vírus seguir se propagando. Só se esquecem de citar que este processo pode custar a sua vida.

Quando a vacina chegar -- e ela vai chegar em breve-- informe-se por fontes confiáveis, como o Instituto Butantan e a Fiocruz e tome uma decisão que beneficia a você e aos que estão ao seu redor. A vacina pode não ser obrigatória, mas o bom senso é!