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Roberto Trindade

Nitazoxanida: para que "divulgar" um estudo que só gerou desconfiança?

Fernanda Garcia/UOL VivaBem
Imagem: Fernanda Garcia/UOL VivaBem
Roberto Trindade

Professor universitário e médico da família e comunidade na Zona Leste de São Paulo, Roberto Trindade é formado pela Escuela Latinoamericana de Medicina, em Cuba. Possui especialização em pediatria clínica pelo CAEPP (Centro de Apoio Ensino e Pesquisa em Pediatria‎) e em medicina da família e comunidade pela SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade)

Colunista do VivaBem

23/10/2020 04h00

Nesta semana, vimos mais um medicamento sendo alçado ao posto de supostamente eficaz contra a infecção pelo coronavírus (Sars-Cov2): a nitazoxanida. Digo supostamente porque a divulgação do estudo que poderia comprovar estes bons resultados simplesmente não aconteceu: tivemos apenas gráficos "meramente ilustrativos" e nenhum resultado estatístico, ainda que preliminar, foi mostrado. No final, a (não) divulgação desse estudo gerou mais dúvidas que certezas na comunidade científica. Mas pode ter o efeito inverso na população, o que é bastante perigoso.

Quando a hidroxicloroquina ocupava este posto —e permito-me fazer a distinção entre ambos os casos, já que esta última não tem nenhuma comprovação científica de eficácia, enquanto a nitazoxanida tem um estudo ainda desconhecido— houve uma procura enorme da população pelo medicamento, na esperança de tratar ou "prevenir" a infecção pelo coronavírus. Não se pode esquecer que este incentivo, repito, sem comprovação científica nenhuma, provocou um desabastecimento e dificuldades no acesso ao medicamento às pessoas que realmente o necessitavam para o tratamento de doenças reumáticas (artrite reumatoide e lúpus eritematoso, por exemplo), prejudicando seus tratamentos.

É evidente que este não seria um problema com a nitazoxamida, já que o medicamento é usado principalmente para o tratamento de infecções por parasitas intestinais (parasitoses) e gastroenterites virais. Mas qual o objetivo de divulgar uma suposta —continuo colocando assim, pois os únicos estudos que podemos avaliar, sejam publicados, sejam pré-print (sem revisão pelos pares) mostram apenas atividade in vitro-- eficácia de um medicamento em ensaio clínicos (com humanos) sem mostrar os números que levaram a essa conclusão? Que impacto este anúncio precipitado e sem dados buscava?

Estas são perguntas que ainda não podemos responder, por falta de dados. Pelo menos nisso empatamos com este anúncio!

Todos estamos ansiosos por uma cura ou tratamento realmente eficaz, que reduza os incríveis impactos dessa pandemia na nossa, estejamos na linha de frente ou não. Os estudos sobre a doença avançam de forma vertiginosa e, em muitos casos, em tempo recorde. Nada demonstra mais a urgência com que essa crise vem sendo tratada pela comunidade científica. Ainda assim, a urgência em se encontrar uma resposta eficaz e talvez definitiva para esse flagelo não retira a responsabilidade com a confiabilidade, aplicabilidade e reprodutibilidade dos dados encontrados. Qual a confiabilidade de dados não divulgados? E qual é a aplicabilidade desses mesmos dados impalpáveis?

É importante que se entenda que isso nada tem a ver com torcer contra ou colocar em descrédito o estudo realizado. Para contestar os resultados de uma pesquisa é preciso ter acesso aos dados! Não há como dizer que a nitazoxamida é ou não eficaz para o tratamento de pacientes com covid-19. Não enquanto esses resultados não possam ser analisados.

Se o problema era não divulgar os dados para que possa ser publicado de forma inédita em um periódico científico internacional, por que não aguardar o período de análise e publicação? Nada responde a este mistério.

Enquanto os resultados não chegam, não podemos tratar nossos pacientes com base em uma afirmação, seja de um ministro, seja de uma colega pesquisadora. Na ciência e na vida, afirmações sem as devidas razões e evidências que abarquem todo o seu espectro suscitam questionamentos ou desconfiança. E não deveria ser diferente neste caso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.