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Roberto Trindade

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacinar-se não é um salvo-conduto para voltar ao velho normal

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Imagem: iStock
Roberto Trindade

Professor universitário e médico da família e comunidade na Zona Leste de São Paulo, Roberto Trindade é formado pela Escuela Latinoamericana de Medicina, em Cuba. Possui especialização em pediatria clínica pelo CAEPP (Centro de Apoio Ensino e Pesquisa em Pediatria‎) e em medicina da família e comunidade pela SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade)

Colunista do VivaBem

04/03/2021 04h01

Com o início tímido —e bastante desorganizado— da vacinação no Brasil, uma das perguntas mais ouvidas nos postos de vacinação é "quando posso tirar a máscara?".

Essa pergunta se torna bastante curiosa se lembrarmos que, no final do ano passado, a rejeição à vacina crescia, alavancada por declarações polêmicas de setores do governo e disputas políticas. De um momento para o outro, a vacina se tornou a solução para todos os problemas —uma espécie de "passe livre" para aquele "normal" que conhecemos tão bem e nos recusamos a abandonar. Infelizmente não é bem assim.

Tão importante quanto a vacinação (em massa e urgente) é o entendimento de que as vacinas disponíveis no momento não conferem 100% de eficácia global (que é o potencial de reduzir o risco de desenvolver uma doença) contra a infecção pelo covid-19. Neste ponto é importante explicar que ter 50,4% de eficácia, como no caso da Coronavac, não significa que a cada dez pessoas vacinadas cinco ficarão doentes, como se metade desenvolvesse uma resposta do sistema imune e a outra não. Na verdade, significa que se um grupo de dez pessoas expostas ao vírus e que invariavelmente desenvolveriam a covid-19 —de forma leve, moderada ou grave— fosse vacinada, a quantidade de doentes cairia pela metade.

Além disso, sabemos que a vacinação apresenta eficácia de 100% para as formas moderadas e graves, que precisam de internação e terapia intensiva.

Ao falar da eficácia, pode ter parecido que disse a mesma coisa de duas formas diferentes, ainda que não o tenha feito. Todos os vacinados desenvolverão algum tipo de resposta do sistema imune contra a covid-19. Uns não ficarão doentes, enquanto outros apresentarão quadros leves da doença, podendo receber suporte em suas casas (visto que não há tratamento eficaz até o momento).

Diminuindo os casos moderados e graves, diminuímos a mortalidade. Este é um dos principais objetivos da atual vacinação contra a covid-19: reduzir a pressão sustentada sobre os sistemas de saúde, que beiram o colapso total nesse momento crítico da pandemia.

Não temos como saber quem entre os vacinados não ficará doente. Além disso, nossa campanha de vacinação enfrenta uma desorganização sem precedentes: municípios e estados interpretando a Política Nacional de Imunização (PNI) de forma equivocada, vacinando grupos não prioritários "com prioridade" e deixando grupos vulneráveis, como os idosos, sem vacina. Somado a isso, temos a oferta escassa de vacinas, resultado de uma política de enfrentamento da pandemia que não priorizou a aquisição destes insumos em tempo hábil, tendo que "correr atrás do prejuízo" agora. O resultado é uma vacinação intermitente e "devagar, quase parando".

Se não temos vacina para todos; se grupos vulneráveis não foram totalmente vacinados; se não há tratamento eficiente e se não sabemos quem entre os vacinados pode desenvolver a covid-19 (podendo transmiti-la para pessoas não vacinadas), me responda você mesmo: é hora de tirar a máscara? É hora de voltar às aglomerações?

As medidas de distanciamento social e higiene e o uso de máscara são as únicas ações que podem ser desenvolvidas por todos, vacinados ou não, e que diminuem a propagação do vírus. Se continuarmos relaxando essas medidas, o vírus continuará circulando e "aprendendo" formas de burlar nosso sistema imune, com mutações que se disseminam mais rapidamente e com maior potencial para quadros graves, as chamadas variantes.

Além disso, as vacinas podem se tornar ineficazes contra essas variantes, o que colocaria todo o esforço da ciência em desenvolver uma vacina em tão pouco tempo em xeque.

É inegável que precisamos de mais vacinas, para ontem! Mas isso não significa que devemos abandonar medidas individuais, aguardando que a vacina venha e resolva este caos que parece não ter fim. Devemos exigir que a vacinação se intensifique e abranja toda a população, mas sem esquecer que podemos nos proteger. E isso só depende da nossa vontade.

O vírus está fazendo a parte dele. Será que nós, como indivíduos, estamos fazendo a nossa?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL