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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

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Pílula e outros contraceptivos elevam risco de problemas cardiovasculares?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

27/03/2022 04h00

Em meio a muitos tabus, os primeiros contraceptivos orais, as chamadas pílulas anticoncepcionais, surgiram pouco antes de 1960, ano em que foi aprovada sua comercialização nos Estados Unidos. Com o passar do tempo, porém, uma série de avanços aconteceu.

Vimos emergir versões cada vez mais eficazes e com menos eventos adversos. No passado, esses medicamentos já tiveram dosagens de hormônios até dez vezes maiores do que os produtos disponíveis atualmente.

Além de evitar a gravidez, as pílulas muitas vezes são indicadas para reduzir sintomas da TPM (tensão pré-menstrual), controlar o crescimento de miomas no útero, em casos de síndrome dos ovários policísticos, no tratamento conservador da endometriose, para melhorar questões relacionadas com a acne, dores de cabeça e até em benefício da função sexual. Tudo isso por conta de sua formulação. E aí surgem, além das vantagens, também complicações.

Hoje, apesar da baixa dosagem hormonal, as pílulas anticoncepcionais ainda despertam preocupação por suas reações adversas. A combinação dos hormônios pode causar efeitos colaterais sérios nas mulheres, aumentando inclusive os riscos de problemas cardiovasculares.

A culpa é dos hormônios?

Primeiro vamos deixar claro: as pílulas anticoncepcionais não causam doenças cardíacas. O fato é que esse contraceptivo, de modo geral, tem em sua fórmula dois tipos de hormônios, o estrogênio e a progesterona, substâncias que podem afetar a coagulação do sangue, comprometendo a circulação e aumentando o risco de eventos cardiovasculares.

Os hormônios, em especial o estrógeno, estimulam o sangue a ficar mais espesso, aumentam o risco da formação de coágulos, o endurecimento das artérias e, assim, também a possibilidade de obstrução parcial ou total do fluxo sanguíneo. Os contraceptivos orais podem ainda elevar a pressão arterial ou agravar uma hipertensão preexistente.

Entre as possíveis consequências desse cenário estão as varizes, tromboses e, em menor incidência, casos de embolia pulmonar, infarto do miocárdio (se o coágulo bloquear o fluxo de sangue para a artéria coronária) e até AVC (se o coágulo bloquear o fluxo de sangue para o cérebro).

Tudo depende da predisposição de cada mulher. Na presença de fatores de risco, como obesidade, diabetes, pressão e colesterol altos, tabagismo ou cardiopatias, as pílulas anticoncepcionais se tornam um potencial agravante.

Pesquisas apontam que mulheres cardiopatas, hipertensas, tabagistas, diabéticas ou obesas, que fazem uso da pílula, tendem a ter mais riscos de placas de gordura em suas artérias do que as que não tomam o medicamento —placas que podem, como os coágulos, obstruir os vasos e desencadear um ataque cardíaco. Com o uso em longo prazo, as taxas aumentam significativamente: de 20% a 30% por década de consumo.

A Universidade do Colorado (EUA) cita um estudo recente sobre o risco de infartos em mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais. O levantamento aponta um aumento de 50% no risco para aquelas que tomam pílulas combinadas (com estrógeno e progesterona) e que contêm uma dose ultrabaixa de estrogênio. Para quem toma o contraceptivo combinado tradicional, com a dose baixa de estrogênio, o risco de ataque cardíaco sobe para 80%.

Outras medidas contraceptivas

DIU hormonal e DIU de cobre - iStock - iStock
DIU hormonal e DIU de cobre
Imagem: iStock

Antes de seguirmos, é válido esclarecer: não são só as pílulas que podem gerar efeitos colaterais. Contraceptivos baseados em hormônios estão disponíveis em muitas formas e têm efeitos semelhantes no corpo feminino, incluindo adesivos colocados sobre a pele, anéis (usados dentro da vagina para que o revestimento vaginal possa absorver os hormônios), injeções, dispositivos intrauterinos (existem DIUs tanto com como sem hormônios) e implantes contraceptivos (colocado sob a pele, geralmente no interior do braço).

Cada um com seus benefícios e riscos, mas todos os que contêm a combinação dos hormônios podem ser gatilho para as complicações descritas acima. Outros efeitos adversos são: alterações de humor e apetite, enxaquecas, alterações mamárias, inchaços e náusea, flutuações de peso, crescimento ou redução de pelos.

A principal diferença entre esses métodos é o tipo e a dosagem de estrogênio e progesterona em sua composição, além da forma de uso e frequência. Na fórmula dos medicamentos há aqueles com hormônios sintéticos, ou seja, substâncias químicas que imitam os hormônios produzidos pelo corpo, e bioidênticos, cuja estrutura química e molecular é igual a dos gerados pelo organismo. Uma avaliação personalizada com um profissional especializado é essencial para entender o método mais recomendado para cada mulher.

Posso tomar contraceptivos hormonais se eu já tiver doenças cardíacas? Depende. Mulheres com doenças cardiovasculares ou doenças cardíacas congênitas não devem fazer uso desse tipo de contraceptivo sem avaliação médica.

É possível, por exemplo, a indicação de um dispositivo apenas com progesterona, minimizando os riscos, ou do DIU de cobre, que não contém hormônios. A escolha nesses casos precisa levar em conta segurança, eficácia, preferência da paciente e o risco de gravidez não planejada —considerando a condição cardiovascular.

Hormônios não são vilões

Vale lembrar que o corpo feminino já produz estrogênio e progesterona que, em conjunto, ajudam a regular diferentes aspectos, como o ciclo menstrual. Baixos níveis desses hormônios podem resultar em problemas de pele, sono e falta de desejo sexual. O estrógeno fabricado pelo organismo é tido também como aliado do coração durante boa parte da vida das mulheres.

Por natureza, durante todo seu período fértil, elas contam com a proteção do estrógeno, que tem efeito positivo sobre a parede arterial. Estudos mostram que a substância é uma espécie de guardiã do endotélio, um tapete celular que reveste o interior dos vasos sanguíneos. Sem o hormônio, essa estrutura tende a ficar mais vulnerável a lesões e se contrair excessivamente.

O estrógeno estimula a flexibilidade e dilatação dos vasos, facilitando assim o fluxo sanguíneo para o músculo do coração através das artérias coronárias. Quando chega a menopausa, ocorre o fim da menstruação com os ovários deixando de produzir essas substâncias. Com isso, a mulher passa a não contar mais com a proteção, ficando mais suscetível ao risco de problemas cardíacos, como a doença arterial coronária e a possibilidade de infarto.

Prevenção além da gravidez

Quando o assunto são os contraceptivos, vale um parêntese para falar de infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs. Isso porque, mais do que evitar a gravidez, precisamos ter em mente a importância também do uso dos preservativos, fundamentais na proteção contra infecções sexualmente transmissíveis. A sífilis, por exemplo, é uma das doenças que podem afetar a saúde do coração.

Causada pela bactéria treponema pallidum, no início, ela provoca uma infecção e lesão genital. Porém, se não devidamente diagnosticada e tratada, é possível que o quadro se agrave. Em fase avançada, a paciente pode desenvolver a sífilis cardiovascular e desencadear aneurismas, inflamações e danos às válvulas e artérias do coração, incluindo a aorta. As lesões causadas pela sífilis afetam ainda o cérebro, ossos, pele e cartilagem e há até o risco de morrer.

O que devemos considerar na hora da escolha?

É importante reforçar que não há medicamento só com vantagens, sem risco algum, mesmo que mínimo. E isso vale para os contraceptivos hormonais: eles têm contraindicações e possíveis efeitos colaterais. No entanto, na maioria dos casos, os benefícios tendem a levar vantagem. O grande problema é quando a mulher faz uso desses produtos sem recomendação ou orientação médica.

Para evitar efeitos adversos, é de suma importância um profissional indicar a medicação ideal, de forma individualizada, considerando condições de saúde, possíveis fatores de risco e predisposição genética para algumas doenças. As mulheres devem sempre discutir com seu ginecologista —e quando necessário com o cardiologista também— o tipo, benefícios e riscos dos contraceptivos, sobretudo em relação à saúde do coração e da circulação.

O ideal é manter um acompanhamento médico periódico durante o uso dessas medicações, além de ter um estilo de vida saudável, com alimentação balanceada, atividades físicas regulares, evitar a ingestão de bebida alcoólica e o tabagismo. Tudo isso irá contribuir para a prevenção e redução dos riscos de complicações cardiovasculares ao longo da vida.