PUBLICIDADE

Topo

Paulo Chaccur

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que nosso coração bate mais rápido quando estamos apaixonados?

PeopleImages/Getty Images
Imagem: PeopleImages/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

13/02/2022 04h00

As pernas tremem, as mãos suam e os batimentos aceleram. A mente parece estar focada em um único ser. Se você já se apaixonou deve entender esta sensação. Por vezes, somos acometidos por sintomas intensos e avassaladores. Para muitos, só o fato de pensar na pessoa amada ativa o gatilho para que o organismo apresente tais reações. E por que será que isso acontece?

Quando nos apaixonamos, normalmente, associamos o sentimento ao coração. No entanto, é o cérebro que recebe os estímulos e libera hormônios que vão atuar em nosso corpo. É no cérebro que está a chavinha para todas as alterações que são despertadas quando nos encantamos por alguém.

Diante de uma paixão, há uma tendência para o aumento da pressão arterial, da frequência respiratória e cardíaca, a dilatação das pupilas, tremores e o rubor. Há quem experimente ainda a falta de apetite, dificuldades de concentração, questões relacionadas à memória e ao sono.

Uma chuva de hormônios

Diversos estudos já foram realizados a fim de entender como funciona a cascata química que a paixão e o amor desencadeiam no corpo. Pesquisas recentes apontam que estruturas do cérebro, chamadas núcleo caudado, se mostram mais ativas em indivíduos apaixonados.

Estar em contato com a pessoa amada, mesmo que só por telefone ou mensagem, pode provocar a liberação de doses de substâncias químicas, como a dopamina, testosterona, ocitocina, serotonina, adrenalina, endorfina e fenilanfetamina, hormônios capazes de gerar as sensações de euforia, conforto e prazer, além das mudanças físicas. As substâncias tendem a nos deixar mais agitados, corajosos e dispostos a realizar novas tarefas.

Alterações no corpo

Quando estamos apaixonados, a produção destes hormônios, na maior parte dos casos, cresce significantemente, gerando diferentes reações. A dopamina, por exemplo, é um neurotransmissor da alegria e felicidade. É responsável por regular funções no organismo, interferindo na aceleração do coração e na sensação de borboletas no estômago. Ela induz a euforia.

A substância atua principalmente nos circuitos de recompensa cerebral. Seu excesso ativa comportamentos de atenção. Uma possível explicação, inclusive, para o fato da pessoa apaixonada só ter olhos e foco para quem despertou tal sentimento.

Podemos destacar também a maior quantidade de serotonina liberada, responsável pela percepção de bem-estar. Ocorre ainda uma alteração nos níveis de testosterona, hormônio que, entre outras coisas, regula a função sexual.

Apesar de ser mais relacionado ao sexo masculino, está presente nos dois organismos, de homens e mulheres —nelas, em menor quantidade. Com a paixão, na mulher estimula a libido; já nos homens, suas taxas caem, deixando-os menos agressivos.

Mas e o coração acelerado?

casal; romance; flerte; relacionamento; parque; apaixonado; amor; paixão; pegada; ficantes; beijo; atitude - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

A paixão faz o coração bater mais rápido e forte: a frequência cardíaca pode chegar a 150 por minuto —em condições normais de saúde e sem estímulos externos, a frequência ideal varia de 60 a 80 batimentos por minuto. E a explicação novamente vem dos hormônios. Uma das principais substâncias que atuam diretamente no coração é a adrenalina. Derivada do cortisol, é um dos hormônios que provoca o aumento dos batimentos.

Ela também estimula a elevação das taxas de pressão arterial, efeito que é neutralizado por outra substância liberada, a endorfina. Estes picos de curta duração podem até treinar nosso coração a bombear o sangue com mais eficiência, de forma semelhante ao exercício aeróbico —embora em menor grau. O sentimento que provoca a excitação e a felicidade pode, desta forma, mais do que apenas fazer você se sentir bem, trazer benefícios para a saúde cardíaca.

Pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos vêm comprovando que as emoções influem na química, nos hormônios e no funcionamento do organismo. Já sabemos que certos sentimentos interferem sobre o colesterol, o metabolismo, as doenças coronárias, a hipertensão e o sistema imunológico, fatores importantes para o sistema cardiovascular.

Além da paixão

O fato é que o amor, de modo geral, pode impactar na saúde do coração. E não apenas o amor romântico, como falamos até agora. Ter relações próximas e amorosas com amigos e familiares também contribui para questões cardiovasculares.

Diversos estudos têm investigado o papel do apoio de entes queridos na recuperação de procedimentos e intervenções realizadas no coração, a exemplo da cirurgia de revascularização do miocárdio. Os levantamentos apontam que os pacientes que tiveram apoio social apresentaram uma melhor recuperação e taxa de sobrevivência.

Um abraço, por exemplo, pode ajudar —e muito! Ao sermos acolhidos nos braços de outra pessoa, nosso corpo libera ocitocina, o hormônio associado ao amor, à sensação de prazer, segurança e de bem-estar físico e emocional. A ocitocina ajuda a diminuir a pressão arterial, a ansiedade e o estresse —com a produção em alta da substância é possível reduzir a quantidade de outros dois hormônios ligados ao estresse, o cortisol e a norepinefrina.

Sentimentos e emoções que envolvem o companheirismo, a amizade, o amor e a alegria levam ao relaxamento muscular, a vasodilatação, relaxamento intestinal, secreção glandular, salivação, calor sem sudorese, ou seja, manifestações que ajudam a prevenir as doenças cardiovasculares.

E parece que até escrever sobre o amor pode fazer bem a saúde do coração! Em dois ensaios publicados na Human Communication Research, estudantes universitários que passaram 20 minutos escrevendo sobre seu afeto por entes queridos, como amigos, parentes e/ou parceiros românticos, experimentaram quedas significativas no colesterol total (os níveis médios de colesterol foram reduzidos de 170 mg/dL para 159 mg/dL).

Quando a paixão acaba...

Sim, ela acaba —e, acredite, tem um lado muito saudável nisso! No auge da paixão as alterações químicas ficam tão intensas e estressantes que, se durassem tempo demais, o organismo entraria em colapso. O prazo de validade do "efeito paixão" varia entre os estudos realizados. Geralmente, isso ocorre em alguns meses, com o cérebro descarregando menos substâncias no organismo.

Vale lembrar que aqui abordamos o lado bom da paixão, mas precisamos destacar que ela pode ser uma emoção benéfica para uns, porém, é também a causa da ansiedade e outras complicações. Tudo depende muito do cenário, experiências e relações de cada um.

Também devemos ressaltar que o interessante é que o "efeito paixão" passe naturalmente para seguir sendo positivo à saúde. O que, sabemos, nem sempre ocorre. Algumas vezes, quando há o fim do relacionamento neste período, o comportamento de alguns indivíduos chega a ficar próximo da obsessão, com diversas complicações e consequências psicológicas e até físicas.