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REPORTAGEM

Aspirina ajuda a prevenir infarto? Entenda como e por que o remédio é usado

Imagem: iStock
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Paulo Chaccur

Colunista do UOL

05/12/2021 04h00

Você já deve ter ouvido por aí que a aspirina —ou o ácido acetilsalicílico— pode ajudar a prevenir um ataque cardíaco, mas será que a informação de fato é verdade? A chave da questão aqui gira em torno da formação de coágulos sanguíneos nas artérias, cenário determinante em casos de infartos e AVCs (acidentes vasculares cerebrais).

Isso porque ambos acontecem a partir do rompimento de uma placa de gordura (ateroma) depositada na parede do vaso, que, por mecanismo de proteção do organismo, se transforma em um coágulo.

A aspirina, além de aliviar a dor, baixar a febre e atuar na redução de uma inflamação, pode interferir na coagulação do nosso sangue. O medicamente diminui sua viscosidade (dilui ou afina), o que contribui para minimizar ou impedir o surgimento destes coágulos nas artérias.

A relação entre a coagulação e o infarto

Para entendermos melhor a questão, vale entrarmos um pouco mais em detalhes. Em resumo, quando uma pessoa sangra, suas células coagulantes, chamadas plaquetas, são coletadas no local do machucado. As plaquetas ajudam a formar uma espécie de tampão, um curativo, que sela a abertura no vaso, interrompendo o sangramento.

No entanto, o processo também pode ocorrer dentro dos vasos que levam sangue até o coração. E se esses vasos sanguíneos já estão estreitos em decorrência do acúmulo de gordura (quadro conhecido como aterosclerose) e do aumento das placas, seu revestimento pode ser danificado, expondo o sangue à parede interna da artéria, que então coagula.

Os coágulos formados impedem ou bloqueiam o fluxo de sangue para o músculo do coração (miocárdio) e assim desencadeiam o ataque cardíaco ou infarto. O tratamento com aspirina age, portanto, na coagulação das plaquetas.

Para quem este tipo de tratamento é indicado?

A resposta ao questionamento sobre o uso da aspirina depende de diferentes fatores, como idade, saúde geral, histórico de doenças cardíacas e risco de ter um futuro ataque do coração ou AVC. Porém, de modo geral, a terapia diária com o ácido acetilsalicílico é recomendada em duas situações.

A primeira delas na prevenção primária, ou seja, para aqueles que, por exemplo, nunca tiveram um infarto ou derrame, apresentaram quadro de artérias carótidas bloqueadas, passaram por uma cirurgia de revascularização do miocárdio (a popular ponte de safena) ou angioplastia coronária com colocação de stent. Geralmente estão dentro do perfil indivíduos que, apesar de ainda não terem sofrido um evento grave, têm alto risco (10% ou mais) de ter um primeiro ataque cardíaco ou AVC nos próximos 10 anos.

O outro grupo inclui aqueles que precisam de uma prevenção secundária, isto é, pacientes que já passaram por um infarto ou AVC ou ainda têm outras doenças cardíacas e dos vasos sanguíneos (vasculares). Nestes casos, o uso da aspirina diária pode prevenir novas complicações cardiovasculares sérias.

E nestas situações a recomendação está mais bem estabelecida. Já entre os quadros de prevenção primária, a prescrição do tratamento tem sido debatida, especialmente por conta dos riscos e consequências que podem surgir.

Quando não é recomendado o uso?

Hoje, a terapia diária com aspirina não é indicada para todos. Como a maioria dos medicamentos, há a possibilidade de efeitos colaterais. O uso contínuo e regular do ácido acetilsalicílico pode ser perigoso e causar, entre outras complicações, irritação da mucosa do estômago, perturbações gastrointestinais (como a gastrite), úlceras e sangramentos —inclusive fatais.

O risco é maior para aqueles que já apresentam algum problema, como doenças prévias, a exemplo de úlceras estomacais e hemorrágica ou um histórico de sangramento gastrointestinal. E, como estimula a diminuição da viscosidade do sangue, é preciso atenção redobrada também para pessoas com maior risco de sangramento ou distúrbio de coagulação, um dos alertas que mais preocupam.

Recentemente um painel de especialistas americanos trouxe novas diretrizes sobre o tema, especificamente no caso da prevenção primária (as diretrizes não se aplicam àqueles que já fazem uso da aspirina ou que já tiveram um ataque cardíaco).

A recomendação é baseada em evidências de que o risco para efeitos colaterais graves supera os benefícios da estratégia, que no passado era considerada uma das mais eficientes e baratas na luta contra as doenças cardíacas.

Segundo essa força-tarefa (composta por 16 especialistas em prevenção de doenças e medicina baseada em evidências), o consumo regular de ácido acetilsalicílico eleva o risco de sangramentos, especialmente no trato digestivo e no cérebro, chances que aumentam com a idade. As pesquisas mostram ainda que o risco elevado para sangramentos ocorre de forma relativamente rápida depois que o uso regular da aspirina é iniciado.

Neste sentido, outras entidades do país seguem a mesma tendência, como o Food and Drug Administration (FDA - a agência reguladora dos EUA), o Colégio Americano de Cardiologia e a Associação Americana do Coração, que também unificaram suas recomendações indicando que a aspirina deve ser prescrita de forma seletiva para pessoas que nunca tiveram um evento cardiovascular grave, como mencionado acima, em casos de para prevenção primária. Isso especialmente em idosos.

Outros estudos e evidências

Mais recentemente, dois grandes ensaios clínicos comparando aspirina com placebo entre pessoas sem doença cardíaca conhecida dão ainda mais motivos para a cautela com o uso do medicamento. O ensaio ARRIVE incluiu homens com mais de 55 anos e mulheres com mais de 60 anos, que foram considerados de alto risco para doenças cardíacas por terem vários fatores de risco para aterosclerose. O ensaio ASPREE avaliou adultos idosos (afro-americanos com 70 anos ou mais e hispânicos com 65 anos ou mais).

Ambos apontaram que uma dose baixa de aspirina (uma dose considerada baixa varia de 75 a 100 miligramas) não impede ataques cardíacos subsequentes ou AVCs durante um período de aproximadamente cinco anos. Entretanto, a aspirina aumentou o risco de grandes sangramentos.

Alternativas e cuidados

Em função destes trabalhos e estudos com grande número de pacientes e baseados na medicina de evidências, as recomendações e indicações terapêuticas, portanto, estão mudando. Um controle mais intensivo de fatores de risco pode ser mais eficiente ou talvez menos prejudicial ao organismo. Aqui nos referimos aqueles já conhecidos: monitoramento da pressão arterial, dos níveis de colesterol e diabetes, obesidade, entre outros. Medidas consideradas atualmente mais importantes para a prevenção do que o uso de aspirina.

Entretanto, nenhuma atitude neste sentido deve ser tomada sem a avaliação e orientação de um especialista. Sempre a decisão de iniciar ou interromper o tratamento diário com o ácido acetilsalicílico deve ser discutida com um médico, qualquer que seja o caso. Assim como buscar alternativas menos agressivas, a exemplo de uma aspirina revestida (também é chamada de aspirina com revestimento entérico).

Isso porque, mesmo com os indícios apontados, precisamos ter em mente que só um profissional de saúde poderá fazer a devida avaliação quanto aos riscos e benefícios, levando em conta a situação particular de cada paciente. Combinações da aspirina com medicamentos para diluir o sangue (anticoagulante) podem, por exemplo, aumentar muito o risco de grandes sangramentos.

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