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Paulo Chaccur

Importante na pandemia: será que a telemedicina chegou mesmo para ficar?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

08/11/2020 04h00

A chegada do coronavírus trouxe uma série de questões e necessidades à tona. Mudanças e adaptações que precisaram ser feitas em caráter de urgência para suprir as necessidades que o momento exige. A tecnologia para a área da saúde, por exemplo, foi um dos pontos que se mostraram cruciais.

A pandemia acelerou um processo que estava em curso: o investimento em telemedicina, uma saída para conseguir manter os atendimentos com mais segurança para médicos e pacientes. A regulamentação da atividade, que andava a passos lentos, foi percebida como uma aliada nas estratégias de combate e prevenção à covid-19. Em abril, foi sancionada a Lei nº 13.989/20, que permite o uso de telemedicina no Brasil, pelo menos enquanto durar a crise provocada pela pandemia.

As consultas online, além de contribuir para suprir a alta demanda e melhorar a capacidade de atendimento, têm ajudado a salvar vidas, especialmente para pessoas pertencentes ao grupo considerado de risco. E apesar do foco principal desta decisão ser o coronavírus, não podemos deixar de destacar sua atuação para aqueles que têm de dar continuidade ao tratamento de cardiopatias e doenças crônicas, como no caso da hipertensão e do diabetes, que mesmo diante da necessidade de distanciamento social, precisam continuar sob controle e monitoramento.

A gravidade

Isso porque tanto a pressão alta como o diabetes são alguns dos fatores considerados de risco para as doenças do coração, um problema sério de saúde pública e uma das principais causas de morte no mundo, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Segundo levantamento da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia), desde o início da pandemia de covid-19, houve um aumento de 31,8% no número de óbitos em casa por doenças cardiovasculares, incluindo infarto e AVC (acidente vascular cerebral).

Os dados do Portal da Transparência, atualizado pela Arpen-Brasil (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil) em parceria com SBC, apontam que ocorreram mais de 23 mil mortes por doenças cardíacas em domicílio entre março, quando foi registrada a primeira morte por covid, e junho deste ano. Em 2019, no mesmo período, foram cerca de 17,7 mil mortes.

O fato é que é importante cumprir os protocolos de segurança contra o coronavírus, mas segue sendo fundamental manter a rotina de consultas e exames, assim como o tratamento com remédios, que em hipótese alguma deve ser interrompido por conta própria. E neste aspecto a telemedicina se mostrou uma opção eficaz.

Telemedicina cardiológica

Apesar de muitos acreditarem que a tecnologia caminha contra a humanização, ela vem revelando sua importância e como pode ser útil em diversas situações. No cenário atual, eu diria, fundamental.

Assim como em outras especialidades, a telemedicina cardiológica (também chamada de telecardiologia) é uma consulta médica de forma remota, por meio de tecnologias de comunicação online, como videoconferência ou aplicativos de videochamadas, por meio de computadores, tablets ou smartphones. As consultas à distância podem ser de primeiro atendimento, suporte ou assistencial, diagnóstico, monitoramento ou urgência.

No caso de pacientes cardiopatas ou em avaliação conseguimos realizar este monitoramento com dados coletados por dispositivos cardíacos, como marcapasso, holter, medidores de pressão arterial, entre outros, que são enviados em tempo real para uma central ou diretamente ao especialista responsável.

Assim, cardiologistas e arritmologistas podem acompanhar e ser alertados sobre eventos relevantes de seus pacientes e até intervir em certas situações, como de fibrilação atrial.

Além do contato médico-paciente, remotamente é possível ainda a troca de conhecimento e a discussão de casos com outros especialistas e até por uma equipe interdisciplinar, facilitando a emissão de laudos e o fechamento de diagnósticos mais precisos e rápidos.

Em equipe, podemos decidir e traçar, à distância, o tratamento mais adequado, um medicamento mais indicado e até mesmo orientações ao vivo sobre a realização de um procedimento. A telemedicina também amplia a oferta de especialistas a comunidades em áreas remotas com a carência de certos profissionais.

Realidade que veio para ficar?

Por hora, o uso da telemedicina ainda é uma exceção aberta por conta da covid-19. Apesar das vantagens constatadas, não há uma regulamentação específica —no Brasil é permitida apenas para discussão de casos clínicos entre profissionais da saúde.

Para a cardiologia, especialmente, durante a pandemia conseguimos até identificar à distância cardiopatias e outras alterações no funcionamento do coração, porém, em algumas situações, ficou evidente que a falta de exames clínicos pode prejudicar a avaliação complementar, principalmente em pacientes portadores de insuficiência cardíaca e os que apresentam doenças em suas válvulas do coração.

Por isso, creio que este recurso não substituiria o atendimento médico presencial, mas seria uma forma interessante e eficiente de complementá-lo. Na realização de triagens, por exemplo, encaminhando para as unidades de pronto-atendimento somente casos que realmente necessitam de exames e investigações mais profundas para diagnóstico e tratamento. Ou ainda, após consulta presencial, o retorno e avaliação de exames serem realizados por teleconsulta.

Outra possibilidade seria no caso de pacientes antigos, com situações clínica-cardiológicas já conhecidas, em acompanhamento remoto apenas para atualização e revisão de resultados de exames. Ou seja, a telemedicina pode ajudar a reduzir a quantidade de visitas clínicas e hospitalares, processo que contribui para aliviar a pressão nos sistemas de saúde e minimiza situações de possível contágio, principalmente em cenários como de uma pandemia.

O fato é que a medicina do futuro já está exigindo dos profissionais atualizações constantes e domínio de novas tecnologias. O modelo ainda é bem recente no país e há muito para avançar, principalmente em relação à democratização do acesso à saúde e aos recursos. No entanto, apesar de não ser um caminho simples, já foi possível notar que é viável e benéfico.

Precisamos de tecnologia que garanta a segurança dos dados repassados entre profissionais da saúde e entre paciente e médico, além de uma comunicação que garanta a integridade, segurança e o sigilo das informações.

Importante também reforçar que o uso da telemedicina precisa de adaptações e treinamentos para evitar a superficialidade. Isso porque, em um atendimento médico, acredito que empatia, escuta atenta e a percepção do olho no olho ainda são fundamentais.