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Foi infectado pelo coronavírus e se curou? Atenção ao seu coração

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Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

19/07/2020 04h00

Se não bastasse enfrentar o coronavírus, ainda é preciso se preocupar com os efeitos deixados por ele. Na economia, na educação, nos relacionamentos, no organismo... É, a pandemia tem nos desafiado em muitos aspectos. E quando falamos em saúde, o alerta é maior: este deve ser, sem dúvidas, um dos primeiros tópicos na nossa lista de prioridades.

E isso vale até para aqueles que já enfrentaram a covid-19 e se recuperaram. Aos poucos, a classe médica e científica foi tomando conhecimento do potencial agressivo da doença e das lesões causadas em órgãos e tecidos. Evidências apontam para riscos de consequências graves e permanentes, inclusive no coração.

O fato é que mesmo indivíduos sem problemas preexistentes ou fatores de risco para eventos cardiovasculares podem apresentar alterações da função cardíaca. Sabemos que muitos desses pacientes supostamente recuperados do coronavírus vão precisar de acompanhamento e uma possível reabilitação.

Há ainda, claro, diversas dúvidas sobre essas sequelas, até porque as pesquisas e estudos estão ocorrendo quase que simultaneamente ao avanço do vírus, da busca por medicamentos e de uma vacina. No entanto, é preciso cautela e muita atenção.

Entendendo o que a doença causa

Resumidamente, a covid-19 tem três fases de evolução. A primeira, a da multiplicação viral, depende das defesas imunológicas do corpo no combate ao vírus. Sem a reação necessária do organismo, ela avança para a fase dois, quando ocorre uma atividade inflamatória inicial, estágio em que o pulmão é o órgão alvo, levando a alterações respiratórias e a possibilidade de redução da oxigenação.

Caso a doença não seja controlada, ela passa então para a fase três, momento em que há uma hiperinflamação, que além de agravar a situação pulmonar, atinge quase todos os órgãos e tecidos, com sérias consequências, sequelas e risco de morte.

No caso do coração, mesmo com a ausência de doenças cardíacas anteriores, ele pode ser atingido a partir da fase dois e por diversos mecanismos, que vão desde lesões diretas pelo vírus no músculo cardíaco até complicações secundárias em resposta inflamatória e trombótica desencadeada pela infecção.

Como a covid afeta o coração?

O coronavírus pode atacar diretamente o músculo cardíaco (o miocárdio), causando uma inflamação conhecida como miocardite. Como esse músculo é responsável pela contração do coração, a inflamação acaba prejudicando o bombeamento do sangue pelo corpo. Entre as possíveis consequências estão arritmias e até a insuficiência cardíaca. Há relatos de casos de reversão da disfunção ventricular na fase aguda da doença.

Ainda, se a resposta do sistema imunológico à infecção for muito intensa, é possível que esse processo reativo atinja o coração. No ímpeto de derrotar o vírus, o corpo se autobombardeia.

Para exemplificar: quando o vírus entra no organismo, nosso sistema imunológico se defende atacando as células infectadas. Para esse "combate" à inflamação, os vasos sanguíneos se dilatam com objetivo de levar mais sangue e, com ele, mais células imunológicas ao local. Assim, quando o corpo reage de maneira muito vigorosa e desenfreada, corremos o risco de destruir tecidos saudáveis do coração e, desta forma, prejudicar seu funcionamento.

Em razão dessa ação do corpo na luta contra o vírus, o coração também pode ser afetado indiretamente. O órgão é comprometido pela redução na concentração de oxigênio gerada pela disfunção dos pulmões, pela liberação de citocinas (substâncias capazes de reduzir a função cardíaca) e por isquemia, devido à formação de coágulos na microcirculação. Além disso, já foram relatados da síndrome de Takotsubo (conhecida popularmente como síndrome do coração partido), devido a uma descarga de hormônios vasoativos.

Uma acentuada resposta inflamatória à covid-19 pode ainda causar disfunção endotelial e aumento da atividade pró-coagulante, o que associado à menor oferta de oxigênio contribui para a formação de trombo sobre a placa na artéria coronária. Caso se agrave para um quadro agudo, existe a chance da evolução para um infarto do miocárdio, porém com características diferentes dos que ocorrem na doença arterial coronária propriamente dita (ou seja, a obstrução da artéria coronária).

O jornal americano The New York Times noticiou, por exemplo, o caso de um homem que deu entrada na emergência de um hospital com sintomas típicos de um ataque cardíaco. No entanto, quando os médicos agiram para desbloquear a artéria entupida, descobriram que não havia nenhum bloqueio. O diagnóstico era covid-19. Alguns dias depois, o paciente se recuperou e teve alta.

Pós-covid: cuidados depois da fase aguda da doença

O alerta, especialmente para aqueles que enfrentaram quadros graves da covid, é que nem sempre receber alta médica significa recuperação total. Para parte dos pacientes que foram infectados pelo coronavírus, há risco de sequelas no cérebro, rins, pulmões e no coração, deixando a saúde frágil. Existe a chance, inclusive, de alguns sintomas retornarem, mesmo após o indivíduo estar aparentemente curado, como cansaço excessivo, palpitações, falta de ar e dores de cabeça, no peito e musculares.

Entre as complicações cardíacas, há casos de pacientes que desenvolveram fibrose pulmonar e dislipidemia, fatores considerados de risco para a doença cardiovascular. Outros apresentaram o tromboembolismo pulmonar, quadro que pode resultar em disfunção aguda do ventrículo direito, gerando insuficiência cardíaca. Há relatos de doentes que, após desenvolverem coágulos sanguíneos, tiveram derrames e problemas renais.

Vale lembrar, como explicado, que todo o cenário inflamatório, em especial quando o corpo reage intensamente, leva ao aumento da possibilidade de tromboses e arritmias cardíacas, pois acometem o músculo cardíaco. Algumas pessoas passaram ainda a apresentar disfunção ventricular e, por consequência, insuficiência cardíaca.

A insuficiência e as arritmias são sequelas que também podem acometer aqueles que tiveram a miocardite dentro do quadro inflamatório causado pelo coronavírus. Além disso, a própria inflamação gerada em reposta à doença é capaz de desestabilizar placas de aterosclerose localizadas nas artérias coronarianas, causando infarto agudo do miocárdio.

Isso tudo nos leva a considerar que a atividade inflamatória gerada pela covid-19 pode persistir de maneira silenciosa, com manifestação tardia e característica insidiosa. Assim, mesmo após aparente recuperação, existe a possibilidade de ocorrer uma sequela crônica.

Temos um longo caminho pela frente

Com certeza há muito o que estudar e descobrir sobre o coronavírus, suas sequelas para o coração e demais órgãos. As pesquisas estão em andamento e, provavelmente, só daqui a algum tempo teremos mais certezas e dados concretos. O processo é dinâmico, tornando necessário acompanhar a evolução da doença a cada dia para se conhecer a fundo as suas implicações. Ainda não podemos concluir se esses abalos na saúde serão permanentes.

No entanto, pouco a pouco, mundialmente, as agressões já conhecidas da covid-19 vão sendo compartilhadas. Reforço que, se para quem não tem transtorno cardiovascular preexistente existem tantas possíveis complicações, para aqueles com histórico ou fatores de risco (como cardiopatias, pressão e colesterol altos, diabetes, obesidade, tabagismo e sedentarismo), as chances de um quadro mais grave ou de sequelas sérias é ainda maior.

Por isso, é extremamente importante permanecer ligado aos sinais do corpo e manter a rotina diária de atenção e dedicação à saúde. Em caso de dúvidas, não hesite em procurar orientações de seu médico.