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Paulo Chaccur


Paulo Chaccur

Casar diminui ou aumenta o risco de problemas no coração?

A segurança financeira e o bem-estar proporcionado em relações estáveis ajudam a reduzir o risco de problemas no coração - iStock
A segurança financeira e o bem-estar proporcionado em relações estáveis ajudam a reduzir o risco de problemas no coração Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL VivaBem

21/07/2019 04h00

Idade, hábitos alimentares, o consumo de cigarro e bebidas alcoólicas, a prática de exercícios físicos, estresse, genética, o controle da pressão sanguínea, peso e colesterol... A lista de fatores que influenciam a saúde do coração é grande - e parece não parar de crescer!

Há diversos motivos que podem trazer perigos ao órgão que muitos nem sequer imaginam. Buscando desvendar essas causas ainda desconhecidas, estudos recentes avaliam a relação entre o casamento e as doenças cardiovasculares, como infarto e AVC. Na sua opinião: casar pode fazer bem ou trazer problemas ao coração?

Casamento x coração

O tema pode parecer controverso, mas existem trabalhos que identificam essa correlação entre o estado civil e a doença cardiovascular. Uma pesquisa recente publicada no Heart (jornal oficial da Sociedade Britânica Cardiovascular) aponta, por exemplo, que o casamento é capaz reduzir o risco de problemas cardíacos.

Segundo o estudo, quem não está casado (ou seja, os solteiros, divorciados ou viúvos) tem 42% mais risco de desenvolver problemas cardiovasculares e 16% de ter doenças coronárias. O mesmo grupo também tem mais propensão a morrer de doenças da artéria coronária (42%) e AVC (55%), em comparação a quem está em um relacionamento estável.

Entre os fatores a favor do casamento apontados na pesquisa estão a maior probabilidade de reconhecimento dos sintomas de doenças --já que isso pode ser feito por um parceiro, o incentivo para a continuidade de tratamentos e o apoio para enfrentar momentos difíceis, além de maior segurança financeira e mais bem-estar.

Será então hora de procurar uma relação estável?

Se avaliarmos a conclusão do levantamento, os benefícios estão mais relacionados ao companheirismo de modo geral do que ao casamento em si. O ponto aqui não é o fato de estar casado ou não, mas sim a qualidade e a estabilidade desses relacionamentos.

Em um cenário em que há amor, respeito, companheirismo e consideração com o parceiro, há também mais bem-estar e qualidade de vida. As dificuldades e problemas da vida podem ser superados de forma mais leve, a ponto de não afetarem a saúde. Alguns ainda acreditam que os casados tendem a levar uma vida mais regrada, com horários de sono e convívio social mais regulares, pontos benéficos para a saúde do coração.

Por outro lado, quando nos deparamos com casamentos que são baseados em relacionamentos abusivos ou problemáticos, falta de companheirismo, desrespeito, a chance de haver outros fatores como tristeza, angústia, desequilíbrio alimentar, insônia, são grandes. Sintomas esses que contribuem para o desencadeamento dos eventos cardiovasculares.

Quando a mente e as emoções não andam bem, o corpo sofre as consequências

Hoje em dia já se tem conhecimento de que as emoções e sentimentos afetam também a saúde física, inclusive do coração. No caso de relacionamentos em que o indivíduo passa por constantes momentos de raiva, traições, mentiras e estresse emocional as consequências podem ser graves.

Para se ter ideia, quando sentimos raiva ou entramos num estado de irritação intensa, a chance de um ataque cardíaco aumenta em mais de oito vezes. A raiva, assim como outros sentimentos negativos, está ligada à produção de hormônios do estresse, como cortisol e adrenalina, que são lançados na circulação e causam efeitos nocivos ao organismo.

Quando sentimentos assim se tornam constantes na vida de alguém e a liberação de hormônios do estresse acontece com frequência, a vasoconstrição (redução do calibre dos vasos sanguíneos) é estimulada e em consequência as artérias diminuem seu potencial de adaptação, gerando aumento da pressão arterial, elevação dos batimentos cardíacos e uma sobrecarga no coração. Cenário que pode desencadear o desenvolvimento da doença cardiovascular, uma crise hipertensiva, arritmia ou até um infarto do miocárdio.

Ou seja, não basta simplesmente estar casado, mas é preciso ter qualidade nesse relacionamento para que seja realmente benéfico ao coração e a saúde de modo geral.

Não importa o estado civil!

O fato é que para garantir um coração saudável, é fundamental cuidar tanto de sua saúde física quanto emocional. Os hábitos, a rotina, as relações de uma pessoa são muito mais importantes do que ser casado ou não.

O que protege mesmo o coração é atividade física, ter uma alimentação saudável e uma vida sem estresse. Por isso, avalie suas relações, procure viver em um ambiente de qualidade e com pessoas que te fazem bem. Dê atenção aos principais fatores que causam as doenças cardiovasculares, como estresse, má alimentação, tabagismo e sedentarismo. Avalie seu histórico familiar, pois sabemos que isso também é um dos pontos preponderantes para as doenças cardíacas.

E por último, faça o acompanhamento médico periódico e, ao menor sinal, procure um especialista. Prevenção e cuidados podem evitar uma série de problemas e complicações futuras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL