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Paulo Chaccur


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O coração de 2050: como estará a saúde cardíaca do brasileiro no futuro?

Tecnologia tem promessas incríveis para saúde cardíaca, mas o Brasil está pronto para elas? - iStock
Tecnologia tem promessas incríveis para saúde cardíaca, mas o Brasil está pronto para elas? Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL VivaBem

30/09/2018 04h00

Hoje estamos vivendo um momento em que muito se fala do futuro do Brasil, do que esperar para os próximos anos em termos de política, economia e educação. E na saúde, quais devem ser os problemas, os desafios, as doenças e os tratamentos que estão por vir? Pouco tempo após o Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, convido você para uma reflexão: como estará o nosso coração em pouco mais de 30 anos?

Não tenho dúvidas de que as descobertas e os avanços da ciência e da tecnologia vão nos trazer cada vez mais recursos para ajudar na prevenção, diagnósticos precoces e tratamentos de doenças, mas será que o Brasil está preparado para receber e incorporar essas novidades?

Creio que não, infelizmente. Nosso país ainda enfrenta problemas graves pela falta de investimentos em medidas socioeconômicas, nas necessidades básicas dos cidadãos. Um exemplo disso é a alta incidência de doenças reumáticas que ainda temos por aqui, diferente do que acontece em países desenvolvidos, como Estados Unidos ou países europeus.

A doença reumática cardíaca é uma sequela da febre reumática aguda que, geralmente, está associada a falta de saneamento básico e outros determinantes da má saúde. O organismo de uma pessoa, sensibilizado por uma infecção na garganta, tem seus anticorpos atuando sob o coração, processo que leva a uma inflamação das válvulas cardíacas.

Para se ter ideia da gravidade da questão, atualmente realizamos cerca de 2 ou 3 cirurgias de válvula do coração relacionadas com a doença reumática por dia. Temos uma fila de mais de 300 pacientes precisando fazer esse tipo de cirurgia. Ou seja, é um grande problema na saúde pública. Se não existisse mais esse tipo de enfermidade, a demanda e, consequentemente, o custo para o SUS no tratamento desses pacientes seria muito menor.

Problemas de prevenção

Getty Images
Imagem: Getty Images

Outro ponto de atenção está na prevenção das doenças cardíacas e no acesso aos cuidados básicos de saúde. Muito se fala que para cuidar do coração basta seguir uma dieta balanceada, a prática de exercícios regulares e alguns outros cuidados, como o controle rigoroso do diabetes e da hipertensão. Mas veja, no Brasil de hoje, quem consegue isso?

As pessoas atualmente passam muito tempo no trânsito, no trabalho, produzindo. Muitas vezes fazem jornadas duplas e até triplas para manter a família. Precisam disso para sobreviver. E como ainda vão conseguir praticar esportes depois do expediente? Pensar em um cardápio equilibrado – e muitas vezes mais caro também? Fazer o devido controle e acompanhamento da saúde com a dificuldade que enfrentam para o atendimento na saúde pública?

Então veja que o cenário, os problemas, vão mais fundo. Imagina o nível de estresse das pessoas desempregadas atualmente ou que fazem jornadas longas para conseguir manter a renda familiar?

A consciência da importância dos cuidados e da prevenção de doenças deve caminhar junto com investimentos na qualidade de vida do trabalhador, no aumento da oferta de empregos, na melhora da qualidade da saúde pública, para que as pessoas possam ter uma rotina mais tranquila ou que pelo menos permita cuidar de sua saúde da maneira como é recomendado.

Diagnósticos mais avançados, mas não acessíveis

No caso dos diagnósticos, creio que a evolução venha no aprimoramento e na utilização de equipamentos de forma mais acessível. Os recursos atuais disponíveis dentro da cardiologia já nos permite descobrir doenças e até tratá-las ainda durante a gestação, mas nem todos têm acesso a isso. Uma ressonância, por exemplo, ainda é um exame que não está disponível para a população de maneira geral.

Por isso, antes de pensarmos em qualquer avanço que alta tecnologia ou a ciência podem nos proporcionar, precisamos ter em mente que o Brasil ainda precisa evoluir em questões básicas da sociedade, para que todos possam ter acesso a serviços de saúde de maneira mais justa e igualitária. Infelizmente, falamos de um país em desenvolvimento, desacreditado e repleto de incertezas.

Podemos ter coisas muito diferenciadas nas próximas décadas, com o exemplo das impressoras 3D. Dentro da cardiologia, esse recurso nos possibilita simular tratamentos e cirurgias, ajuda a traçar o caminho de como executar determinados procedimentos. O que virá pela frente? Cada vez mais segurança e precisão no caso das cirurgias e intervenções cardíacas.

Outro ponto importante em relação aos avanços da medicina cardiológica: os corações artificiais. Os dispositivos têm evoluído muito e rapidamente. Essa é uma tendência em função da quantidade reduzida de doadores de coração. Hoje já temos equipamentos que agem como um desfibrilador implantável, um marca passo que faz as vezes do sincronismo do coração e ao mesmo tempo dispara um choque interno para reverter uma arritmia cardíaca grave que poderia levar o indivíduo à morte súbita.

No futuro, creio que não será mais necessário esperar na longa e incerta fila de transplantes com a utilização de um coração de auxílio ao do paciente. Um dispositivo implantável que atuaria para auxiliar o coração doente, sem a necessidade da substituição por outro órgão.

O que será possível incorporar numa sociedade que ainda enfrenta tantos problemas? Se tivermos investimentos concretos e reais, muito! Se não, tudo isso poderá ficar cada vez mais distante de nós. O futuro vai depender basicamente da evolução da condição do país, uma melhora da sociedade como um todo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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