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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem está parindo merece suporte para ter experiência agradável e humana

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

10/08/2021 04h00

Você já ouviu falar em tocofobia? A tocofobia é o medo relacionado à gravidez e/ou ao parto. Esse medo pode estar relacionado com várias questões e muitas vezes a dor é o ponto principal.

O trabalho de parto e o parto vaginal são processos fisiológicos de promoção do nascimento e cada pessoa passa e vive essa experiência de maneira diferente. Para ela ocorrer o melhor possível, é essencial que a assistência oferecida às mulheres seja humanizada, baseada em evidências científicas, respeito e cuidado.

Já a dor relacionada ao trabalho de parto possui intensidades e respostas diferentes entre as pessoas e analisando a singularidade do momento ela pode ter percepções diferentes, pois muitos aspectos como o medo de algo desconhecido acaba se envolvendo nessas sensações.

Pensando em um parto humanizado e para auxiliar quem está vivenciando este momento é fundamental que essa dor seja validada e acolhida, assim a experiência do parto se torna muito mais respeitosa com satisfação e tranquilidade.

Hoje, na assistência ao parto, é possível empregarmos diversas técnicas medicamentosas e não medicamentosas para o auxílio ao trabalho de parto e alívio da dor. As Práticas Integrativas e Complementares são incentivadas pela OMS (Organização Mundial de Saúde), e no SUS (Sistema Único de Saúde) estão disponíveis de forma integral e gratuita com 29 métodos diferentes, sendo que muitos deles podem ser utilizados durante o trabalho de parto.

O objetivo de se utilizar medidas não farmacológicas para o alívio da dor durante o trabalho de parto é para: amenizar a dor, promover o relaxamento, possibilitar momento de conexão com as pessoas envolvidas na assistência e, em alguns casos, quando necessário, reduzir o tempo do trabalho de parto.

Algumas das Práticas Integrativas e Complementares que podem ser utilizadas durante o trabalho de parto são: aromaterapia, homeopatia, cromoterapia, hipnoterapia, acupuntura, musicoterapia, terapia de florais e ioga. Além de medidas como: massagem, eletroestimulação transcutânea, hidroterapia, crioterapia, exercícios, movimentos na bola e cavalinho.

Segundo a Daiane Alaniz, engenheira de bioprocessos e aromaterapeuta, "a aromaterapia é uma terapia com aromas e pode ser definida como o uso dos óleos essenciais (substâncias naturais extraídas de plantas) para tratamento de diversas situações físicas, mentais e emocionais, uma forma de tratamento promovido pela natureza e que nos oferece centenas de benefícios com efeitos colaterais quase nulos, se usados corretamente em comparação com medicamentos convencionais. Mas, por serem compostos por moléculas químicas, é preciso conhecimento prévio dos óleos principalmente nesses casos mais delicados, como o parto".

Ela ainda ressalta que o ideal é que o uso seja feito com o acompanhamento do aromaterapeuta, e as melhores opções são de óleos relaxantes e calmantes como: absoluto de jasmim (Jasminum officinale), lavanda fina ou francesa (Lavandula angustifolia), laranja doce (Citrus sinensis) e sálvia esclareia (Salvia sclarea).

A cromoterapia utiliza as cores vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta para a restauração do equilíbrio físico e energético do corpo.

Ao consultar Fernanda Raiol, professora de ioga, ela explicou que "a ioga tem como benefício a melhora na respiração, circulação sanguínea e consciência corporal, redução do estresse e ansiedade antes e durante o parto, aumento da força, flexibilidade e resistência dos músculos necessários para o parto, maior controle emocional para lidar com a quantidade de hormônios e mudanças no corpo, redução de dores como dor pélvica ou nas costas, náuseas, dores de cabeça e falta de ar."

Segundo Ana Huang, médica acupunturista: "A acupuntura tradicional envolve a inserção de agulhas em diferentes pontos na superfície da pele. Os locais onde as agulhas são inseridas, os pontos de acupuntura, são conectados pelos chamados meridianos (canais de energia). O objetivo da acupuntura é melhorar o fluxo de Qi (energia) através do corpo, estimulando, equilibrando e movimentando essa energia."

No contexto do parto e da gestação, ela conta que a acupuntura vem sendo cada vez mais utilizada na indução do trabalho de parto, aumentando as contrações uterinas e a dilatação do útero, além de promover alívio da dor, reduzindo o consumo de analgésicos farmacológicos e a tensão psicológica.

A terapia com florais, criada por Edward Bach, utiliza essências derivadas de flores que atuam nos estados mentais e emocionais e isso também é favorável para um maior equilíbrio no momento do parto.

Hidroterapia: banho no chuveiro ou na banheira auxilia no relaxamento do corpo e a diminuição da dor entre as contrações.

Crioterapia: compressas com gelo na região lombar para alívio da dor.

Hipnoterapia: técnicas que trazem relaxamento, concentração e/ou foco, induzindo a parturiente a chegar a um estado de consciência aumentado que permite alterar condições ou comportamentos indesejados, como medos, fobias, angústia, estresse e dores que podem estar relacionadas ao trabalho de parto.

Entre as opções farmacológicas, pode ser feita anestesia peridural combinada com a raquianestesia contínua e anestesia inalatória com óxido nitroso, conhecido como gás hilariante, que ainda não é muito comum no Brasil, mas utilizada em diversos países da Europa e nos Estados Unidos.

Segundo Rafael Romero, médico anestesiologista do Coletivo de Anestesia Obstétrica, "uma analgesia bem indicada e bem administrada pode permitir a construção de um espaço de descanso e alívio no trabalho de parto, e a recolocação da mulher no centro do cuidado, inclusive decidindo o quanto de dor quer sentir."

Hoje, infelizmente o número de pacientes que não tem acesso à analgesia ainda é grande por motivos de falta de anestesista, material e profissionais treinados para acompanhar a paciente. Já as contraindicações, segundo Rafael, são poucas e raras, sendo a principal a coagulopatia ou uso de medicações anticoagulantes.

Ainda que sejam extremamente incomuns as complicações com sangramento no local do bloqueio, pessoas com alterações de coagulação estariam mais sujeitas a esses riscos. Portanto, há a necessidade de que pessoas com histórico de sangramento anormal, doenças da coagulação diagnosticadas, ou em uso de anticoagulantes sejam identificadas e acompanhadas.

Não importa se a pessoa gestante está na primeira experiência de parto ou na segunda e por aí vai, cada experiência deve ser única, pautada em respeito, protagonismo para quem está parindo com todo suporte possível para que tudo aconteça da forma mais agradável possível, são muitas opções para redução da dor e suporte, não existem justificativas para que a assistência não seja humanizada.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

https://antigo.saude.gov.br/saude-de-a-z/praticas-integrativas-e-complementares

Orange, Flávia Augusta de, Amorim, Melania Maria Ramos de e Lima, Luciana uso da eletroestimulação transcutânea para alívio da dor durante o trabalho de parto em uma maternidade-escola: ensaio clínico controlado. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia [online]. 2003, v. 25, n. 1

Gayeski, Michele Edianez e Brüggemann, Odaléa Maria Métodos não farmacológicos para alívio da dor no trabalho de parto: uma revisão sistemática. Texto & Contexto - Enfermagem [online]. 2010, v. 19, n. 4

DIAS, Ernandes Gonçalves et al. EFICIÊNCIA DE MÉTODOS NÃO FARMACOLÓGICOS PARA ALÍVIO DA DOR NO TRABALHO DE PARTO NORMAL. Enfermagem em Foco, [S.l.], v. 9, n. 2, out. 2018. ISSN 2357-707X.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL