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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Festas, futebol, Carnaval e pandemia, a combinação fatal!

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

22/11/2021 04h00

Estamos vivendo o que podemos chamar de momento "mais confortável" da pandemia da covid-19. Atualmente, diferentemente de qualquer outro período dentro desses quase dois anos de tragédia humana, econômica, educacional etc., já é possível dizer que estamos mais próximos de conseguir paz em nossas vidas, com um possível controle do coronavírus.

Isso se deve a uma série de fatores, principalmente ao alto percentual de vacinação que temos aqui no Brasil e, consequentemente, a enorme queda do número de internações e mortes provocadas pela covid-19, levando a um esvaziamento de hospitais —escrevo isso com uma felicidade imensa, impossível de descrever. Mas, como cientista, não posso falar apenas com a emoção e tenho obrigação de usar a razão. Por isso, devo chamar a atenção para questões que precisamos focar nesse momento, para não darmos passos para trás e atrapalhar a luta contra a pandemia —como aconteceu em muitos países.

O problema da vez são as festas programadas por muitos governantes, que vão desde as comemorações de fim de ano ao Carnaval.

Você, caro leitor, pode perguntar: "Qual o problema das festas? Vocês, cientistas, não falaram que com aproximadamente 70% da população completamente vacinada nós voltaríamos à vida normal?"

Realmente, esse é um percentual que tanto desejamos. Por outro lado, não podemos nos esquecer do conceito básico de pandemia, que é quando uma doença atinge o nível mundial. Ou seja, quando determinado problema, como a covid-19, espalha-se por diversos países e continentes.

Dessa forma, é superimportante agir localmente, buscando a vacinação em massa em nosso país, mas nunca devemos deixar de ficar de olho no que acontece pelo mundo, pois esse vírus tem nos pregado surpresas nada agradáveis. As lideranças de verdade pensam além da "saúde pública padrão condomínio", na qual acham que a segurança é importante apenas onde moram.

Imagine o que pode acontecer em uma festa de Ano-Novo em Copacabana ou na Paulista e no Carnaval em muitos lugares do país? Um número absurdo de pessoas vindo de várias partes do mundo, se misturando, se abraçando, se beijando, compartilhando vírus e suas variantes, um para o outro, sem nenhum pudor! Jesus Amado, isso é tudo que qualquer vírus quer, disseminação descontrolada!!

Daí, surgem novas variantes (se é que já não surgiram e não descobrimos ainda), e vai que uma delas seja capaz de escapar das vacinas, mesmo que parcialmente. O prejuízo será terrível. Dessa forma, se os governantes quiserem carregar nas mãos e na alma a possibilidade de mais mortes provocadas pela covid-19, basta cravarem que teremos mais e mais eventos grandiosos como festas de Ano-Novo e Carnaval antes de controlar a pandemia!

Com diversos países e até continentes sem suporte vacinal, o cuidado para fazer festas que trazem alta taxa de pessoas vindo de várias partes do mundo para nosso país precisa ser muito maior. A coisa deve ser mais organizada. Esse tipo de evento só pode acontecer após o controle da pandemia de forma global.

Precisamos também levar em consideração que o Brasil é horrível em vigilância genômica, nossas estratégias de fazer diagnósticos em massa são medíocres. Dessa forma, baixem o facho e vão trabalhar para salvar vidas e gerar condições sociais de melhor qualidade, não fiquem querendo expor a população a maiores riscos, para voltarmos à carnificina e fechamento de escolas, comércio etc.

E o futebol e festas "locais"?

"Se o problema é reunir gente do mundo inteiro, por que não fazemos apenas festas nacionais?", alguém pode questionar. "Podemos fazer algo como o futebol, que está acontecendo com os estádios cheios e as pessoas que entram são aquelas com o passaporte vacinal."

Não é bem assim. A Austrália e outros países fizeram isso e quebraram a cara. Estão em lockdown novamente! A vacinação, vale sempre ressaltar, é para evitar que as pessoas que tenham contato com o vírus possam desenvolver a doença em estado grave e moderado. Mas a vacina não é uma bala mágica, que protege 100% das pessoas.

Na verdade, a vacina não protege, ela estimula nosso sistema imunológico a proteger o corpo. Então, dependendo da pessoa, a vacina pode variar sua capacidade de estímulo. Se uma pessoa não estiver com a imunidade em bom estado, o estímulo provocado pela vacina não será o mesmo de uma pessoa em perfeitas condições. Mas, como podemos saber se a pessoa está com o sistema imune nas melhores condições, levando em conta uma população de mais de 210 milhões de habitantes e tão desigual socialmente?

Por isso, até controlarmos a pandemia, precisamos da ajuda da sociedade para manter os cuidados. E, principalmente, das autoridades!

Como bom corintiano que sou, fui assistir (pela TV) ao jogo contra o Flamengo, na semana passada, e o que vi foi o Maracanã lotado de gente sem máscara! Só Jesus na causa! Todos gritando e os que estão infectados, mesmo que assintomáticos, expelindo o vírus no ar, que certamente aproveitou a "alegria" festa de quem estava no estádio para se instalar no corpo do maior número possível de pessoas. Que alegria e que festa, hein?! (sarcasmo)

Sim, eu sei que o transporte público no dia a dia está tão lotado quanto os estádios. Mas temos que pensar com a razão. Além de no transporte as pessoas estarem com máscara e não se abraçarem, cantarem e se beijarem, o transporte público é essencial para as pessoas irem e virem e buscarem seu sustento. Futebol, Carnaval e festas de fim de ano não são essenciais nesse momento de pandemia, por mais que tenham uma importante função social e econômica.

Precisamos pensar de forma complexa e estratégica, pois a situação exige isso. Simples assim, não temos outra opção, ou a humanidade pensa e age de forma coletiva e abre mão de certas coisas que não são prioridade, como festas e ver a um jogo no estádio, ou viveremos de forma restritiva e sob o medo contínuo por um longo período!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL