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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

2ª dose da Janssen tem 94% de eficácia? Devemos analisar dados com cuidado

Vacina Janssen  - KAMIL KRZACZYNSKI / AFP
Vacina Janssen Imagem: KAMIL KRZACZYNSKI / AFP
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

28/09/2021 04h00

Precisamos ter muito cuidado com a forma na qual comunicamos dados científicos sobre vacinas e medicamentos, assim como na maneira que exigimos informações sobre eles.

Para explicar melhor isso, vou usar como exemplo o anúncio feito recentemente pela Janssen, farmacêutica que é um braço Johnson & Johnson, que divulgou que a dose de reforço (no caso a segunda dose) do seu imunizante forneceu 94% de proteção contra a covid-19 nos EUA. Junto com isso, a empresa informou que a vacina de dose única gera proteção duradoura.

Não estou questionando esses dados, pois a empresa já havia apresentado outros dados científicos robustos, de fase 3, sobre a eficácia de sua vacina. No entanto, é preciso chamar a atenção para um outro dado incluído na publicação do fabricante. Ele mostra que o imunizante ofereceu 75% de proteção contra a covid-19 sintomática num contexto global, e esse dado não foi divulgado de forma contundente —quando os fabricantes da CoronaVac fizeram o mesmo, por exemplo, isso foi muito cobrado e criticado, talvez por preconceito ou "síndrome de vira-lata".

Como falei, os dados da Johnson & Johnson não são ruins. Pelo contrário, são ótimos, mas temos que ser cuidadosos ao fazer esse tipo de distinção entre vacinas, para não gerar mais preconceitos desinformados e diminuir a capacidade de outras vacinas.

Mas o ponto que quero chegar é que todos os dados divulgados sobre uma vacina precisam ser claros, pois é com base neles que iremos montar as estratégias de imunização de toda a população e a definição se a dose de reforço é necessária ou não neste momento, por exemplo. Por isso, todos os fabricantes precisam ser cuidadosos e informar de forma bastante clara todas as descobertas.

Quando a segunda dose da Janssen deveria ser aplicada?

Outros dados interessantes revelados pela Johnson & Johnson mostram que, quando a dose de reforço é aplicada dois meses depois da primeira dose, há um aumento de 4 vezes na produção de anticorpos. Já quando a imunização de reforço é feita seis meses após a primeira dose, o aumento do nível de anticorpos sobe 12 vezes.

Esses dados são incríveis para montarmos as estratégias de vacinação global, pois além do enorme aumento na produção de anticorpos, esse tempo extra é fundamental para determinarmos uma estratégia de imunização que nos possibilite levar os imunizantes para a sociedade, sem a pressa de ter que aplicar a segunda dose, gerando, assim, um tempo para passarmos por esse gargalo de produção de vacinas em larga escala em tão pouco tempo.

Desse modo, podemos tentar levar a primeira dose desse imunizante para pessoas ao redor do mundo e conseguir mais 6 meses para negociarmos estratégias de conseguir mais imunizantes para distribuirmos internacionalmente.

Sim, pessoal, precisamos pensar para além de nosso próprio umbigo. Combater a pandemia de modo global é importante não só para salvar vidas em todas as partes do mundo, como também para controlar o coronavírus —está enganado quem pensa que já controlar o vírus só em seu país (ou estado, cidade) já resolve, pois variantes surgidas em outros locais podem ter potencial para escapar das vacinas, mesmo que parcialmente, e se espalharem pelo mundo, provocando novas ondas de infecções e mortes, até mesmo em locais com altas taxas de vacinação.

Isso já está acontecendo, inclusive. Mais de dois terços das vacinas são consumidas por apenas 10 países, entre eles os EUA, a nação que mais comprou e manteve vacinas. Mesmo assim, a variante delta está destroçando, em média, mais de duas mil vidas diariamente por lá.

Mas, voltando aos dados divulgados pela Janssen, eles ainda reforçam a proteção forte e duradoura de sua vacina contra a covid-19, e que essa proteção aumenta quando uma injeção de reforço da vacina é administrada. Além disso, o perfil de segurança da vacina manteve-se e o imunizante foi bem tolerado pelo corpo.

Isso quer dizer que devemos tomar a segunda dose assim que passar de dois a seis meses após a primeira dose? Não! A empresa ainda está solicitando a autorização para a aplicação da segunda dose para a agência reguladora dos EUA —o FDA (Food and Drug Administration)— e encaminhando o pedido para outros órgãos reguladores, como o da União Europeia e, muito provável, para a Anvisa, assim como para a OMS (Organização Mundial da Saúde).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL