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Gustavo Cabral

Resultados da CoronaVac foram da política a bons resultados científicos

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Imagem: Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

13/01/2021 18h44

Estamos vivendo uma situação no Brasil em que até as vacinas estão sendo politizadas. Com isso, em qualquer ato para defender ou criticar algo técnico científico da imunização contra covid-19 as pessoas são imediatamente classificadas em uma ideologia política, que provavelmente é diferente da semana anterior.

Mas, como a preocupação aqui é com análise de dados, vamos seguir nessa linha e falar de ciência, sem qualquer interesse ou ideologia política. Vamos começar com a tão confusa e posterior esclarecedora apresentação dos dados da CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o nosso Instituto Butantan.

Por que anteriormente confusa e agora esclarecedora?

Porque semana passada (06) o Instituto Butantan e o governo do Estado de São Paulo fizeram uma "performance" para anunciar os tão esperados dados da CoronaVac que mais parecia a apresentação de um candidato político do que apresentação de dados científicos. E, por conseguinte, apresentaram informações incompletas sobre a eficácia da vacina, gerando uma bateria de questionamentos da comunidade científica e dos meios de comunicação. Com isso, deram combustível ao negacionismo e geraram ainda mais desconfiança sobre a vacinação.

Porém, o Instituto Butantan é grandioso e sabe trabalhar muito bem com ciência. Ontem (12/01/2020) foi uma pequena amostra disso, ao apresentarem os dados preliminares da vacina testada aqui no Brasil.

O que temos até agora?

Temos uma vacina capaz de proteger a população da doença no estado grave. Ou seja, as pessoas vacinadas com a CoronaVac estarão protegidas da covid-19 que necessita de hospitalização com possibilidade, internação na UTI e pode causar. Isso é ótimo!

Evitar internações e mortes é o objetivo número um de qualquer vacina em desenvolvimento contra a covid-19, e a CoronaVac alcançou esse objetivo"

Porém, para nós, cientistas, vemos alguns detalhes que é normal que a população não observe. Um deles é o número de casos graves e moderados no grupo placebo, que foi muito baixo e, consequentemente, não gerou um poder estatístico significante. Mas, como estamos falando em dados preliminares, para solicitação de uso emergencial, isso é, sim, animador.

Além disso, a vacina gera uma proteção de aproximadamente 78% para casos leves. Ou seja, de 100 pessoas vacinadas, 78 estarão protegidas e 12 podem desenvolver alguns sintomas de covid-19 que vão necessitar de alguma assistência médica, mas ninguém vai ficar internado. Mais um objetivo obtido: a vacina vai evitar que os hospitais se tornem "moradia" da população e que as pessoas, muitas vezes, não saiam de lá com vida. Ou seja, é para se animar com a utilização dessa vacina!

E os 50%?

Como expliquei aqui no VivaBem, essas vacinas protegem contra a covid-19, mas não contra o coronavírus. Dessa forma, seguindo os protocolos tão rígidos que o Butantan tem aplicado, em que observa casos muito leves, a consequência natural era que esse número de proteção viesse a cair.

Ou seja, aquelas pessoas que foram vacinadas com a CoronaVac no estudo e apresentaram algum sintoma leve, como dor de garganta, foram avaliadas pela equipe de pesquisa, fizeram PCR, deram positivo e foram classificadas como pessoas que desenvolveram a covid-19, mesmo tendo sintomas que, fora do ambiente de pesquisa, não necessitariam de atendimento médico.

Dessa forma, a tendência é que o número de proteção caia bastante. Mesmo assim, compreendamos que de cada 100 pessoas vacinadas com a CoronaVac, 50 que tiverem contato com o vírus não desenvolverão nenhum sintoma de covid-19 e 50 poderão desenvolver algum sintoma, sendo que 22 poderão precisar de alguma assistência médica, mas nenhuma será hospitalizada ou precisará de UTI.

Logo, dá para concluir que a vacina nos ajudará bastante a controlar essa pandemia, pois além dos dados supracitados, ela não gera reações adversas, é perfeitamente aplicável ao PNI (Plano Nacional de Imunização) e de fácil distribuição para todo o país, pois pode ser mantida em temperatura de 2 °C a 8 °C, ou seja, temperatura de geladeira.