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Gustavo Cabral

Vacina não pode virar uma mesa de negócios devastadora para sociedade

Julio Ricco/iStock
Imagem: Julio Ricco/iStock
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

04/01/2021 04h00

Com essa desordem no Ministério da Saúde e as insanidades do presidente da republica em falar uma asneira atrás da outra, o que temos de excelência, que é o PNI (Programa Nacional de Imunização) tem se tornado um programa nacional de questionamentos e incertezas.

Com tantas incertezas, com mudanças de informações de um dia para o outro, surgem também as oportunidades de negócios e políticos que podem desmontar por completo o PNI. Pois, nessa desordem, surgem as judicializações da ciência, como aconteceu no caso da obrigatoriedade da vacina que, como escrevi aqui em minha coluna, não ajudou em muita coisa, pelo contrario, deixou espaço para mais questionamentos, pois o processo judicial não conhece detalhes científicos que são muito importantes para nortear as ações a serem tomadas.

Para além disso, surge a autonomia dos Estados e municípios em obter vacinas independentemente do Ministério da Saúde. Com isso, surge o que mais temo, a total desordem na distribuição das vacinas e a grande mesa de negócios financeiros e políticos em cima disso.

Com a "habilidade" de parte da política e empresarial em desviar do caminho correto para levar para população o que a ela pertence, havendo a possibilidade das vacinas anti-covid-19 serem obtidas e distribuídas por fora do PNI, haverá diversas compras de vacinas através de prefeituras e seus representantes parlamentares, além dos famosos intermediários.

Consequentemente, quem tem mais poder financeiro e contatos para adentrar nos corredores desse negócio, aproveitará para extrair ainda mais poder - políticos, pois levará aos seus representados a tão desejada vacina, assim como, financeiro, pois, como supra citei, "somos mestres" em super faturar, temos essa habilidade em usar de qualquer oportunidade para "tirar o nosso por fora". Basta ter exemplo dos diversos desvios relacionados a obtenção de respiradores durante essa pandemia. O resultado é o que todos sabemos, mais crimes e maior desigualdade.

Por outro lado, temos um Ministério da Saúde refém dos desejos presidenciais, ou seja, uma esfera cheia de incertezas que, infelizmente, tem mais provocado caos do que organização social. Ao mesmo tempo, precisamos ter cuidados para não levarmos tudo para judicialização, pensando que "tirando" as responsabilidades do poder federal, estaremos contribuindo para uma melhor organização social.

Pode ser o oposto, podemos estar jogando nas mãos dos oportunistas a possibilidade de arrancar da sociedade o que temos de direito, um programa de vacinação social e igualitária.

Então, o que fazemos?

Continuar pressionando o governo federal a ter uma linha de trabalho realmente profissional, com ações técnicas. Sei que é complicado falar isso em um governo como o atual, mas não há outra forma. Se o ministro não consegue fazer o trabalho de logística em saúde, pelo menos que permita outros profissionais da área atuarem.

Mas ao mesmo tempo, para que isso aconteça, talvez seja necessário aplicar aquela famosa frase que Romário falou para o Pelé, que poderia ser aplicada ao presidente Bolsonaro - "Alguém ponha um sapato na boca do Presidente, porque ele calado é um poeta".

Com Bolsonaro falando menos, ou até não opinando na área da saúde, e o ministério tendo os técnicos trabalhando, será de grande ajuda para o Brasil ter um PNI bem delineado e aplicado. Consequentemente, a chance de controle da pandemia será muito maior e assim, podermos ter uma estabilidade social, sem esse prejuízo humano e financeiro incalculável estamos tendo.