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Dante Senra

Por quem os sinos dobram? A vida tem primazia e toda morte deve ser sentida

Tarso Sarraf/Estadão Conteúdo
Imagem: Tarso Sarraf/Estadão Conteúdo
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

13/12/2020 04h00

Não há heróis na pandemia. Há profissionais de saúde treinados, dedicados e com um enorme senso de dever.
Não há políticos treinados na pandemia e, portanto, alguns erros no percurso podem aparecer. O que não se aceita é a inação.

Me parece óbvio proteger a vida mesmo em detrimento de alguma perda econômica, se este é o preço.

Como médico, penso que a vida tem primazia, tem que ser defendida em todas suas instâncias e toda morte tem que ser sentida.

É verdade, entretanto, que não há como subestimar a importância do trabalho, das relações e atividades sociais. Há argumentos consistentes para todas as teses.

O que não se pode, para qualquer pessoa que tenha razoabilidade, é o costume e a aceitação passiva do número de mortes. Relativizar vidas humanas é inqualificável.

O que era assustador no começo vai se tornando normal. O conformismo das pessoas me assusta tanto quanto a doença.

Quando se começa a definir que é aceitável morrer idosos, surge uma lógica extremamente perversa que, a meu juízo, ultrapassa todos os limites de qualquer senso de decência.

Estamos vivendo em uma sociedade que não tem dado à vida a atenção e a importância que ela merece e assim não nos preocupamos mais com o cuidado e com a prevenção.

Não cobramos de nossas autoridades medidas sanitárias e um plano ou data para nossa vacinação. Viramos massa de manobra política cegamente polarizada com esse maniqueísmo tosco de direita ou esquerda.

No meio da pandemia, Laine Valgas, repórter de Santa Catarina, escreveu que "não precisamos esperar que isso aconteça bem perto da gente, conosco, com quem amamos, pra então sentir que se trata de seres humanos, com histórias, caminhadas e legados únicos —e que a falta deles dói, e muito!"

Usa-se o frágil argumento que morrem mais pessoas de acidentes de trânsito, outras doenças e até de fome. E por isso vamos aceitar mais uma doença infecciosa sem cobrar providências? Será este o novo normal?

UTIs lotadas novamente, país parado, economia em frangalhos e número de mortes ocupando novamente os noticiários. Integridade e respeito vêm antes de ideologia, senhores políticos.

Discursos desalinhados criam um cenário de incertezas para quem busca direção, rumo e orientação.

Média móvel de mortes e contaminados aumentando novamente e briga política não cabem na mesma frase. Este cenário reproduz o absurdo em estado puro. Desrespeitoso com os brasileiros.

Isto não é um discurso de direita ou esquerda para os que gostam de rotular. É um discurso humanitário.
É humano sentir pela dor de quem conhecia essas pessoas.

Precisamos urgentemente dizer não a banalização e nos mover na direção de uma ética que aposte na luta pela vida.

Assim como no romance de 1940 (escrito pela primeira vez em 1624 por um reverendo e poeta inglês chamado John Donne), do escritor norte-americano Ernest Hemingway: "A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim. Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".