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Sanidade em tempos de pandemia: mito ou verdade?

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

02/05/2020 04h00

O que mais se vê são dicas para manter a sanidade e o equilíbrio em tempos de pandemia. Embora bem-intencionadas, posso assegurar-lhes que o normal nessa situação é a angústia, o temor e a incerteza. Quem assim não estiver, está fora da curva e comece a pensar na possibilidade de terapia.

Não poderia ser diferente diante de uma situação que não se tem algum controle. Liga-se a tóxica televisão e se vê recordes de mortes, prefeito tranquilizando porque ninguém ficará sem ser enterrado, frigoríficos para colocar os corpos, estapafúrdias, para não dizer estúpidas, previsões de número de contaminados e possibilidade de vacina como a única solução viável para daqui um ano no mínimo (aliás, onde estão os antivacinas agora?)

Tudo sem contar a economia destruída e ninguém podendo trabalhar, a não ser uma pequena parcela da população que pode fazê-lo remotamente. Não esqueçamos da possibilidade de não encontrar leitos de hospitais e UTIs se necessitarmos, já que com irresponsabilidade social gastamos bilhões para construir estádios de futebol ao invés de hospitais e escolas.

Lembra o que disse um jogador de futebol? "Não se faz copa do mundo com hospitais". A conta é de que cada três assentos no Estádio Mané Garrincha, de Brasília, poder-se-ia comprar um respirador. Agora os transformamos em hospitais de campanha.

Mas mantenha a calma e a sanidade. Basta seguir as dicas dos que sabem como se manter à parte desse momento, deste mundo.

Lembram-se daquele padre que há 11 anos saiu voando por aí e nunca mais foi visto? Que inveja. Hoje teria muitos seguidores.

Esperem. Podemos contar com ações e orientações governamentais eficientes e confiáveis. Mas temos duas distintas. Qual é a certa?

No campo da política, a polarização ultrapassou os limites do razoável, como se houvesse um mínimo espaço neste momento para preocupações mesquinhas eleitoreiras. Vemos cenas onde a idiotização toma a forma humana e sem escrúpulos.

A vida remota, fruto da crise, enaltecida como ganho, a meu ver implica em fracasso absoluto de vínculos afetivos e sociais. Funcionários ou trabalhadores remotos não têm a sensação de pertencimento da empresa. A vida é presencial e precisa voltar a ser em sua plenitude.

Tamanha é a preocupação com a saúde mental das pessoas neste momento que até mesmo a OMS (Organização Mundial de Saúde) publicou recentemente uma cartilha para seguirmos. Simples assim. A mesma confiável OMS que afirmou recentemente que o vírus não possuía transmissão entre seres humanos e que não havia necessidade de fechamento de fronteiras.

Vamos lá então.

Ficou claro que a única coisa que se pode controlar, e nem sempre, é como nos sentimos. Precisamos antes de mais nada saber o lugar que ocupamos, conhecer nosso real papel no âmbito familiar, pois manifestações de desespero e desesperança do esteio ou pilar de sustentação da família podem abalar a todos na casa.

Dizemos que para atravessar o deserto é preciso ter mais do que recursos financeiros, mas emocionais, esperando encontrar Canaã do outro lado.

Tentar evitar o bombardeio de informações é um bom começo, já que as notícias de recuperação, de esperança e de boas expectativas são exceções na mídia atualmente. Fala-se dos mortos, mas não dos recuperados.

Precisamos de mudança urgente do foco, previsões baseadas em dados concretos e não suposições, de orientações sobre comportamento e de métricas corretas dessa pandemia.

Claro que na quarentena você pode estreitar relações com familiares que moram com você, dedicar-se a um estudo específico de idiomas ou instrumento musical, ler um bom livro e ver todas as séries que sempre quis na Netflix, mas lembre-se que as ações de solidariedade são as que mais fazem sentido neste momento.

Tente lembrar-se que o final desse difícil momento da humanidade irá chegar e você precisa manter-se saudável física e emocionalmente porque o período pós pandemia vai assim exigir.

Se ainda assim não conseguir livrar-se ou sequer amenizar sua angústia, é melhor comparar-se aos que estão internados, estes sim absolutamente isolados dos que amam, cujo único contato é com anônimos mascarados.

Em síntese. Precisamos de novas referências e novas métricas neste momento.

Ao invés de olhar o número de mortos e se desesperar, olhe os que ficaram bons. Ao invés de reclamar da economia, veja alternativas e pense nas oportunidades de trabalho e progresso que depois certamente surgirão.

Ao invés de reclamar da ausência dos familiares, lembre-se que pode comunicar-se com eles através de recursos áudio visuais da tecnologia, coisa que nunca existiu em outras epidemias.

Ao invés de reclamar da viagem para o exterior perdida, tente fazer uma viagem para dentro de si reavaliando seus valores.

E o mais importante: lembre-se que é mais uma oportunidade de ser solidário, pois como diz a poeta "A vida é cheia de lutas a serem vencidas... Mas quando há solidariedade e amor, o mundo fica mais humano e a esperança nunca morre para todo aquele que tem fé".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL