PUBLICIDADE

Topo

Lições da covid: o que a médica paulistana aprendeu com indígenas do Amapá

A infectologista Vivian Avelino-Silva em seu trabalho de 10 dias no Amapá - Arquivo pessoal
A infectologista Vivian Avelino-Silva em seu trabalho de 10 dias no Amapá Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

05/08/2020 04h00

Em um dia, a atenção está voltada para a alta tecnologia. É preciso tomar decisões com base em testes de RT-PCR, considerar as melhores práticas de manejo de pacientes com covid-19 na UTI cinco estrelas, ter na ponta da língua as mais recentes evidências científicas sobre o novo coronavírus.

No outro dia, o desafio é seguir sendo relevante para a comunidade, mesmo na ausência de sabão para lavar as mãos no rio. Poucos médicos têm a oportunidade de viver o contraste desses dois mundos - ainda que por alguns dias.

Em julho, a infectologista Vivian Avelino-Silva, professora de duas importantes faculdades de medicina de São Paulo (USP e Albert Einstein), embarcou em uma viagem de avião até Macapá e mais sete horas de estrada de terra para chegar ao município de Pedra Branca do Amapari, no Amapá.

Vivian foi ajudar a fazer prevenção à covid-19 e acompanhar a instalação de uma unidade de atendimento na área indígena dos Waiãpi. Viajou a convite do Instituto Iepé, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena Amapá e Norte do Pará (DSEI).

Durante dez dias, ela contribuiu para o esforço de evitar que o rastro da doença atinja os Waiãpi da mesma forma como tem vitimado outras etnias no país.

Na semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) julga a ação que pede medidas imediatas do governo federal para proteger os indígenas da covid-19, o relato de Vivian à coluna (reproduzido em primeira pessoa nos parágrafos abaixo) revela aprendizados valiosos. Não só para a medicina e a política, como para qualquer pessoa que se interessa pela vida.

O que vi e ouvi

"Os Waiãpi são seminômades. Ficam alguns meses em uma aldeia, fazem roça, colhem e depois se mudam. Em geral, para uma aldeia mais distante. Por causa dessa tradição, foi meio intuitivo para eles se afastar para aldeias mais distantes da estrada quando começou a pandemia. A BR-210 é a via pela qual chegam os homens brancos com covid-19.

Alguns dos indígenas têm a lembrança da grave epidemia de sarampo dos anos 70. A população foi dizimada. Por isso, agora eles já estavam tentando se proteger com essa estratégia de migração.

Um indígena contou que muitos adultos morreram naquela epidemia. Sobraram cerca de 200 pessoas. Em sua maioria, crianças. Elas tinham que enterrar os corpos dos adultos. Só conseguiam abrir covas rasas. Em seguida, aparecia uma onça, pegava o corpo e levava embora.

As memórias são muito impactantes. Coisas que eu só havia lido em livros de História. Nunca imaginei que teria a chance de ver ao vivo. Para mim, foi muito especial. O maior aprendizado que trouxe comigo foi o de valorizar uma rotina com mais simplicidade e leveza. Os indígenas não acumulam coisas inúteis.

O que fizemos

Chegamos na hora certa para fazer prevenção. Eles ainda não foram tão atingidos pela doença como outros grupos indígenas. Não há transmissão comunitária. Os Waiãpi são cerca de 1.500 pessoas. Até o início de julho, apenas uma família pequena havia se infectado. Todos se recuperaram.

Fizemos orientação sobre distanciamento social e distribuímos máscaras e testes - tanto para os agentes indígenas de saúde, quanto para a equipe que estava lá pelo DSEI. Foi uma parceria muito importante para eles.

O que senti e aprendi

Nunca tive uma experiência parecida. Esse grupo indígena só teve contato com o homem branco a partir da década de 70. Moram em maloca aberta, usam tanguinha, tomam banho no rio, caçam, pescam, comem a mandioca que plantam. Têm uma cultura preservada.

Fomos recebidos com muito carinho. Eles são afetuosos e sentem confiança. Querem que a gente esteja presente para explicar o que está acontecendo. Ouviam as nossas informações com muita atenção e interesse. Estão com medo.

O que precisei mudar

Trabalho em hospitais centrais em São Paulo. Nesta pandemia, estou focada em coisas sofisticadas. Quando cheguei à aldeia, minha preocupação era se ia ter sabão para lavar as mãos no rio. Meu olhar se voltou às necessidades básicas.

Foi preciso mudar o meu raciocínio. De uma medicina baseada em alta tecnologia para uma medicina de campo que procura ser capaz de resolver problemas, mesmo sem ter uma infraestrutura pesada de saúde.

Uma das metas que a gente tinha era diminuir a necessidade de ida dos indígenas para a cidade. Assim é possível reduzir o número de potenciais exposições à covid. Evitar que precisassem buscar socorro em Macapá por causa de malária, mordida de morcego e outras necessidades de saúde não diretamente relacionadas ao coronavírus.

Acho que tivemos progressos nisso. Conseguimos dar mais autonomia a eles dentro da própria terra indígena. Levamos testes rápidos de covid e de malária, entre outras coisas, para não precisar transportar amostras ou o próprio paciente até a cidade.

O que eles queriam saber

As dúvidas deles são muito diferentes das dúvidas dos pacientes do Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo. Elas são baseadas em outro contexto cultural. O de pajelança, espíritos, espectros.

Explicávamos que o vírus é invisível, transmitido pelas gotículas que a pessoa solta pela boca e pelo nariz. Acho que no imaginário deles isso é interpretado como algo que fica no ar, como um espectro, uma coisa meio espiritual.

Existe a crença, entre os Waiãpi e outros povos indígenas, de que se você adoece é porque alguém desejou o mal a você. Ainda assim, eles aceitaram o uso de máscara. Quando explicávamos que era preciso usar, eles a colocavam rapidinho.

O difícil é a manipulação delas só pela alça. Quando eles passam urucum, a máscara fica toda vermelha. É preciso lavar toda hora e não tem sabão.

A gente tentava traduzir a informação de uma forma bem objetiva. Dizíamos que houve 1.000 casos no Amapá em maio. Subiu para 9.000 casos em junho e, depois, para 29.000 em julho. Explicamos que os brasileiros vinham enfrentando várias restrições por causa do coronavírus.

Tentamos dar uma noção da grandeza do impacto da doença no mundo dos brancos. Explicávamos por que estávamos tão preocupados com eles. Ficamos otimistas com o trabalho feito com os Waiãpi. Continuamos atentos à dimensão da epidemia nas populações indígenas".

O que você achou deste conteúdo? Comentários, críticas e sugestões podem ser enviados pelo email segatto.jornalismo@gmail.com. Obrigada pelo interesse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL